
No coração do Centro do Rio, entre as esquinas da Rua do Ouvidor e o murmúrio antigo das pedras da cidade, a Igreja da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores voltará a vestir-se ao mesmo tempo de luto e luz neste domingo, 2 de novembro, para celebrar o Dia de Finados, em homenagem aos fiéis falecidos.
A Santa Missa Solene será celebrada ao meio-dia e quinze pelo Padre Victor Hugo Nascimento, e promete repetir a beleza e a emoção da cerimônia do último ano — com a igreja totalmente paramentada em negro, como se fazia no século XIX, em respeito e homenagem às almas dos fiéis defuntos, e membros falecidos da irmandade de 275 anos que mantém o templo. Conhecida pelas cerimônias tradicionais, celebradas em latim e sempre com coral e orquestra, a igrejinha da padroeira dos comerciantes deve lotar para receber os católicos e amantes da boa música.
O toque dos sinos e do carrilhão da igreja, restaurados com patrocínio de empresas da região, convidarão uma Praça XV lotada a assistir uma cerimônia introspectiva e regada a Mozart, Frisina e Bach. Uma das sensações nas celebrações é o som dos violinos – tanto para o rito de entrada quanto para a aclamação do evangelho: juntam pessoas na porta do templo para espiar o que está acontecendo.

Um rito que atravessa o tempo
A decoração barroca sombria com forrações em panos pretos, os tocheiros de ouro e prata acesos e o incenso elevando-se sob o dourado dos altares e ornamentos compõem um cenário de rara intensidade . Ali, onde cada pedra parece guardar séculos de fé, a Irmandade dos Mercadores mantém viva uma tradição que remonta às mais antigas confrarias do Rio colonial: rezar pelos mortos e recordar o que o catolicismo ensina: “que a vida, em Cristo, não termina — apenas muda de forma”, explica o padre Victor Hugo, conhecido por suas homilias em que a psicologia – sua formação – se mistura aos princípios e dogmas da religião que deu a Luz ao Brasil como o conhecemos.
Enquanto o mundo moderno costuma fugir da ideia da morte, o rito católico de Finados, celebrado no dia seguinte à cerimônia de Todos os Santos (que será igualmente festejada pela Irmandade, no sábado 1/11 no mesmo horário) convida à contemplação serena da eternidade. É dia de recordar, agradecer e interceder — pelos que se foram e pelos que ficam, unidos na mesma esperança. A Irmandade celebra especialmente pelos seus benfeitores, fundadores e membros falecidos, que fizeram a história do templo elíptico que se situa em meio aos bares da Ouvidor.
O Coral Astorga, dirigido pela cantora soprano Juliana Sucupira, vai, como ocorre desde a reinauguração do templo dos comerciantes, acompanhar a celebração eucarística. A decoração e a música serão bancados pela Venerável Liga dos Devotos de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, associação católica que mantém a Irmandade desde a reabertura do templo.
A liga é dirigida pelo corretor de imóveis Cláudio André de Castro, que cuidadosamente cuida, como voluntário e Provedor, da igrejinha mais simpática do Centro. A entidade fez um grande comodato de peças sacras à Irmandade, e montou, com auxîlio de empresas do Centro, uma exposição que inclui quadros de Décio Villares, do célebre artista setecentista inglês John Martin, e outras obras sacras.
A data e o sentido
O Dia de Finados é celebrado pela Igreja desde o século XI, quando os monges de Cluny instituíram a oração anual por todas as almas do purgatório. A devoção se espalhou rapidamente pela Europa e chegou ao Brasil pelas mãos dos primeiros colonizadores portugueses.
Em tempos passados, as igrejas cariocas se cobriam de panos negros, e os sinos dobravam em som grave, lembrando a todos que a morte não é o fim, mas a passagem para a plenitude prometida.
A Venerável Liga vai organizar para que as intenções de cada um por seus entes queridos falecidos, possam ser citadas publicamente, mediante uma doação espontânea de qualquer valor acima de 10 reais para o Pix da entidade, devotoslapa@gmail.com . Basta colocar o nome da pessoa no campo de mensagem do PIX. Na secretaria da igreja, a mesma coisa pode ser feita de 9 às 14h durante a semana.
Um templo que respira história
Erguida no século XVIII, a Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores é um dos tesouros do Centro do Rio. Sua fachada de pedra, lioz, massa e mármore guarda, por dentro, um dos interiores mais delicados e harmônicos da cidade, com falhas de Pádua e Castro e obras neocoloniais (modernas) dos célebres artistas Hélio Petrus e Carlos Calsavara, cortesia da Venerável Liga.
Foi ali que comerciantes, navegantes e famílias tradicionais cariocas mantiveram viva uma devoção que atravessou impérios, repúblicas e modas — e que hoje, mais do que nunca, reencontra eco num Centro histórico que volta a pulsar de fé e beleza. A Fecomércio trabalha neste momento em conjunto com a Venerável Liga na edição de um livro histórico sobre a Igrejinha e um grande portal sobre templos históricos
A Missa deste 2 de novembro, aberta a todos, promete ser novamente uma viagem no templo levando a uma experiência de fé, arte e memória, com canto, silêncio e a luz suave das velas lembrando que, mesmo no luto, há sempre esperança.
Serviço
Missa de Fiéis Defuntos – Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores
Domingo, 2 de novembro de 2025
Horário: 12h15
Rua do Ouvidor, 35 – Centro, Rio de Janeiro
Celebrante: Pe. Victor Hugo Nascimento
Cerimônia em rito tradicional, com paramentos e decoração em negro
Aberta ao público
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