quarta-feira, 6 de maio de 2026 - 8:11

  • Home
  • Alerj
  • O Brasil é uma mulher negra: políticas públicas e equidade para quem está na base

O Brasil é uma mulher negra: políticas públicas e equidade para quem está na base

Mulheres negras são o maior grupo populacional do país. As mulheres representam 51,5% e negros 56,1% da sociedade, com mulheres negras compondo 28,5%. E a pergunta que deixo para você, leitora e leitor: se as mulheres negras são a maioria da sociedade, quantas delas convivem no seu círculo social?

Sou uma mulher negra, mãe, jovem e da extrema zona oeste do Rio de Janeiro. Também sou gestora pública, secretária municipal e vereadora eleita, além de carregar vários outros títulos e cargos de liderança. Nós, mulheres negras, precisamos frequentemente destacar nossas conquistas, pois, infelizmente, no imaginário social, nossa estética não é vista como pertencente a essas posições de poder.

Sustentamos a economia na base, lideramos famílias e movimentamos a cidade. No entanto, somos apenas 8% na política, 3% em cargos de alta liderança no setor privado e 1,8% nos conselhos administrativos. Ou seja, a conta não fecha.

Essa distância entre quem constrói o Brasil e quem define seus rumos é uma das expressões mais profundas da desigualdade. No dia 25 de julho — Dia Internacional da Mulher Negra, Latina e Caribenha —, não pedimos clemência, mas reivindicamos nossos direitos. E o desafio da gestão pública é enfrentar essa distorção com políticas que reconheçam, repararem e garantam nossa presença.

Observando os dados sobre violência contra a mulher e abuso sexual infantil, vemos que a vida da mulher negra brasileira continua alvo de intensa violência. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública deste ano, 1.492 mulheres foram assassinadas — o equivalente a quatro vítimas por dia. Desse total, 63,6% eram negras. Entre os 87.545 casos de estupro registrados, 55,6% das vítimas pertenciam a esse grupo. Além disso, 76,8% dos casos envolveram meninas vulneráveis, sendo metade delas negras e tendo até 14 anos.

Diante de tantos dados, minha reflexão é que a luta pelo fim das desigualdades econômicas e sociais é fundamental para que o Brasil alcance seu verdadeiro espaço de poder. Devemos reconhecer nossas profundezas mazelas e agir com estratégias eficazes para alavancar mudanças estruturais.

Nos últimos anos, tive a oportunidade de visitar diversos países, compartilhando e aprendendo sobre desenvolvimento econômico. O que mais aprendi nessas experiências foi que uma nação se desenvolve economicamente quando investimos no seu povo. Para isso, são necessárias estratégias educacionais e a erradicação da pobreza para os grupos mais vulneráveis. Assim, com o tempo, o impacto na segurança pública, na saúde e em outras áreas-chave se torna evidente, e a “promessa” de potência se transforma em “realidade”.

Meus amigos e amigas, eu não sou a minoria! Eu pertenço à maioria que, ao longo da história, foi excluída dos espaços de poder.

Como muitas mulheres negras em posições de liderança, enfrentei desconfiança e cobrança desproporcionais, mas estou firme na convicção de que ocupar esses espaços é parte de um processo mais amplo: garantir políticas que funcionem para todas as famílias, sem perder de vista as desigualdades para buscar justiça.

Quando falamos em políticas públicas para mulheres negras, estamos abordando a interseccionalidade aplicada à gestão: entendendo como gênero, raça e território se entrelaçam para gerar equidade para todos.

Neste Julho das Pretas, reafirmamos a importância de uma gestão pública e privada que escute, reconheça e atue com base nas realidades concretas das mulheres negras.


As opiniões expressas neste artigo são de exclusiva responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a posição do jornal.

Receba notícias no WhatsApp e e-mail

Clique aqui para acessar a Fonte da Notícia

VEJA MAIS

Em Paraty, bicho-preguiça é devolvido à natureza

Crédito: Inea Um bicho-preguiça (Bradypus variegatus) foi solto na Reserva Ecológica Estadual da Juatinga (REEJ),…

Entre a Faxina de Couto e o Teto de Cavaliere: Para que servem (ou deveriam servir) os cargos comissionados?

Imagem gerada por Inteligência Artificial Foi aprovado hoje na Câmara Municipal do Rio de Janeiro…

CBMERJ capacita especialistas em salvamento em desastres e inaugura centro de treinamento subaquático

Crédito: CBMERJ O Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro (CBMERJ) formou,…

Ir para o conteúdo