sábado, 20 de junho de 2026 - 11:12

  • Home
  • Rio de Janeiro
  • Inscrição persa no Theatro Municipal do Rio é decifrada após 117 anos

Inscrição persa no Theatro Municipal do Rio é decifrada após 117 anos

Foto: Matheus Treuk/Divulgação

Uma inscrição no Theatro Municipal do Rio de Janeiro passou 117 anos sem tradução até ser decifrada por dois pesquisadores da UFRJ e da UERJ. A frase, grafada em cuneiforme persa, fica no painel central do Salão Assyrio, um dos ambientes mais conhecidos do teatro carioca. As informações são da revista Arte!Brasileiros.

A tradução revelou uma saudação ao rei aquemênida Artaxerxes, soberano da antiga Pérsia. O texto, agora identificado pelos pesquisadores, diz: “Do Apadana de Artaxerxes, grande rei, rei dos reis, filho do rei Dario”. O texto cuneiforme original (vertido para o padrão Unicode) é esse: 

O Salão Assyrio foi inaugurado em 14 de julho de 1909, junto com o Theatro Municipal. O espaço, todo revestido em cerâmica esmaltada e mosaicos, já funcionou como restaurante, cabaré e palco de bailes de máscaras. Hoje, recebe visitantes em visitas guiadas ao prédio histórico.

Descoberta começou em uma visita ao salão

A identificação da inscrição começou em janeiro de 2025, durante uma visita ao Salão Assyrio. O professor Alex Mazzanti Júnior, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, especialista em estudos clássicos e linguística indo-europeia, percebeu que o texto parecia ter sido composto em persa antigo.

Após uma leitura inicial, ele compartilhou imagens da inscrição com Matheus Treuk, professor de arqueologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e especialista em Pérsia Aquemênida. A partir daí, os dois passaram a investigar a origem e o significado da frase.

A museóloga Raquel Villagrán Seoane, coordenadora do Centro de Documentação do Theatro Municipal, também participou do trabalho. Ela cedeu imagens em alta resolução da inscrição e documentos históricos sobre o salão, o que permitiu aos pesquisadores analisar o conjunto decorativo com mais precisão.

Salão tem ligação com achados persas do Louvre

Foto: Matheus Treuk/Divulgação

A decoração do Salão Assyrio foi executada pela empresa francesa La Grande Tuilerie d’Ivry, também conhecida como Grès Muller. Fundada em Paris pelo engenheiro Émile Muller, em 1854, a companhia também construiu as balaustradas de cerâmica da Torre Eiffel.

Um dos últimos trabalhos da empresa, antes de fechar as portas em 1908, foi justamente a ambientação do salão do teatro carioca, realizada entre 1905 e 1909, já sob direção de Louis Muller, filho do fundador.

Segundo os pesquisadores, os motivos usados no Salão Assyrio dialogam com coleções de artefatos iranianos, ou persas, do Museu do Louvre. Esses objetos chegaram a Paris no contexto da Exposição Universal de 1889, que também marcou a inauguração da Torre Eiffel.

O termo cuneiforme significa “em forma de cunha” e designa um dos sistemas de escrita mais antigos da humanidade, criado pelos sumérios na Mesopotâmia, atual Iraque, por volta de 3200 a.C.

Rei persa aparece no centro da composição

Foto: Matheus Treuk/Divulgação

A inscrição fica acima da figura de um altar de fogo. Ao lado, há a imagem de um guardião com lança, que emoldura o início do texto. Do outro lado, aparece a figura do rei, em um gesto de oferenda ou consagração.

O termo Apadana, presente na frase traduzida, vem do persa antigo e designa um salão de recepções solenes ou palácio dos antigos reis da Pérsia. Artaxerxes, citado na inscrição, viveu entre 497 a.C. e 427 a.C. e era filho de Dario.

A descoberta também reacende uma discussão antiga sobre o próprio nome do salão. Já na época da inauguração do Theatro Municipal, cronistas questionavam se o ambiente chamado de “assírio” não deveria ser visto como persa, já que parte de sua iconografia se baseia em artefatos encontrados pelos franceses em Susa, uma das cidades mais antigas do Oriente Próximo, no atual Irã.

O Apadana representado no Salão Assyrio tem inspiração no de Susa. Mas os pesquisadores apontam que a decoração não copia uma única fonte. Ela mistura referências de Susa, Persépolis e Naqsh-i Rostam, compondo uma leitura própria da Antiguidade Persa.

João do Rio escreveu sobre o espaço

Foto: Matheus Treuk/Divulgação

O cronista João do Rio, um dos nomes centrais da crônica moderna no Brasil, escreveu sobre o salão em 1913, durante o período de construção e consolidação simbólica do espaço. Ele assinou o texto com um de seus pseudônimos, Paulo Barreto.

“O teto que parece esmagar, as evocações de grandes ciclos históricos em que a Grécia sentia a Ásia colossal, a evocação desses períodos pela reprodução dos frisos, tudo isso ainda é mais aumentado pelo prolongamento multiplicado, refletido nos espelhos engastados em bronze antigo, pelo murmúrio das fontes d’água remorejando sobre piscinas esguias, pela iluminação leitosa das lâmpadas de formas originalíssimas”, escreveu João do Rio.

Para os pesquisadores, o salão combina referências arqueológicas de períodos e lugares diferentes para criar uma composição nova. “A composição de algo inteiramente novo a partir da combinação de temas presentes em diversos sítios arqueológicos e provenientes de diferentes períodos históricos é uma atestação da alta expertise e erudição da Grès Muller”, afirmam Alex Mazzanti Júnior e Matheus Treuk em artigo produzido para a SciELO.

Uma obra rara no orientalismo brasileiro

No estudo, os autores explicam que o artista responsável pela decoração adaptou modelos antigos ao substituir personagens assírios por figuras persas. O rei e seus guardas, por exemplo, aparecem em uma composição que combina elementos de Persépolis e Naqsh-i Rostam.

Os atendentes ao lado do rei seguram objetos associados a tradições distintas. Na mão direita, aparece um tipo de abanador de moscas ligado aos relevos da Sala do Trono de Persépolis. Na esquerda, há uma toalha de inspiração assíria, em vez de um modelo típico persa.

O altar de fogo, por sua vez, substitui a mesa de oferendas assíria e remete aos altares vistos em relevos funerários aquemênidas de Naqsh-i Rostam.

A pesquisa também observa que a presença dessas referências no Rio de Janeiro está ligada ao fascínio orientalista do século XIX, marcado pela redescoberta de artefatos de Susa e pela circulação desses modelos em exposições europeias. Na Exposição Universal de 1889, em Paris, a civilização persa apareceu em pavilhões e mostras voltadas ao público, dentro de um contexto também marcado por ideias colonialistas.

Para os autores, o Salão Assyrio merece mais atenção nos estudos sobre arte, arquitetura e recepção da Antiguidade no Brasil. “O Salão Assyrio constitui, sem sombra de dúvida, uma das obras mais fascinantes e excepcionais da história do orientalismo e da recepção da Antiguidade Persa, devendo ter um lugar de destaque nos estudos sobre o tema no país”, afirmam Alex Mazzanti Júnior e Matheus Treuk.

Receba notícias no WhatsApp e e-mail

Clique aqui para acessar a Fonte da Notícia

VEJA MAIS

Brasil deverá ter centro para enfrentamento de emergências em saúde 

Até o final deste ano, o Brasil deverá criar um centro para o enfrentamento de…

Prefeitura do Rio proporciona espetáculo na Barra Olímpica para 360 beneficiários da Assistência Social

Na manhã de sexta-feira, 19 de junho, cerca de 360 integrantes de programas da Secretaria…

Douglas Ruas reúne prefeitos do Norte e Noroeste Fluminense em Itaperuna

Douglas Ruas – Divulgação O presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro,…

Ir para o conteúdo