terça-feira, 13 de janeiro de 2026 - 12:44

  • Home
  • Rio de Janeiro
  • Incêndio ou queima de arquivo? O fogo que destruiu a antiga Câmara do Rio no Arco do Teles

Incêndio ou queima de arquivo? O fogo que destruiu a antiga Câmara do Rio no Arco do Teles

Antiga configuração do Arco do Teles, antes da construção do prédio do IBAMA, com a Igreja do Carmo e a Antiga Sé ao fundo

Poucos lugares do Rio de Janeiro concentram tanta densidade institucional quanto o histórico Arco do Teles. Não se trata apenas de uma passagem antiga, charmosa ou instagramável, mas de um ponto onde o poder civil, a justiça, a administração régia e a vida cotidiana da cidade se cruzaram de forma concreta, física e simbólica. É justamente ali, na Travessa do Comércio – ruazinha que nasce perpendicular ao Paço Imperial, que hoje funciona a sede deste DIÁRIO, quase como um gesto deliberado de ancorar o jornalismo contemporâneo num território onde a cidade aprendeu, muito cedo, a se governar — e também a esquecer.

Durante séculos, a Casa do Conselho e o Juízo dos Órfãos funcionaram nas casas da família Telles de Menezes, exatamente sobre o arco – isto na época em que nele ainda havia o famoso nicho com a imagem histórica de Nossa Senhora dos Prazeres, que hoje fica na Igreja de Santo Antônio dos Pobres, na rua dos Inválidos. A ocupação do prédio que se apoia nos arcos não era uma solução improvisada, nem fruto de conveniência momentânea. Tratava-se de um privilégio hereditário raríssimo, concedido diretamente pela Coroa portuguesa, documentado em inventários, escrituras e alvarás régios desde o século XVI. O poder municipal e judicial do Rio de Janeiro, portanto, não apenas passava pelo Arco do Teles: ele residia ali por direito, numa concessão que atravessou gerações e moldou a própria topografia do poder na cidade.

O Juízo dos Órfãos, muitas vezes tratado de forma lateral na historiografia, era uma das instituições mais sensíveis do Antigo Regime. Cabia a ele proteger bens, heranças e destinos de menores desamparados, num tempo em que a morte era frequente e o patrimônio definia a sobrevivência das famílias. Sua presença ali não era apenas funcional, mas profundamente simbólica. A justiça estava exposta, visível, ritualizada no espaço urbano. Naquela época, era ainda mais forte que hoje: podia até emprestar dinheiro dos Órfãos e Viúvas, usando recursos dos inventários.

Nada disso era abstrato. O exercício da jurisdição se materializava em signos claros e rigorosamente regulamentados. A vara judicial, longe de ser um adereço decorativo ou apenas um nome utilizado pra simbolizar o local onde trabalhava o juiz, era o sinal público de autoridade. Juízes leigos empunhavam a vara vermelha; juízes letrados, a branca. Havia regras estritas quanto ao material, à forma de segurá-la, à posição do corpo, ao momento exato em que ela podia ou não ser usada. Até mesmo a pequena meia-lua de vime presa à casaca, hoje praticamente desconhecida, fazia parte desse código visual da justiça, um detalhe iconográfico de valor inestimável para compreender a cultura cerimonial da época. Literalmente, o juiz podia dar ordens “debaixo de vara”.

Quando o edifício da Câmara, instalado sobre o Arco do Teles, foi consumido pelo célebre incêndio de 20 de julho de 1790, não se perdeu apenas uma construção. Arderam ali documentos, inventários, registros e, possivelmente, parte essencial da memória material do próprio Juízo dos Órfãos, e assim da própria cidade. Já no início daquele século, vozes eruditas alertavam para o risco da dispersão e da perda desses arquivos, chegando a fazer um apelo direto às autoridades municipais para que verificassem a integridade dos inventários. O tom era de urgência — e soa assustadoramente atual.

A crítica implícita à desorganização dos arquivos históricos, à negligência com documentos fundadores e ao desaparecimento silencioso de bens públicos atravessa o tempo e chega inteira aos nossos dias. Falar do incêndio da Câmara sobre o Arco do Teles é, portanto, falar também de incêndios simbólicos, daqueles que não deixam cinzas visíveis, mas apagam referências, vínculos e direitos.

Num momento em que o Centro do Rio vive um processo de revitalização — com novos moradores, investimentos, restauros e a retomada da vida urbana —, essa memória ganha ainda mais importância. Revitalizar não é apenas reformar fachadas ou reocupar imóveis: é reconectar a cidade com suas instituições fundadoras, entender onde o poder se exerceu, como se representava e o que se perdeu no caminho.

Não é por acaso que o Diário do Rio escolheu o Arco do Teles como sua casa. Produzir jornalismo aqui é aceitar o desafio de escrever o presente com plena consciência do passado, inclusive daquele que ardeu, foi disperso ou mal guardado. O incêndio da Câmara, o Juízo dos Órfãos, as varas de justiça, os arquivos desaparecidos e os privilégios hereditários não são curiosidades eruditas: são peças centrais para compreender o Rio que fomos — e o Rio que ainda podemos ser.

Receba notícias no WhatsApp e e-mail

Clique aqui para acessar a Fonte da Notícia

VEJA MAIS

Filhos de Vladimir Herzog são reconhecidos como anistiados políticos

Os dois filhos do jornalista Vladimir Herzog, assassinado pela ditadura militar em 1975, foram reconhecidos…

RJ concentra nove das dez maiores temperaturas do país registradas na segunda-feira

Seropédica lidera o ranking nacional com 41°C; capital fluminense teve o dia mais quente de…

Polícia Federal deflagra nova fase da Operação Overclean

A Polícia Federal (PF), a Controladoria-Geral da União (CGU) e a Receita Federal deflagraram nesta…

Ir para o conteúdo