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Emanuel Alencar: O fim do bosque do Barão e a normalização do domínio do concreto

Não consta que o Barão de São Clemente (Antônio Clemente Pinto Filho), rico cafeicultor do Império, tivesse especial predileção pelos vegetais. Ainda assim, ao construir seu palacete neorrenascentista em 1859, no bairro do Flamengo, dotou o imóvel de um atributo fundamental: um bosque portentoso, com dezenas de árvores, algumas delas frondosas e centenárias.

Esse respiro urbano — um terreno que abrigava um bosque e um pequeno ecossistema com fauna local (maritacas, micos, falcões) — deixou de existir em 30 de dezembro de 2025.

Antes muito querido por moradores da região, o número 55 da Rua Marquês de Abrantes, conhecido por abrigar o Colégio Bennett, deu lugar a um projeto com a cara do “mais do mesmo” das grandes incorporadoras que dominam as metrópoles: concreto, vigas, ferros e quase nenhum verde. A TGB Imóveis, em parceria com o BTG Pactual, vai erguer no local um condomínio residencial com duas torres e 414 apartamentos de diferentes tipologias. O empreendimento é apresentado, com certo verniz cosmético, como um “branded residence”.

O nome pode soar sofisticado, mas encobre mais um capítulo de insensatez urbana aprovado pela Prefeitura do Rio. Causa ainda mais espanto o fato de a licença ter nascido na Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico — em um vergonhoso esvaziamento da pasta ambiental — e ter recebido um “nada a opor” do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), órgão federal que costuma ser zeloso com bens tombados.

Foram 71 árvores suprimidas, algo difícil de justificar diante da urgência climática que a cidade enfrenta. O caso se torna ainda mais grave quando lembramos que o casarão do Barão e seus elementos paisagísticos, incluindo as árvores, foram tombados por decreto do próprio prefeito Eduardo Paes em 2014 (Decreto nº 38.253, de 9 de janeiro).

Os entusiastas do “progresso a qualquer preço” logo argumentam: a licença prevê o replantio de mais de seiscentas árvores — exatas 632 — em locais ainda indefinidos. Mas todos sabemos que substituir árvores maduras e frondosas por mudas jovens está longe de ser equivalente. Além disso, há pouquíssimo controle da prefeitura sobre essas chamadas “medidas compensatórias”. O índice de verificação da efetividade desses plantios é baixo, quando não inexistente.

Pergunto, com franqueza: por que não seria possível adaptar o projeto preservando não apenas o casarão, mas também o bosque formado ao longo de décadas? Quando grumixamas, paus-brasis e figueiras perdem para o concreto, é o modelo de cidade que precisa ser repensado.

É urgente estabelecer critérios que garantam a preservação de árvores já estabelecidas. Falta vontade política para aplicar, sem rodeios, o Plano Diretor de Arborização Urbana. Não há sequer orçamento mínimo previsto para 2026 nessa área. Vamos mal.

Todos e todas no ato do dia 10, sábado, às 9h, em frente ao antigo Bennett.

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