A vereadora Joyce Trindade (PSD), candidata a deputada estadual, defendeu a implantação de trens funcionando 24 horas e a criação de serviços expressos para reduzir o tempo de deslocamento dos moradores da Zona Oeste e da Região Metropolitana. Uma das possibilidades citadas seria uma ligação direta entre Santa Cruz e a Central do Brasil, com poucas paradas em estações estratégicas.
A proposta foi apresentada durante entrevista ao DIÁRIO DO RIO, na qual Joyce também falou sobre formação profissional, desenvolvimento econômico da Zona Oeste, segurança para as mulheres e políticas públicas de cuidado.
Moradora de Campo Grande, a candidata afirmou que os longos deslocamentos prejudicam principalmente trabalhadores que vivem em bairros afastados do Centro. Ela relembrou que levava entre duas e três horas para sair da estação de Cosmos, passar por Madureira e chegar à Ilha do Fundão durante a graduação em Gestão Pública.
— Imagina para o morador de Santa Cruz e de Sepetiba pegar um trem expresso em Santa Cruz e descer na Central do Brasil. Isso muda a vida de milhares de pessoas — afirmou.
Trens expressos e integração dos transportes
Joyce defendeu que o sistema ferroviário tenha serviços expressos, funcionamento ampliado e maior integração com ônibus municipais, linhas intermunicipais e corredores de BRT.
Para a vereadora, o planejamento do transporte não pode considerar cada modal de forma isolada. Ela argumentou que os horários e itinerários precisam ser organizados para facilitar as conexões utilizadas pelos moradores da Zona Oeste, da Baixada Fluminense e de outros municípios da Região Metropolitana.
A candidata pretende levar o tema para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), já que as principais decisões sobre o sistema ferroviário e as linhas intermunicipais são de responsabilidade estadual.
Atualmente, Joyce integra a Comissão de Transportes da Câmara Municipal, mas reconhece que a atuação do Legislativo carioca é limitada em relação aos trens.
Além dos serviços expressos, ela defende o funcionamento do sistema durante 24 horas, com uma operação adaptada à demanda de trabalhadores que iniciam ou encerram seus expedientes fora dos horários convencionais.
Distância reduz oportunidades de emprego
Na avaliação de Joyce, a precariedade dos transportes também contribui para aumentar a desigualdade no acesso ao mercado de trabalho.
Segundo a vereadora, empresas localizadas no Centro e na Zona Sul consideram o endereço dos candidatos ao avaliar contratações. Moradores de bairros distantes enfrentariam maior resistência devido ao tempo e ao custo do deslocamento.
— Quem vem das periferias e dos subúrbios sabe o quanto é difícil entrar num mercado profissional que paga bem. As pessoas primeiro vão olhar o nosso CEP. Quanto mais longe você mora, mais difícil fica conseguir uma boa oportunidade — declarou.
Para enfrentar o problema, Joyce defende uma combinação de melhores transportes com a criação de empregos e instituições de ensino próximas às áreas onde a população vive.
Recuperação da Faetec
Ex-aluna da Fundação de Apoio à Escola Técnica, a Faetec, Joyce pretende transformar a recuperação do ensino profissionalizante em uma de suas principais bandeiras na Alerj.
A candidata afirmou que a formação técnica permitiu que concluísse o ensino médio já contratada e com carteira assinada. Para ela, esse tipo de oportunidade pode mudar a trajetória dos filhos de trabalhadores.
— Eu saí do ensino médio contratada, com carteira assinada. Para um filho de trabalhador, isso muda a nossa vida para sempre — disse.
Joyce criticou o sucateamento das unidades da Faetec e defendeu que os cursos sejam atualizados de acordo com as necessidades atuais do mercado.
Entre as áreas citadas estão indústria, tecnologia, economia criativa e audiovisual. A proposta é identificar os setores com maior demanda por profissionais em cada região e organizar os cursos de acordo com essas oportunidades.
Distrito industrial de Santa Cruz
A candidata destacou o potencial do distrito industrial de Santa Cruz, que reúne grandes empresas e representa uma importante fonte de empregos na Zona Oeste.
Segundo Joyce, falta aproximar a formação profissional oferecida aos moradores das necessidades das indústrias instaladas na própria região.
A vereadora argumentou que a Zona Oeste não deve continuar sendo tratada apenas como fornecedora de mão de obra para outras partes da cidade. O objetivo seria transformá-la em um polo de empregos, educação técnica e ensino superior.
Joyce também apontou a ausência de uma universidade federal na maior região territorial do município. Para ela, a concentração das principais instituições de ensino nas áreas centrais obriga milhares de jovens a enfrentar viagens diárias de várias horas.
A expansão da formação técnica e universitária ajudaria a reduzir a pressão sobre o sistema de transportes, além de estimular o desenvolvimento econômico local.
Espaços noturnos para filhos de trabalhadoras
Entre as propostas voltadas às mulheres, Joyce defendeu a criação de espaços noturnos para o cuidado dos filhos de trabalhadoras e estudantes.
A medida atenderia mulheres matriculadas em cursos técnicos noturnos e profissionais de setores como bares, restaurantes, hospitais e serviços, cujos horários não coincidem com o funcionamento das creches tradicionais.
A candidata ressaltou que a proposta não deve ser chamada simplesmente de “creche noturna”, porque as creches possuem função educacional e regras específicas. A ideia é criar equipamentos de cuidado adaptados aos horários das famílias.
Joyce também destacou que a ampliação das creches depende da participação dos governos federal, estadual e municipal.
— Quem está prometendo ampliar não sei quantas creches integrais está mentindo, porque isso não depende só do Estado, muito menos apenas do município — afirmou.
Para ela, o financiamento precisa ser construído de forma conjunta, especialmente para garantir vagas em período integral.
Política do cuidado
Joyce defendeu ainda o reconhecimento do cuidado de crianças, idosos e pessoas com deficiência como atividade econômica e profissional.
Segundo a candidata, cuidadoras, babás e profissionais que atendem pessoas com deficiência ainda são tratados como se prestassem uma ajuda informal às famílias. A proposta é fortalecer a regulamentação, a formação profissional e a definição de jornadas e remunerações adequadas.
A vereadora também chamou atenção para as chamadas “mulheres-sanduíche”: mulheres de meia-idade que cuidam simultaneamente dos filhos e dos pais idosos.
Para Joyce, a criação de espaços de convivência e atendimento para idosos pode reduzir a sobrecarga dessas mulheres e facilitar sua permanência no mercado de trabalho.
Ela citou iniciativas desenvolvidas em Niterói como referências para o debate sobre o envelhecimento com dignidade.
Assédio no transporte público
Ao falar sobre segurança, Joyce relatou ter sofrido assédio dentro de um ônibus aos 16 anos, quando seguia de Cosmos para o primeiro estágio em Itaguaí. Um homem se masturbou ao lado dela enquanto a jovem dormia durante o trajeto.
A candidata utilizou o episódio para defender que a política de segurança para as mulheres não fique concentrada apenas na resposta policial após a violência.
Entre as medidas citadas estão fiscalização nos transportes, iluminação nos acessos às estações, poda de árvores, conservação das calçadas e planejamento urbano.
— A mulher não tem medo apenas de perder o celular. O nosso maior medo é ser estuprada. É sair do trabalho ou ir estudar e encontrar alguém que não apenas roube o celular, mas tire a nossa dignidade — declarou.
Joyce também defendeu a continuidade de iniciativas específicas de proteção às passageiras, como espaços exclusivos nos transportes, desde que acompanhadas de fiscalização.
Zona Oeste como estratégia econômica
Durante a entrevista, a vereadora criticou a forma como a Zona Oeste é lembrada apenas durante as campanhas eleitorais.
— Chega a eleição e brota candidato do além naquela região — ironizou.
Joyce recebeu aproximadamente 30 mil votos na eleição municipal de 2024, sendo mais de 16 mil na Zona Oeste. Para ela, o resultado demonstrou que os moradores estão mais atentos às candidaturas que possuem ligação real com a região.
A candidata afirmou que houve avanços no BRT, nos ônibus complementares e em equipamentos públicos, mas considera necessário criar uma estratégia que reúna transporte, emprego, indústria, educação e urbanização.
Ela também defendeu a ampliação da capacidade do Hospital Municipal Rocha Faria, em Campo Grande, mas evitou afirmar que a região precisa imediatamente de uma nova unidade estadual. Segundo Joyce, a decisão deve ser baseada em estudos técnicos e na distribuição dos hospitais pelo Estado.
Apoio a Eduardo Paes
Na disputa pelo Governo do Rio, Joyce declarou apoio a Eduardo Paes (PSD). Ela afirmou que o candidato possui experiência administrativa, capacidade de escuta e disposição para tomar decisões consideradas ousadas.
A vereadora citou a derrubada do Elevado da Perimetral, a recuperação do sistema BRT e a implantação de parques em áreas como Madureira, Piedade e Inhoaíba.
Segundo Joyce, Paes foi o primeiro político a ouvir suas propostas e abrir espaço para que ela participasse da administração municipal. Aos 24 anos, foi convidada para comandar a Secretaria Municipal de Políticas e Promoção da Mulher.
A candidata afirmou, porém, que sua identidade política está associada principalmente à representação das mulheres, dos jovens e dos moradores da Zona Oeste.
— Eu represento uma região do Rio que durante muitos anos não teve pessoas discutindo com qualidade o serviço público e uma defesa concreta daquele território — declarou.