
Com mais 37.000 exemplares vendidos, entre impressos e e-books, desde o seu lançamento em agosto, o livro Coisa de Rico – A Vida dos Endinheirados Brasileiros, de Michel Alcoforado, tem despertado sentimentos e percepções variados, por parte do universo abordado e pela maioria que dele não faz parte.
A obra é resultado da sua dissertação de doutorado defendida na University of British Columbia, no Canadá, após 15 anos de estudos. Antropólogo e comunicador digital, o niteroiense Alcoforado, de 39 anos, é filho de servidores públicos, tendo estudado em escola particular, e com acesso a benesses que a maioria da população não tem, como plano de saúde, casa de veraneio e viagem nas férias.
Mesmo não pertencendo ao seleto grupo do universo estudado, o antropólogo foi aceito como “um deles”, e acabou frequentando jantares exclusivos, viagens internacionais e festas com milionários e bilionários, para observar o que consomem, como vivem e se relacionam os integrantes do universo do 1% mais rico do Brasil.
Para fazer a sua observação participante, Michel Alcoforado, que é fundador do grupo Consumoteca e apresentador do podcast É Tudo Culpa da Cultura, teve que mudar o seu jeito de se vestir, os hábitos e o vocabulário. Fingir “costume” foi uma das condições para circular pela casta endinheirada nacional. A atitude, segundo o estudioso, “é uma ode à diferença e à exclusão.”
Em entrevista à revista Veja, o antropólogo afirmou, que com o livro Coisa de Rico, quis quebrar uma tendência das Ciências Sociais do Brasil, que só estuda os pobres e o seu universo; relegando os ricos ao silêncio. No trabalho, o autor pretendeu mostrar como, ricos e não ricos, trabalham para manter as coisas mais ou menos como estão, sem grandes mudanças estruturais.
Entre as discussões trazidas pela obra está a definição sobre quem seria o rico “de verdade”. Segundo Alcoforado,?o verdadeiro rico seria aquele que consegue convencer os outros da sua condição como rico; sendo que o outro é sempre o rico de verdade, pois a definição é relacional:se o outro tem mais coisas ou ganha mais do que eu, então ele é o rico, eu não.
“Mais importante, o rico de verdade é o outro, nunca é a gente. É a pessoa que tem mais coisas do que você tem. Se alguém conversar com pessoas que têm salário de 30?000 reais e perguntar se elas são ricas, elas vão dizer que não, que rico é o cara que ganha 50?000. Mas quem ganha 50?000 por mês vai falar que rico de verdade é o que ganha 100?000 reais, e assim por diante”, disse o antropólogo à Veja.
Quanto aos ricos de nascença e aos novo-ricos, Michel Alcoforado esclareceu que os primeiros apagam as suas origens para mostrar que são ricos desde sempre. Ao passo que os novos-ricos demarcam, por meio das compras e das conquistas materiais, quando ficaram ricos.
O fascínio nacional pelos ricos, de acordo com Michel Alcoforado, seria um traço cultural brasileiro, embasado na curiosidade de saber o que os ricos fazem para parecerem ricos. “O fascínio vem da ideia de que só o fato de simular ou performar riqueza já é meio caminho andado para ser percebido como rico”, disse o pesquisador à publicação, acrescentando que a demarcação entre ricos e pobres, calcada nas aparências, é um relacional brasileiro:
“A raiz está na forma como marcamos as diferenças em relação aos outros no Brasil. Aqui, dinheiro é um tabu. Para ele ganhar sentido na sociedade brasileira, é preciso transformá-lo em coisas. Nossa preocupação com a imagem está diretamente atrelada a uma dificuldade histórica, social, cultural de lidar com o dinheiro e entendê-lo,” explicou o antropólogo.
Entre as histórias que mais surpreenderam o pesquisador durante o período da pesquisa está a compra de um perfume por 15?000 euros para resgatar o cheiro da família, além dos “apartamentos nababescos”. Mas Alcoforado ressalta que, apesar dos supostos exageros, tais comportamentos têm como fundo a validação social dessas pessoas:
“(…) isso faz sentido do ponto de vista daquelas pessoas. Elas compram aquilo que compram e fazem o que fazem não porque elas têm um comportamento irracional, mas porque precisam mostrar ao mundo quem elas são. Então todo comportamento, por mais que fosse caro e exótico, foi-se mostrando normal”, finalizou Michel Alcoforado.
O livro Coisa de Rico – A Vida dos Endinheirados Brasileiros foi lançado pela editora Todavia e está entre os mais baixados no formato Kindle na Amazon; e de acordo com o Bookinfo, ocupa o terceiro lugar na categoria não ficção.
Ao longo das suas 240 páginas, Coisa de Rico relembra lances históricos da alta sociedade carioca, como o casamento entre a ricaça Patricia Leal e Eike Batista que não aconteceu; a bola preta recebida por Guilhermina Guinle ao tentar ingressar o Country Club; além do surgimento da “emergente da nova era” Vera Loyola.
