O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) afirmou, em relatório enviado à Justiça, que investigações apontam para uma possível infiltração do Terceiro Comando Puro (TCP) em estruturas do poder público estadual. O documento serviu de base para pedidos de busca e apreensão contra o deputado estadual Val Ceasa (PRD). As informações são do g1.
Segundo o MPRJ, a apuração indica um movimento semelhante ao já identificado em investigações anteriores envolvendo a Alerj, como no caso que atingiu os ex-deputados Rodrigo Bacellar e TH Joias e apontou ligações do Comando Vermelho (CV) com a Assembleia Legislativa do Rio.
Nesta quinta-feira, 18 de junho, além de Val Ceasa, a Polícia Civil do Rio e o MPRJ cumpriram mandados contra o ex-vereador Ulisses de Almeida Marins e o ex-assessor parlamentar Michael Johnny Vianna de Azevedo.
De acordo com o Ministério Público, há indícios de que agentes públicos teriam atuado para favorecer interesses de traficantes ligados ao TCP. Um dos pontos investigados é uma suposta tentativa de obter informações sobre uma operação policial sigilosa que tinha como alvo imóveis usados pela facção.
Suspeita de interferência em operação policial
A investigação afirma que Val Ceasa e Ulisses Marins foram ao 16º BPM, em Olaria, em dezembro de 2023, para questionar o comando da unidade sobre uma possível ação policial na região de Parada de Lucas, na Zona Norte do Rio.
A operação mirava imóveis de alto padrão identificados pela polícia como espaços usados por integrantes do TCP para encontros e eventos. Segundo a apuração, havia áreas com piscina, academia e até lago artificial.
Após o encontro com policiais, as autoridades identificaram mudanças nos locais investigados. Entre elas, retirada de equipamentos, alterações estruturais e instalação de faixas indicando supostos projetos sociais.
Para o MPRJ, essas mudanças podem ter sido uma tentativa de disfarçar o uso ilícito dos imóveis. O órgão também afirma que não encontrou registro oficial desses projetos sociais em órgãos públicos municipais, o que reforçaria a suspeita de que as ações eram fictícias.
Investigação cita base eleitoral em áreas sob domínio do TCP
O inquérito também reúne depoimentos e relatórios sobre a influência da facção em áreas onde os políticos investigados têm base eleitoral.
Segundo o documento, parte relevante dos votos de Val Ceasa e Ulisses Marins se concentra em regiões apontadas como áreas sob domínio do TCP.
A investigação ainda menciona relações indiretas entre assessores dos investigados e integrantes da facção criminosa. Há registros de funcionários ligados aos gabinetes com antecedentes criminais ou vínculos familiares com pessoas presas por crimes relacionados ao tráfico.
Em um dos trechos da peça, o MPRJ afirma haver uma “miríade de relacionamentos espúrios” entre o parlamentar e o narcotráfico.
MPRJ fala em infiltração na Alerj
O ponto mais duro do relatório é a avaliação do Ministério Público sobre a possível entrada do crime organizado nas instituições políticas do estado. O órgão compara o caso a outras investigações recentes que apontaram a atuação do Comando Vermelho dentro da Alerj.
Segundo o texto, os elementos reunidos indicam que o TCP também teria estabelecido influência no Legislativo estadual.
“O presente inquérito policial está a desvendar que a facção rival, autodenominada Terceiro Comando Puro, também se entranhou nas vísceras da Casa Legislativa”, diz o MPRJ.
Horas após ser alvo das buscas, Val Ceasa afirmou que sofre perseguição política e disse que, se a investigação for séria, sairá do caso como “herói”.
“A população sabe quem é Val Ceasa, eu trabalho de domingo a domingo dando dignidade para a população”, afirmou Val Ceasa.