A sequência de grandes shows internacionais no Rio de Janeiro começa a produzir efeitos além do turismo. Depois de Madonna, Lady Gaga e agora Shakira, pelo projeto Todo Mundo no Rio, a cidade vê crescer a procura por studios de alto padrão voltados à locação de curta duração.
O movimento já chama atenção de incorporadoras e investidores. Com impacto estimado em R$ 776 milhões para a economia carioca, segundo a Prefeitura do Rio e a Riotur, e ocupação hoteleira próxima de 80% na Zona Sul, de acordo com o HotéisRIO, aumenta a pressão sobre a capacidade da cidade de receber picos recorrentes de visitantes.
Nesse cenário, apartamentos compactos, com padrão elevado, serviços e vocação para short stay, começam a ganhar espaço como uma nova frente do mercado imobiliário ligada à economia do turismo.
Dados recentes do Secovi Rio apontam que apartamentos compactos seguem entre os produtos mais procurados e vêm puxando lançamentos em bairros centrais e na Zona Sul. O avanço reflete uma mudança no perfil do investidor e também a expansão da locação flexível.
Levantamento do Sinduscon-Rio e da Brain Inteligência Estratégica já havia mostrado que esse tipo de unidade respondeu por cerca de 40,2% dos lançamentos na cidade do Rio no primeiro quadrimestre de 2025. O mesmo estudo apontou que 88% dos compactos lançados naquele ano já tinham sido vendidos, com apenas 12% em estoque.
Grandes eventos mudam lógica da hospedagem
Mais do que uma tendência residencial, os studios passam a ser vistos como parte da infraestrutura complementar de uma cidade que tenta se firmar como plataforma de grandes eventos.
“Eventos dessa escala evidenciam uma mudança estrutural. A cidade passa a demandar novas soluções de hospedagem, e isso começa a influenciar desenho de produto imobiliário”, afirma Henrique Blecher, CEO da ARKT Incorporadora.

Essa leitura ajuda a explicar o lançamento do MO.dO Design Living Botafogo, primeiro projeto da incorporadora dentro de uma tese de produtos escaláveis em design living.
O empreendimento tem VGV de R$ 70 milhões, 37 unidades e plantas flexíveis, voltadas tanto à moradia quanto à renda com locação de curta permanência. Localizado na Rua Voluntários da Pátria, em Botafogo, o projeto combina arquitetura assinada por Pedro Coimbra, rooftop com serviços, área de wellness, tecnologia e uma galeria de arte aberta ao público.
A galeria funcionará em um patrimônio tombado anexo ao terreno, que será restaurado e integrado ao projeto.
“Observamos que o mercado traduziu em sucesso de vendas o conceito que criamos de conectar hospitalidade, investimento e vida urbana”, destaca Henrique Blecher, da ARKT.
Botafogo concentra interesse de investidores
O momento favorece esse tipo de produto. Botafogo registrou valorização superior a 30% entre 2024 e 2025 e vem sendo tratado como um dos bairros mais dinâmicos da cidade para moradia, turismo e investimento.
O bairro também ganhou projeção internacional após ser eleito pela revista britânica Time Out como um dos 30 bairros mais “cool” do mundo. Ao mesmo tempo, enfrenta escassez de novos produtos de alto padrão e aumento da demanda por unidades com potencial de locação.
No carnaval deste ano, Botafogo alcançou taxa de ocupação de 96,91%, segundo levantamento divulgado pela Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Rio de Janeiro.
Outro fator que pesa é a maior restrição a operações informais de Airbnb em condomínios residenciais. Com isso, produtos desenhados desde o início para curta permanência passam a ser vistos como alternativa mais organizada para investidores e hóspedes.
Para Henrique Blecher, o crescimento desse mercado não deve ser lido como disputa direta com os hotéis.
“Não se trata de competir com a hotelaria tradicional, mas de complementar a infraestrutura da cidade com novos formatos de uso e investimento”, afirma Henrique Blecher.
Mercado imobiliário acompanha o calendário de eventos
A força dos megaeventos em Copacabana mostra que o impacto desse tipo de agenda vai além de bares, hotéis, transporte e comércio. Ele também começa a influenciar o desenho de novos produtos imobiliários.
Com a cidade tentando manter grandes shows como parte do calendário fixo, o mercado privado busca responder a uma demanda que aparece em ondas: visitantes que chegam para eventos, turistas que estendem a permanência e investidores interessados em imóveis menores, bem localizados e com serviços.
No caso do Rio, essa combinação envolve turismo, hospitalidade, mobilidade e desenvolvimento urbano. E coloca bairros como Botafogo, Centro, Glória, Catete e outros pontos próximos aos grandes eixos de transporte no radar de novos lançamentos.