A investigação sobre a administração de algumas das mais antigas e outrora prestigiosas irmandades religiosas do Centro do Rio – Irmandade de São Brás e Ordem Terceira da Boa Morte – ganhou um novo e importante capítulo. O site Agenda do Poder revelou que a intervenção determinada pela Justiça nas entidades administradas por Brígida Rachid José Pedro avança, enquanto novos detalhes do processo contra a organista evidenciam a dimensão das medidas adotadas pelo Judiciário.
O caso tramita perante a 2ª Vara Especializada em Organização Criminosa (ORCRIM) da Comarca da Capital, sob a condução do juiz Renan de Freitas Ongaratto, responsável pelas decisões mais recentes da investigação e do processo que corre contra Brígida e versa sobre a administração das irmandades que, fechadas ao culto católico há anos, podem ter virado meras acumuladoras de riqueza para a mulher, que já foi investigada também pelo exercício ilegal da profissão de dentista.
Entre estas novas medidas, chama atenção o bloqueio judicial de valores superiores a R$ 19.770.919,42 encontrados em nome da investigada. Conforme despacho constante dos autos, a ordem foi efetivamente cumprida pelo sistema SISBAJUD. Na mesma decisão, também foram determinadas restrições sobre veículos por meio do sistema RENAJUD.
Vaidosa, Brígida colocou seu próprio nome num antigo edifício histórico da irmandade, que sofreu reformas que alteraram sua fachada destruindo afrescos, como relatado aqui no DIÁRIO. Também se tornou inexplicavelmente proprietária de 4 imóveis no Leblon de uma das irmandades, comprando-os a valores abaixo do mercado, como denunciou O Globo – sendo que as instituições sempre tiveram ótima renda imobiliária. Ultimamente, durante sua administração desapareceram da igreja 2 imagens sacras tombadas – uma de cada padroeiro – São Brás e Nossa Senhora da Boa Morte. Também vazamentos passaram a infiltrar a sacristia da igreja, após poucos meses em que Rachid voltou a administrar o templo por força de uma liminar.
Após a efetivação das medidas cautelares, o magistrado determinou a intimação do Ministério Público e da defesa para manifestação sobre o bloqueio patrimonial.
A escolha da 2ª Vara Especializada em Organização Criminosa para processar o caso também chama atenção, por demonstrar a complexidade das investigações conduzidas pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro.
A rápida sucessão dos fatos mostrou como o enquadramento dado por uma reportagem publicada numa revista nacional no início do caso foi rapidamente superado pela realidade. Ao tratar do episódio como uma suposta disputa comercial e apresentar Brígida Rachid principalmente como “empresária”, o texto acabou perdendo atualidade diante do resultado das investigações. Foi logo na semana seguinte que o Ministério Público ofereceu denúncia criminal, requereu seu afastamento da administração das irmandades e o bloqueio de seus bens, medidas acolhidas pela Justiça, que determinou, entre outras providências, o congelamento de quase vinte milhões de reais em ativos da ex-provedora acusada na vara de organizações criminosas.
O caso foi revelado pelo DIÁRIO DO RIO
Muito antes de a investigação ganhar repercussão estadual e nacional, o DIÁRIO DO RIO publicou, em dezembro de 2024, a reportagem que trouxe o caso ao conhecimento público.
Na série iniciada com a reportagem “Nossa Senhora dos Rachid”, o jornal revelou que a histórica Igreja de Nossa Senhora da Conceição e Boa Morte permanecia fechada havia anos, denunciou o abandono do patrimônio histórico e mostrou que a administração das irmandades estava concentrada havia décadas na família Rachid.
A partir daquele trabalho, Diário passou a acompanhar continuamente todos os desdobramentos da investigação.
Nos meses seguintes, novas reportagens revelaram que o templo histórico estava sendo seriamente comprometido por cupins, situação que posteriormente levou o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) a realizar intervenções emergenciais para preservar o imóvel tombado. Em outra reportagem exclusiva, Diário teve acesso a documentos que apontavam suspeitas sobre a administração de um patrimônio estimado em aproximadamente R$ 500 milhões, uma denúncia que partiu de seu próprio irmão, registrada em cartório.
Essa estimativa decorre de documentos obtidos pelo jornal, nos quais Aloysio Rachid sustentou que o patrimônio administrado pelas irmandades teria sofrido prejuízos dessa ordem. Ele está sendo processado pela irmã, que nega as acusações. Paralelamente, o Ministério Público ofereceu denúncia criminal envolvendo fatos específicos que, nesta fase da investigação, somam cerca de R$ 12 milhões.
As investigações seguem em andamento e ainda poderão resultar em novos desdobramentos à medida que forem aprofundadas as análises patrimoniais e financeiras. Outros fatos curiosos como o empréstimo gratuito de imóveis comerciais de alto valor por prazos longuíssimos a seus colaboradores, se acumulam.

Intervenção busca preservar patrimônio histórico e religioso
Além da investigação criminal, a intervenção judicial busca assegurar a continuidade administrativa destas instituições religiosas que integram parte importante da história do Rio de Janeiro. Os bens destas entidades devem destinar-se ao culto aos seus padroeiros e à manutenção dos seus templos, e pelo volume astronômico de dinheiro que circula nelas, era pra suas capelas estarem tinindo. Apesar de tudo isto estar comprovado em laudos e vistorias, a delegacia responsável mandou investigar os atuais administradores por fatos que se deram na gestão de Rachid, contrariando a sugestão do procurador Sérgio Suyama, responsável pelo Patrimônio Histórico.
As irmandades administram igrejas seculares e um expressivo patrimônio imobiliário acumulado ao longo de centenas de anos, razão pela qual o caso passou a despertar atenção não apenas dos órgãos de persecução penal, mas também de instituições voltadas à preservação do patrimônio histórico. Várias vistorias foram feitas na Igreja da Boa Morte para constatar o péssimo estado em que estava, sem contar as obras irregulares – mambembes – feitas por Rachid no templo até o momento em que a Arquidiocese do Rio agiu e reinstalou procedimentos profissionais, através do interventor que nomeou.
A deterioração da Igreja da Boa Morte, revelada inicialmente pelo Diário, tornou-se um dos símbolos da crise administrativa enfrentada pelas entidades e acabou mobilizando o IPHAN para ao menos cobrar medidas emergenciais de conservação. Em outros casos, o próprio órgão, mesmo condenado pela justiça a pagar ele mesmo as obras, segue desobedecendo a ordem, como é o caso da Igreja de Nossa Senhora Mãe dos Homens, na rua da Alfândega.
Com o afastamento judicial de Brígida Rachid, o bloqueio de quase R$ 20 milhões em ativos financeiros que estavam em seu poder e o prosseguimento das investigações perante a 2ª Vara Especializada em Organização Criminosa, o caso entra agora em uma nova etapa, considerada uma das mais relevantes já envolvendo irmandades religiosas históricas do Estado do Rio de Janeiro, provando também que a Arquidiocese do Rio de Janeiro tornou-se mais vigilante e eficiente na análise das administrações das mais de 50 irmandades da cidade.