
Nos tempos coloniais, um dos incêndios mais famosos do Brasil ocorreu no Recolhimento do Parto, em 1789. Edifício construído para a clausura de mulheres que não haviam feito o voto de freira, mas cujo comportamento fora considerado “impróprio” por pais ou maridos, seu sinistro foi registrado por Francisco Muzzi e, posteriormente, já no século XIX, por Leandro Joaquim. O drama do episódio pode ser visto pelo público no Museu Arquidiocesano de Arte Sacra – MAAS, onde estão expostos os dois ovais deste último que ilustram o ocorrido.
De lá para cá, muitos incêndios, intempéries e atos de depredação destruíram parte significativa do nosso legado histórico. Mesmo antes de 1789, essa realidade já se impunha ao cotidiano carioca. Escolhemos o caso do Recolhimento do Parto não apenas por sua antiguidade, mas por ter sido amplamente documentado – um raro testemunho pictórico de um trauma urbano que, infelizmente, se repetiria inúmeras vezes ao longo dos séculos seguintes. Outros episódios emblemáticos dos séculos XX e XXI vêm à memória: o incêndio ocorrido em 1967 na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, Catedral do Rio de Janeiro entre 1737 e a chegada da Família Real, em 1808, e a trágica conflagração do Museu Nacional, em 2018, talvez a mais dolorosa perda patrimonial da história cultural brasileira.
No primeiro caso, a decisão de reabrir o templo com as paredes nuas, sem seus retábulos, revestimentos e ornatos, representou, sob nossa perspectiva, um equívoco de interpretação do próprio sentido do barroco e do rococó. Um espaço sacro desse período não é feito apenas de paredes caiadas, mas da linguagem artística que o revestia — talhas douradas, painéis, tribunas, arandelas e sanefas que, juntos, conferiam unidade simbólica, litúrgica e estética à edificação. Retirar-lhe esses elementos é mutilar o discurso visual e espiritual que dava alma ao templo.
No segundo caso, o incêndio do Museu Nacional, já em um contexto mais contemporâneo e num campo da preservação menos preso ao dogmatismo do “culto à ruína”, reacendeu uma discussão madura e necessária sobre o uso de novas tecnologias para a reconstrução do patrimônio perdido. O debate sobre a reconstituição de ornatos e ambientes sem incorrer em falsos históricos é não apenas pertinente, mas inevitável — sobretudo quando a alternativa é a perpetuação do vazio e do esquecimento.
Outras igrejas históricas poderão, no futuro, beneficiar-se de iniciativas semelhantes, como a antiga Matriz de Santo Antônio de Jacutinga, em Nova Iguaçu, e as capelas – também iguaçuanas – de Nossa Senhora de Guadalupe, em Marapicu, e Nossa Senhora da Madre de Deus, no antigo Engenho da Posse. Todas elas, tombadas e bem documentadas, oferecem base segura para uma reconstrução rigorosa, digna e tecnicamente embasada de suas talhas destruídas ou mutiladas ao longo do século XX.
Na última semana, um novo capítulo foi acrescentado a essa longa sequência de tragédias: o incêndio de um casarão histórico na Lapa, na esquina das avenidas Gomes Freire e Mem de Sá. O fogo, iniciado na cozinha de um bar, rapidamente se espalhou, exigindo a interdição das vias e a mobilização de dezenas de bombeiros. Mais do que um evento isolado, o episódio expôs, mais uma vez, a fragilidade do casario histórico carioca diante da ausência de políticas preventivas eficazes. A falta de manutenção, a precariedade das instalações elétricas e o uso desordenado dos imóveis antigos compõem um cenário que transforma cada esquina em potencial foco de tragédia.
Para que episódios como esse não se repitam, é preciso agir em múltiplas frentes. A curto prazo, impõe-se o mapeamento e a vistoria emergencial dos imóveis históricos, com foco em segurança estrutural e prevenção de incêndios, além de medidas de interdição imediata nos casos críticos. A médio prazo, urge o fortalecimento de programas de incentivo à recuperação e à reutilização dos casarões – como o Reviver Centro –, conciliando a preservação com usos habitacionais, culturais e econômicos que garantam vitalidade e manutenção constante. Já a longo prazo, a cidade precisa consolidar uma política pública de preservação contínua, com fundos de manutenção e restauro específicos para bens históricos em perigo, formação técnica em conservação e restauro, mecanismos de fiscalização ativa e uma cultura social que valorize o patrimônio como parte viva da urbe.
É fato que os incêndios, sinistros e intempéries são desafios tão antigos quanto os próprios edifícios que moldaram a paisagem carioca ao longo de mais de quatro séculos. E se é verdade que essa sina nos acompanha desde os tempos coloniais, também é verdade que a resposta a ela deve nascer de um compromisso ético mais profundo. Chorar sobre ruínas não preserva a história — tampouco nos absolve da responsabilidade de reconstruí-la. O gesto alvissareiro de Mestre Valentim ao capitanear a reconstrução do Recolhimento do Parto, no século XVIII, permanece como um símbolo do que deveríamos aprender: preservar é também refazer, é dar continuidade ao que recebemos como herança. Entre o lamento e a inércia, resta-nos a escolha pela ação — a de reconstruir com dignidade o legado de nossos antepassados e transmiti-lo, íntegro e reanimado, às gerações do porvir.
Foto: Pintura de Francisco Muzzi: Fatal e rápido incêndio que reduziu a cinzas em 23 de agosto de 1789 a Igreja, suas imagens e todo o antigo Recolhimento de N.S. do Parto