
Após anos de abandono e de uma acirrada disputa judicial, o histórico Palácio dos Urubus, em Macaé, município do Norte Fluminense, foi finalmente demolido, e, surpreendentemente, com o beneplácito de uma ordem judicial.
Construído em 1865, o Palácio era um dos ícones arquitetônicos de um dos períodos mais esplendorosos do Império. O enorme casarão, que ficava no coração da cidade, foi erguido por escravos para uma família muito importante na época e é um símbolo da riqueza do Norte Fluminense. Pelas suas dependências passaram personagens ilustres da Família Real Portuguesa, como D. Pedro I e a Princesa Isabel.
Com suas janelas altas e detalhes imponentes, o imóvel, que era tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), era um dos ícones da arquitetura neoclássica na região. Mas a ação do tempo e a criminosamente falta de conservação transformaram a beleza, o luxo e o poder do casarão em ruína, como tem sido a regra no estado do Rio de Janeiro.
A decadência do Palácio dos Urubus teve início nos anos 1970. Vincmge anos depois, o espaço foi interditado pelo poder público, uma vez que oferecia risco às pessoas que passavam pelo local. Mas em momento algum o poder público fez mais do que empurrar papéis.
Desentendimentos entre herdeiros, a Prefeitura de Macaé e órgãos de tombamento, como o próprio Inepac e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), levaram a derrubada do casarão esta semana, após uma decisão judicial que chocou os amantes do patrimônio.

Apesar da dureza da ação, a Prefeitura local justificou que, diante do estado do que sobrou do Palácio do Urubus, “não havia alternativa”. Além das paredes rachadas e dos telhados desabados, o espaço foi totalmente tomado pelo mato, graças aos anos de abandono.
Em entrevista ao RJTV 2 (Macaé), o secretário de Defesa Civil do município, Joseferson de Jesus, destacou que a ação, além de “necessária”, atendia uma decisão judicial, “uma vez que o prédio, já em ruínas, apresentava muito risco à população” e aos condutores que passavam pela região.
Ao veículo, o historiador Marcelo Gomes Abreu ressaltou que mais do que a queda de uma edificação, a demolição do Palácio dos Urubus representa a perda de um passado importante na memória de Macaé.
Segundo Gomes Abreu, o casarão era um símbolo da importância da cidade como porto de exportação de café e açúcar, e de importação de escravizados que trabalhavam nas fazendas da região.
Mais do que uma obra arquitetônica, segundo o historiador, o que se perdeu, foi uma manifestação de uma época na qual a economia local dependia, sobretudo da agricultura e do tráfico de escravizados.