
O Rio de Janeiro inicia um novo ciclo administrativo sob o comando de seu mais jovem prefeito. Aos 31 anos, Eduardo Cavaliere (PSD) assume a prefeitura com o maior orçamento já registrado na história do município (R$ 52 bilhões), em um cenário que combina ambição de grandes projetos com a urgência de enfrentar problemas crônicos de ordenamento urbano.
Instalado no Centro Administrativo, o novo chefe do Executivo herda uma máquina robusta do ponto de vista fiscal, mas também uma cidade marcada por desafios cotidianos que seguem entre as principais queixas dos cariocas.
Orçamento recorde, desafios proporcionais
A folga fiscal prevista para 2026 oferece ao novo governo condições de avançar em projetos estruturantes. Entre eles, desponta o Praça Onze Maravilha, iniciativa de revitalização urbana no entorno do Sambódromo, considerada a principal vitrine da gestão.
Inspirado no modelo do Porto Maravilha, o projeto prevê intervenções profundas em bairros como Catumbi, Estácio e Cidade Nova. Um dos marcos será a demolição do Elevado Trinta e Um de Março, além da construção da Biblioteca dos Saberes, assinada pelo arquiteto Francis Kéré, vencedor do Prêmio Pritzker.
A proposta inclui ainda a criação de uma nova Cidade do Samba, nas imediações da Avenida Presidente Vargas, para abrigar as escolas do Grupo Especial. Com investimento estimado em R$ 1,75 bilhão, via parceria público-privada, o projeto ainda depende de aprovação na Câmara Municipal e deve ter obras concluídas apenas em 2032.
Ordenamento urbano: a pressão das ruas
Se os grandes projetos apontam para o futuro, é no presente que se concentram as maiores cobranças. O ordenamento urbano desponta como prioridade inevitável.
Dados do serviço 1746 revelam que o estacionamento irregular lidera as reclamações desde o início de 2025, com mais de 208 mil registros, especialmente na Zona Sul, área de grande circulação turística. A atuação de flanelinhas e a ocupação desordenada das vias ampliam a insatisfação.
Para enfrentar o problema, a prefeitura estuda implantar um sistema eletrônico de vagas com preços dinâmicos, ajustados à demanda de cada região.
Trânsito e saúde sob pressão
Outro foco de tensão é o trânsito. O aumento expressivo de motociclistas e ciclistas nas ruas elevou o número de acidentes, pressionando a rede pública de saúde.
A situação levou à destinação de um setor do Hospital Federal do Andaraí para atendimento específico a vítimas de trânsito. A ampliação de ciclovias e a criação de motofaixas estão entre as medidas previstas, mas ainda sem impacto imediato.
Na orla, a circulação desregulada de bicicletas e patinetes elétricos também é alvo frequente de críticas, evidenciando a dificuldade de fiscalização.
Zeladoria urbana e queda de investimentos
A percepção de desordem também se reflete nos pedidos por serviços básicos. Desde janeiro de 2025, mais de 190 mil solicitações foram registradas para reparos de iluminação pública, tapa-buracos e remoção de lixo.
Parte desse quadro é atribuída à redução de investimentos recentes. O orçamento da Secretaria Municipal de Conservação caiu de mais de R$ 1 bilhão em 2024 para R$ 427 milhões no ano passado. Para 2026, a previsão é de R$ 780 milhões, ainda abaixo do patamar anterior.
A interrupção do programa Asfalto Liso, por determinação do Tribunal de Contas do Município (TCM), devido a falhas na licitação, agravou o cenário. A retomada está prevista para este ano, com aporte de R$ 222,8 milhões.
Expansão urbana e moradia
Na agenda de médio prazo, a prefeitura aposta na expansão do programa Reviver para a Zona Norte. A proposta inclui requalificação urbana e estímulo à construção de moradias em bairros como Bonsucesso, Olaria, Ramos, Manguinhos e Maré.
A Avenida Brasil aparece como eixo estratégico, com previsão de novos empreendimentos residenciais e de serviços, além de áreas verdes. O financiamento, novamente, deve ocorrer por meio de parcerias público-privadas.
Projetos herdados e promessas antigas
Entre as heranças da gestão anterior está a revitalização da Estação Leopoldina, projeto de grande porte que avança lentamente. A proposta inclui a recuperação do prédio histórico e a construção da chamada Fábrica do Samba, destinada às escolas da Série Ouro.
Apesar do potencial urbanístico, o cronograma segue indefinido, repetindo um padrão comum na cidade: iniciativas ambiciosas que enfrentam entraves administrativos e financeiros ao longo do tempo.
Entre o futuro e o cotidiano
Ao assumir com o maior orçamento da história e o peso simbólico de ser o mais jovem prefeito do Rio, Eduardo Cavaliere inicia sua gestão diante de um dilema recorrente na administração carioca: equilibrar grandes projetos de transformação urbana com a solução de problemas básicos que afetam diretamente o dia a dia da população.
A capacidade de responder a essas duas frentes, o futuro planejado e o presente urgente, deverá definir os rumos de sua gestão.