Nesta quarta-feira (29/10), pensei em fazer uma matéria sobre como foi o dia seguinte dos trabalhadores do bairro da Penha e adjacências, onde ocorreu, na terça, a megaoperação policial que terminou com 130 pessoas mortas – números divulgados até este artigo ser escrito.
A pauta acabou caindo, mas a ideia do dia seguinte continuou em minha cabeça. Não mais o pós-operação e a vida tendo que continuar apesar de tanto. O que não saiu das minhas ideias foi o de sempre quando alguma ação policial do tipo acontece: o que vem depois dos tiros?
Os corpos foram contados e levados. Alguns (muitos) expostos em praça pública. A polícia desceu o morro. E quem ficou? Quem vai subir agora? Os problemas de sempre continuam lá. Agora, além deles, ficaram as capsulas de balas, o cheiro de morte, as lágrimas.
Já escrevi outros artigos aqui no DIÁRIO DO RIO criticando essas operações policiais e a mínima efetividade das mesmas. É um eterno enxugar gelo com uma toalha suja de sangue. Sangue de inocentes, policiais e de envolvidos com o crime organizado. Pessoas e mais pessoas morrem e nada muda. Há mais ou menos 40 anos esse é o modelo de segurança pública do Rio de Janeiro. Eu fiz 36 anos esses dias e não vi minha amada cidade ficar mais segura por isso. E nem vou ver, pelo visto.
A megaoperação ter sido, também, no Complexo do Alemão é simbólico demais. Foi lá, em 2010, que outra grande operação policial ganhou as manchetes de jornais do mundo todo com a ideia de que a UPP mudaria tudo. Não mudou. Entraram as forças policiais, depois alguns outros serviços do Estado e parou. Os outros dias seguintes vieram e o abandono quase que total de direitos voltou a ser regra.
O governador do estado do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), causou barulho falando do não apoio federal. Depois disse que não disse. Já estava dito. Virou briga política. Era hora para isso? Talvez tenha sido essa a intenção desde o início. Talvez.
Falando em governadores e interesses políticos, outros, de outros estados, também quiseram aparecer em cima da megaoperação. Necropolítica que chama, né?
Vendo todo esse interesse político, pensei ainda mais: e o dia seguinte? Quem foi lá no Complexo do Alemão, na Penha? Quem vai voltar? Quais melhorias e serviços do Estado vão chegar e ficar? Não sabemos. O que sabemos é quem ficou. Quem ficou foi uma população que todos os dias acorda e vai atrás de uma vida melhor apesar de tanto. Vítimas de quem governa e não se importa com o dia seguinte de quem mora lá. Seguiremos contando os mortos enquanto a violência não é reduzida no Rio de Janeiro. Já estamos no dia seguinte.