
A Igreja de Nossa Senhora do Bonsucesso, encravada no Largo da Misericórdia – em frente ao Museu Histórico Nacional, vai viver nesta quinta-feira (11/12), às 11h da manhã, um daqueles momentos em que fé, história e música se encontram para contar a mesma história: a de uma instituição que se recusou a desistir. Ali, onde hoje repousam os altares da antiga igreja dos jesuítas do Morro do Castelo e o púlpito de onde pregava São José de Anchieta – fundador da instituição que salva vidas há 443 anos, será celebrada a Missa Solene em Ação de Graças pelo fim do Ano Compromissal da Irmandade da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, coroando um verdadeiro ano de vitórias para a entidade fundada em 1582.
A celebração será presidida por Dom Jeremias de Jesus, Bispo Emérito de Guanhães, que regressa ao Centro Histórico para conduzir um rito de agradecimento em nome de uma das instituições mais antigas e simbólicas da caridade na cidade. Não será uma missa qualquer: o altar do velho templo neoclássico receberá coral e grande orquestra, com 20 músicos, sob a regência da soprano Juliana Sucupira, nome já conhecido de quem acompanha a música sacra no Rio. A promessa é de nave cheia, órgão em diálogo com cordas e vozes, e aquele tipo de solenidade que devolve ao Centro a atmosfera de capital espiritual que ele um dia teve.
Se a Bonsucesso é, por si só, um resumo de camadas da cidade — os restos do Morro do Castelo, o encontro entre caridade e poder público, o trânsito entre porto e hospital — 2025 também se tornou um ano-síntese para a própria Santa Casa. Depois de um longo período de dificuldades, a instituição conseguiu reequilibrar finanças, fechar acordos complexos, como a venda de imóveis no Flamengo para quitar quase R$ 100 milhões em dívidas trabalhistas, recuperar patrimônios e reorganizar sua atuação assistencial. Em vez de esconder as feridas, a Santa Casa decidiu encarar o passivo histórico e transformá-lo em ponto de partida para um novo ciclo.
No comando dessa travessia está o Provedor Francisco Horta, que nos últimos dois anos montou uma equipe técnica e devocional capaz de dar rumo a esse gigante de 443 anos. Sob sua liderança, projetos adormecidos foram retomados, imóveis abandonados passaram a ter destino definido e a instituição, que muitos davam como fadada a definhar, voltou a ser notícia por bons motivos. Horta acaba de ser reeleito para mais um mandato de três anos, o que dá à Santa Casa algo raro em tempos de turbulência: continuidade. A missa desta quinta é também um gesto público de agradecimento por esse período em que, a cada decisão difícil, a entidade optou por seguir viva e útil à cidade.
Para além dos números e dos contratos, há uma dimensão humana que só quem circula diariamente pelo Centro do Rio percebe. Na rotina de consultórios, ambulatórios e serviços sociais ligados à Santa Casa, um ano de vitórias não se mede apenas em balanços, mas em leitos preservados, equipes mantidas, famílias atendidas. Celebrar isso na igreja mais antiga do Centro tem uma força simbólica própria: é como se o Rio olhasse para o próprio berço — aquele pedaço de cidade que nasceu entre colina, porto e hospital — e dissesse “obrigado” em voz alta.
A manhã de quinta deve transformar o Largo da Misericórdia em um pequeno refúgio de beleza. Enquanto lá fora o trânsito da Av. Churchill, da Primeiro de Março e da Santa Luzia segue seu curso, quem entrar pela porta estreita da Bonsucesso encontrará altares maneiristas, o velho púlpito de Anchieta e um mar de música preenchendo cada arco da nave. Juliana Sucupira, à frente da orquestra e do coral, costura o repertório sacro pensado para o tempo do Advento e para a ação de graças da Santa Casa, numa combinação que promete comover tanto devotos habituais quanto curiosos atraídos pela rara oportunidade de ouvir um concerto litúrgico em pleno coração do Centro.
A missa é aberta ao público. Fiéis, os cerca de 180 irmãos da Santa Casa, moradores do Centro, apaixonados por história e por patrimônio, funcionários de repartições vizinhas, todos são convidados a participar. Em uma cidade acostumada a conviver com notícias difíceis, uma manhã em que se agradece por um ano em que as coisas deram certo — ou começaram finalmente a dar — já é, por si só, uma boa notícia. Melhor ainda quando isso acontece em um templo que ajuda a explicar o próprio nascimento do Rio de Janeiro.







Quem olhar para o altar verá mais do que paramentos, velas e músicos afinando instrumentos. Verá uma instituição de séculos dizendo, na linguagem antiga da liturgia, que vale a pena lutar para continuar existindo. E verá também uma mensagem silenciosa ao Centro Histórico: o coração da cidade ainda bate forte, especialmente quando fé, cultura e memória são colocadas para trabalhar juntas.
Ao final, quando o último acorde da orquestra se perder entre as paredes antigas da igreja de Nossa Senhora do Bonsucesso, a sensação deve ser a de que o Rio, por alguns minutos, se reconectou com o melhor de sua própria história — e encontrou motivos sinceros para agradecer.
Serviço
Missa Solene de Ação de Graças pelo Fim do Ano Compromissal da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, com coral e grande orquestra de 20 músicos
Igreja de Nossa Senhora do Bonsucesso – Largo da Misericórdia, Centro do Rio (em frente ao Museu Histórico Nacional)
Quinta-feira, 11 de dezembro de 2025, às 11h
Celebrante: Dom Jeremias de Jesus, Bispo Emérito de Guanhães
Provedor da Santa Casa: Francisco Horta (recentemente reeleito para novo mandato de três anos)
Regência musical: soprano Juliana Sucupira
Entrada franca; há estacionamento pago nas proximidades, na Rua Santa Luzia.
