
A ligação entre o Carnaval e o jogo do bicho é uma marca histórica do Rio de Janeiro. Por décadas, os bastidores das escolas de samba foram espaço de influência financeira e política que frequentemente ultrapassa a folia. É nesse cenário que Gustavo Andrade, filho do patrono Rogério Andrade, assume a presidência da Mocidade Independente de Padre Miguel.
Nesta segunda-feira (16), enquanto a escola homenageia Rita Lee, os olhos do público não estarão voltados apenas para as alegorias. A estreia de Gustavo na liderança da agremiação promete atenção especial: até então, ele tinha pouca experiência prática na gestão do Carnaval.
Apesar de crescer cercado pelo universo da folia, Gustavo precisou rapidamente se adaptar à rotina administrativa da Mocidade. Desde a prisão de seu pai, em outubro de 2024, em presídio federal, a escola enfrentava ausência de comando. A presidência interina de Flavio Pepê também foi interrompida com sua detenção, e a vice-presidente jurídica, a advogada Valéria Stelet, assumiu temporariamente.
Fontes ligadas à administração descrevem o período de Valéria como conturbado. Problemas na escolha do samba e resistência à contratação do intérprete Igor Vianna intensificaram o descontentamento.
Mesmo preso, Rogério Andrade acompanhava os bastidores da escola. Sob pressão da cúpula do jogo do bicho, o patrono decidiu indicar Gustavo para a presidência. Apesar das restrições do Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), que limita contato com o mundo exterior, visitas e conversas monitoradas permitiram que ele mantivesse influência sobre questões estratégicas, principalmente financeiras.
Com a indicação do pai, Gustavo convocou a diretoria e assumiu rapidamente o comando da escola. Rogério continua sendo o responsável pelo suporte financeiro que garante a participação da Mocidade no Carnaval, embora os detalhes de como a decisão da cúpula foi comunicada a Mato Grosso do Sul e como a resposta foi transmitida não tenham sido divulgados.
Aos 35 anos e estudante de Medicina, Gustavo precisou aprender rapidamente sobre o funcionamento da escola e do universo do Carnaval. Com apoio de veteranos ligados à cúpula do jogo do bicho, iniciou seu trabalho pela base: ouvir a comunidade.
Com as demandas mapeadas, reorganizou a gestão da Mocidade: Valéria foi deslocada para o setor jurídico, permanecendo como pessoa de confiança do pai. Gustavo também garantiu aporte financeiro imediato, evitando que a Verde e Branco enfrentasse dificuldades na reta final de preparação para o desfile.
Em apenas um mês, a escola recuperou fôlego. Quem acompanhou os ensaios técnicos percebeu mudanças na organização, e integrantes e torcedores respiraram aliviados. Nos bastidores, Gustavo é visto como alguém que herdou do pai o equilíbrio necessário para lidar com os bicheiros e a comunidade, mantendo a tradição e a força da Mocidade Independente.