Mais de R$ 5,8 milhões pagos pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro em viagens de jatinhos usados na gestão do ex-governador Cláudio Castro (PL) foram destinados a voos sem passageiros, segundo levantamento da BandNews FM. O valor representa mais de 30% dos gastos com aeronaves fretadas no período analisado.
Entre abril de 2023 e março de 2026, o estado gastou cerca de R$ 18,5 milhões com jatinhos contratados para atender deslocamentos do então governador. A BandNews FM informou que a relação de voos foi obtida por meio da Lei de Acesso à Informação e aponta mais de 200 viagens no período.
Segundo os dados citados pela emissora, R$ 5,81 milhões foram pagos por deslocamentos feitos apenas com o piloto. Dos 274 mil quilômetros percorridos pelas aeronaves, cerca de 86 mil quilômetros teriam sido feitos sem passageiros. A distância equivale a mais de duas voltas completas ao redor da Terra.
TCE-RJ cobra explicações sobre uso de aeronaves
O caso também entrou na mira do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ). O conselheiro José Gomes Graciosa determinou que órgãos do governo e empresas contratadas apresentem informações detalhadas sobre o uso de jatinhos e helicópteros durante a gestão de Cláudio Castro.
A decisão foi tomada na terça-feira (19/05), após representação da deputada estadual Martha Rocha (PDT). O processo aponta possíveis irregularidades no uso de aeronaves custeadas pelo estado, incluindo suspeitas de viagens sem comprovação de interesse público, transporte de pessoas sem vínculo funcional e falhas na documentação das despesas.
O TCE-RJ deu prazo de cinco dias para que sejam enviados diários de bordo, listas de passageiros, agendas oficiais, registros de voo e justificativas institucionais dos deslocamentos. A apuração envolve viagens realizadas entre março de 2023 e março de 2026.
A empresa Líder Táxi Aéreo deverá apresentar documentos como manifestos de passageiros, ordens de serviço, notas fiscais e registros completos das viagens. Também foram acionados a Casa Civil, o Gabinete de Segurança Institucional (GSI), a Secretaria Estadual de Fazenda, a Controladoria-Geral do Estado e o Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea).
Viagens com familiares e aliados políticos
Uma das viagens citadas no levantamento ocorreu em novembro de 2023, com destino a Porto Alegre. Na ocasião, familiares de Cláudio Castro e do então assessor Diego Faro, hoje vereador do Rio pelo PL, além dos próprios políticos, viajaram para a capital gaúcha. O grupo permaneceu quatro dias fora antes de retornar ao Rio.
Reportagens anteriores também apontaram viagens para destinos como o Carnaval de Salvador, a corrida de Fórmula 1 em Interlagos, em São Paulo, e o Festival de Turismo de Gramado, no Rio Grande do Sul. Segundo o TCE-RJ, há necessidade de apurar se todos os deslocamentos tinham relação direta com agendas públicas.
Apesar dos questionamentos, o conselheiro José Gomes Graciosa não suspendeu, neste momento, os pagamentos ligados aos contratos das aeronaves. Ele determinou, no entanto, a abertura de uma auditoria especial para examinar os contratos, os termos aditivos e a legitimidade do uso dos jatinhos fretados e dos helicópteros do estado.
Defesa de Castro diz que viagens seguiram regras
Em nota, Cláudio Castro afirmou que as viagens feitas durante sua gestão seguiram a legislação vigente e obedeceram a critérios técnicos, institucionais e de segurança definidos pelo Gabinete de Segurança Institucional.
“Todas as viagens realizadas durante sua gestão, por meio de aeronaves fretadas, seguiram rigorosamente a legislação vigente e obedeceram a critérios técnicos, institucionais e de segurança definidos pelo Gabinete de Segurança Institucional (GSI)”, afirmou a defesa de Cláudio Castro.
O ex-governador também declarou que os deslocamentos estavam ligados a agendas públicas e institucionais, incluindo compromissos em Brasília, e que prestará esclarecimentos aos órgãos competentes dentro do prazo solicitado.