
A eleição de Douglas Ruas (PL) para a presidência da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), em sessão extraordinária nesta sexta-feira, recolocou no centro do debate a disputa pela sucessão no Palácio Guanabara. O movimento tem peso político, mexe com o tabuleiro de 2026 e reforça a posição de Ruas dentro da linha sucessória estadual. Mas não produz, ao menos por enquanto, um efeito imediato: o novo presidente da Assembleia não assume automaticamente o comando do governo do estado.
Na prática, o arranjo institucional continua o mesmo. O presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ), desembargador Ricardo Couto, segue como governador em exercício desde a saída de Cláudio Castro (PL), que renunciou ao cargo antes da conclusão do julgamento que resultou em sua cassação pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A entrada de Ruas na presidência da Alerj o coloca formalmente em posição relevante na linha sucessória, mas a definição sobre quem deve exercer a chefia do Executivo ainda depende de decisão do Supremo Tribunal Federal (STF).
Esse entendimento foi reforçado por decisão da desembargadora Suely Lopes Magalhães, presidente em exercício do TJ-RJ, que rejeitou o pedido do PDT para que a eleição da nova Mesa Diretora da Alerj fosse realizada por voto secreto. No despacho, a magistrada fez uma distinção clara entre duas disputas que correm paralelamente: uma é a eleição interna da Assembleia; outra, muito maior, é a definição sobre quem comandará o Estado do Rio até a escolha definitiva do sucessor de Castro.
Ao negar a interferência judicial na forma de votação da Alerj, Magalhães observou que a escolha entre voto aberto e fechado integra a autonomia interna do Parlamento estadual. “A princípio, diferentemente do que se observa em relação à eleição indireta do governador e do vice-governador — questão que transcende, por óbvio, os assuntos internos do Parlamento e se encontra atualmente em debate no âmbito do STF —, a definição da modalidade de votação para a escolha da Mesa Diretora da Assembleia Legislativa — se aberta ou fechada — concerne à autonomia organizacional da Casa Legislativa”, afirmou Suely Lopes Magalhães.
A decisão teve efeito direto sobre o desfecho da eleição. O PDT sustentava que a votação aberta poderia abrir espaço para pressões e interferências indevidas sobre os parlamentares. A desembargadora, porém, avaliou que não havia demonstração concreta desse risco. Com isso, foi mantido o rito tradicional da Casa, em que os deputados são chamados nominalmente e anunciam seus votos ao microfone, em ordem alfabética.
Esse formato pesava politicamente a favor de Douglas Ruas. Nos bastidores, a avaliação de adversários era a de que uma votação aberta consolidaria um bloco já montado em torno do deputado do PL. Somados, PL, PP e União Brasil reuniam força suficiente para ultrapassar a barreira dos 36 votos, patamar necessário para assegurar a presidência da Assembleia. Diante desse cenário, partidos do campo adversário passaram a discutir menos uma candidatura competitiva e mais uma estratégia de obstrução.
O grupo político ligado a Eduardo Paes optou pelo boicote. A aliança formada por PSD, PT, PCdoB, PSB, PDT e MDB, que soma 22 deputados, divulgou nota dizendo que deixaria o plenário caso a votação aberta fosse mantida. O PSOL, que chegou a cogitar uma candidatura própria, recuou e aderiu à linha de esvaziamento do processo. A leitura era simples: participar de uma disputa em condições consideradas desfavoráveis apenas serviria para legitimar uma vitória já desenhada.
A deputada Renata Souza, líder do PSOL, resumiu esse argumento ao afirmar que o partido não pretendia chancelar um modelo que, na visão da oposição, prolonga práticas do grupo político de Cláudio Castro. “Entendemos que há um grupo querendo perpetuar as ações que o Cláudio Castro implementou, de uso da máquina pública em benefício próprio. Não queremos legitimar isso. Por isso, o PSOL não vai lançar candidatura própria. Vamos optar por uma construção coletiva, seja para esvaziar a votação e não dar legitimidade, ou para alguma outra ação a ser tomada. Estaremos na Alerj, mas em obstrução”, disse Renata Souza.
O pano de fundo dessa eleição é bem maior do que a simples troca de comando na Alerj. O que está em disputa, de fato, é o controle de uma engrenagem institucional decisiva em ano eleitoral. Douglas Ruas e Eduardo Paes são tratados como adversários no pleito de outubro pelo governo do Rio. Por isso, cada movimento em torno da presidência da Assembleia ganhou dimensão estratégica. O comando da Casa não é apenas um posto legislativo. Ele influencia articulações, relações com outros Poderes e, neste caso específico, pode repercutir diretamente no debate sobre a sucessão estadual.
Apesar disso, a vitória de Ruas não rompe, neste momento, o entendimento que preserva Ricardo Couto à frente do Executivo fluminense. Esse é o ponto central. O novo presidente da Alerj passa a integrar a linha sucessória, mas não assume imediatamente o governo porque o STF ainda não concluiu o julgamento sobre a forma de substituição de Cláudio Castro. Até lá, prevalece a interpretação de que Couto, na condição de presidente do TJ-RJ, permanece no exercício do cargo.
A própria decisão de Suely Lopes Magalhães sublinha essa posição ao afirmar que o tema da sucessão estadual já está submetido ao Supremo. Em outras palavras, a eleição interna da Assembleia não tem força, por si só, para alterar o arranjo provisório do Executivo. A mudança no comando do Legislativo estadual não basta para deslocar imediatamente o governador em exercício.
Depois da vitória, Douglas Ruas deixou claro que pretende atuar politicamente e juridicamente para rever esse quadro. Em declarações após a eleição, o deputado afirmou que buscará diálogo com Ricardo Couto e com o STF para tentar esclarecer os prazos e os critérios que definirão a sucessão. O discurso foi de cautela institucional, mas também de afirmação do papel constitucional da presidência do Legislativo.
“Nós vamos buscar o diálogo tanto com o governador em exercício, o Ricardo Couto, quanto com o Supremo Tribunal Federal (STF) para entendermos os prazos em que deve acontecer essa decisão e, com muito diálogo, a gente vai chegar à conclusão daquilo que é o melhor. É óbvio que a Constituição Federal e a Constituição Estadual replicam os mesmos moldes, para que o presidente do Poder Legislativo seja o segundo na linha sucessória após o governador”, afirmou Douglas Ruas.
Ao falar sobre a hipótese de assumir o Palácio Guanabara, Ruas procurou mostrar disposição para dar continuidade administrativa ao estado, ainda que com ajustes. O parlamentar citou a situação fiscal do Rio e indicou que, caso venha a ocupar o posto, pretende aproveitar medidas já adotadas, aperfeiçoando o que considerar necessário. “Eu assumindo como governador em exercício, é óbvio que a gente vai aproveitar aquilo que já foi feito, aperfeiçoar aquilo que a gente pode aperfeiçoar, e sem sombra de dúvida. É um grande desafio do Estado do Rio de Janeiro às contas públicas”, declarou Douglas Ruas.
A fala revela que, embora a posse no Executivo não esteja dada, o presidente recém-eleito da Alerj já age como ator central na disputa institucional. A movimentação do PL aponta para isso. Nos bastidores, o partido discute caminhos para levar ao Supremo a tese de que o presidente da Assembleia deveria assumir o governo, ao menos de forma interina. Esse entendimento já havia sido defendido anteriormente, quando Ruas venceu uma primeira disputa para o comando da Casa, depois anulada pelo TJ-RJ.
Naquele momento, o embate também girava em torno da sucessão aberta após a queda de Rodrigo Bacellar. A Justiça determinou a recontagem dos votos obtidos pelo então presidente da Assembleia, e só depois disso houve a consolidação do novo resultado que levou Douglas Ruas ao topo da estrutura do Legislativo estadual. A repetição da disputa mostra que a crise institucional fluminense está longe de ser um episódio isolado. Ela se arrasta entre decisões judiciais, movimentos partidários e disputas de poder que ultrapassam o plenário.
Hoje, o centro do impasse está no STF. A Corte analisa ações que discutem dois pontos principais: o modelo de eleição para preencher o mandato-tampão deixado por Cláudio Castro e a própria validade das regras aprovadas pela Alerj para essa sucessão. Há ainda questionamentos sobre a linha sucessória e sobre quem deve ocupar o cargo enquanto o processo não é concluído. O julgamento, no entanto, foi interrompido por pedido de vista do ministro Flávio Dino, que entendeu ser necessário aguardar a publicação da decisão final do TSE no caso envolvendo Castro.
Essa pausa prolonga a interinidade e, ao mesmo tempo, mantém viva a disputa política. Para o grupo de Douglas Ruas, a presidência da Alerj reforça o argumento de que o Legislativo deve ser chamado ao centro da sucessão. Para o grupo de Eduardo Paes, o voto aberto e a vitória do PL consolidam um campo adversário dentro de uma Casa estratégica. E para o TJ-RJ, ao menos até agora, a solução mais segura é preservar Ricardo Couto no comando até que o Supremo dê a palavra final.
No meio desse tabuleiro, a pergunta que move o debate é direta: o novo presidente da Alerj pode virar governador? Hoje, a resposta é não — pelo menos não de forma automática nem imediata. Douglas Ruas entrou, sim, na linha sucessória. Ganhou peso político, institucional e eleitoral. Mas o cargo de governador em exercício continua com Ricardo Couto, e qualquer mudança dependerá da conclusão do julgamento no STF.
O que a eleição desta sexta-feira produziu foi outra coisa: fortaleceu Douglas Ruas para a guerra jurídica e política que vem pela frente. O plenário da Alerj resolveu quem manda no Legislativo. Já o comando definitivo — ou mesmo provisório — do Palácio Guanabara segue travado entre o Judiciário, a Constituição e os cálculos eleitorais de 2026.