
O Ministério Público Federal intimou o presidente afastado da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), Rodrigo Bacellar (União Brasil), a prestar depoimento em investigação que apura um suposto vazamento de informações sigilosas dentro da Polícia Federal. O foco é descobrir quem teria repassado detalhes prévios da Operação Zargun, que mirou integrantes do Comando Vermelho, entre eles o ex-deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva, conhecido como TH Jóias.
Segundo investigadores, Bacellar teria avisado TH Jóias na véspera da deflagração da operação, realizada em setembro do ano passado. A suspeita levou à abertura da Operação Unha e Carne, que resultou na prisão de Bacellar no início de dezembro e, posteriormente, em seu afastamento da presidência da Alerj por decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF.
Dias depois, o parlamentar foi solto mediante medidas cautelares, como uso de tornozeleira eletrônica, restrição de deslocamento e proibição de contato com outros investigados.
MPF mira possível vazamento dentro da PF
O novo procedimento investigatório criminal foi instaurado pelo procurador da República Eduardo Benones, coordenador do Núcleo de Controle Externo da Atividade Policial no Rio. Ao justificar a apuração, o MPF afirma que o grau de sigilo que envolve operações dessa natureza indica a possibilidade de um vazamento primário ocorrido no interior da própria Polícia Federal.
A investigação busca esclarecer se houve participação de agentes da PF no eventual repasse de informações a Bacellar ou a terceiros. A hipótese é que o aviso ao então deputado TH Jóias só teria sido possível mediante acesso prévio a dados restritos da operação.
Interlocutores ouvidos pela reportagem afirmam que o depoimento de Bacellar ainda não tem data marcada. Em razão das medidas cautelares impostas pelo STF, que o impedem de viajar, a defesa negocia com o MPF a realização da oitiva por videoconferência.
Relação com TH Jóias entrou na mira
As tratativas entre Bacellar e TH Jóias são um dos pontos centrais da investigação. De acordo com os autos, há indícios de que os dois mantinham interlocução frequente antes da operação. A suspeita de que o presidente da Alerj tenha alertado o ex-deputado reforçou a tese de obstrução de investigação e possível favorecimento a investigado com ligação à cúpula do Comando Vermelho.
TH Jóias foi preso sob a acusação de integrar esquema de apoio político à facção criminosa. A PF sustenta que a Operação Zargun reuniu provas de articulação entre agentes públicos e integrantes do grupo.
A eventual confirmação de que Bacellar teve acesso antecipado às informações e as repassou a TH Jóias pode agravar sua situação jurídica, inclusive com risco de revisão das medidas cautelares atualmente em vigor. Integrantes do Ministério Público avaliam que a comprovação de interferência indevida em investigação criminal pode configurar novos crimes.
Consequências políticas
O caso fragilizou a posição de Bacellar no comando da Alerj e abriu disputa interna pelo controle da Casa. Embora mantenha influência política, o afastamento da presidência reduziu sua capacidade de articulação institucional.
Nos bastidores, aliados temem que o avanço das investigações comprometa de forma definitiva seu capital político. Já adversários veem no caso um desgaste difícil de reverter, sobretudo se for comprovada a existência de um canal privilegiado de informações dentro da PF.
Procurada, a defesa de Bacellar nega irregularidades e afirma que o parlamentar “jamais teve acesso a informações sigilosas de operação policial nem as repassou a quem quer que seja”.