quinta-feira, 16 de abril de 2026 - 6:25

Hugo Costa: Boi de Piranha

Esta histórica expressão brasileira significa sacrificar algo menos importante para proteger o bem maior, e vem literalmente da condução de gado entre pastagens, onde, ao atravessar um rio com peixes carnívoros, os peões sacrificavam o boi de menor valor no rebanho, jogando sua carne em um trecho do rio para atrair os peixes enquanto atravessavam o resto do rebanho com segurança em outro ponto.

O assunto que esta expressão evoca é segurança, tema muito debatido no Rio de Janeiro, embora raramente sob esta ótica entre territórios: a lógica do sacrifício e do privilégio.

Em 2007, o então secretário de segurança pública do estado do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, declarou: “Um tiro em Copacabana é uma coisa. Um tiro na Coréia, no Alemão, é outra”, sendo rapidamente criticado por ousar dizer isso explicitamente.Os fatos que poderiam sustentar indiretamente essa afirmação são bem documentados. Em 2013, dados mostraram que a área do batalhão da Polícia Militar responsável pelo Leblon tinha 7,3 vezes mais policiais por habitante do que o batalhão de Irajá. Em outro levantamento, a densidade policial na área do batalhão do Leblon era 46 vezes maior do que na área coberta pelo batalhão responsável por Queimados, na Baixada Fluminense.A concentração de policiais em bairros da parte nobre da cidade, formadora de opinião e de poder econômico, institucional e social, seria uma política implícita para evitar que “um tiro em Copacabana” aconteça?Os números de 2025 parecem mostrar outro viés desta logica: ao contabilizarmos o total de roubos do estado do Rio de Janeiro, com base nas estatísticas divulgadas pelo Instituto de Segurança Pública, temos o seguinte resultado: Municípios da Região Metropolitana sofrem com 36,9% de todas as ocorrências. Em segundo lugar vem a Zona Norte da Capital com 34,1% , depois vem o Centro e a Zona Oeste, com 7,4%, Zona Sudoeste com 6,8%, Zona Sul com apenas 5,5% das ocorrências, e 1,8% distribuídos pelos outros municípios do Estado.

O histórico dessas estatísticas, disponível desde 2003, mostra um padrão consistente: por mais de duas décadas, a maior parte dos roubos do estado ocorreu fora das áreas mais protegidas e privilegiadas.

Talvez o leitor já saiba disso intuitivamente. Mas dificilmente encontrará essa desigualdade apresentada de forma clara, como evidência de um desequilíbrio estrutural na distribuição de proteção estatal. Quando um tiro ocorre em um bairro nobre, torna-se símbolo de crise. Quando ocorre em bairros menos privilegiados, torna-se rotina.

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