terça-feira, 9 de dezembro de 2025 - 12:12

  • Home
  • Rio de Janeiro
  • O brilho das “jóias de crioula”, as mulheres negras e o Rio que elas ajudaram a moldar

O brilho das “jóias de crioula”, as mulheres negras e o Rio que elas ajudaram a moldar

“Jóia de Crioula” – penca de balangandãs – à venda pela Casa de Leilões Miguel Salles, de Petrópolis / Foto: Catálogo Miguel Salles

No Rio de Janeiro do século XIX, entre pregões de rua, sinos de igreja, quitandas fumegantes e sobrados cheios de vida, havia um brilho que atravessava a paisagem urbana e chamava atenção de viajantes, cronistas e moradores: o brilho das chamadas “jóias de crioula”. Torcer o nariz para o nome histórico dado a estas lindas jóias talvez seja recente, mas a presença dessas peças é antiga — e elas contam, com delicadeza e força, uma história que a cidade nem sempre soube ouvir.

Esses vistosos adereços eram usadas majoritariamente por mulheres negras, fossem elas escravas de ganho, libertas, quitandeiras, mucamas de confiança ou mulheres que conquistaram, com trabalho próprio, alguma autonomia em uma sociedade que lhes negava quase tudo. Caminhando pelo Largo do Paço, pela Rua Direita, pela Rua do Ouvidor, pelo mercado da Candelária ou pelas ladeiras da Saúde e da Gamboa, elas eram figuras centrais da vida carioca. E a maneira como se adornavam dizia muito sobre quem eram.

Ao contrário de uma visão estereotipada que imagina essas mulheres invisíveis ou restritas ao trabalho forçado, muitas delas tinham intensa participação na economia urbana. As escravas de ganho, por exemplo, entregavam uma quantia diária a seus senhores, mas administravam parte dos próprios ganhos. Não eram raras as que conseguiam acumular recursos, comprar a própria liberdade ou investir em objetos de valor. As joias eram, antes de tudo, patrimônio portátil: uma forma segura de guardar riqueza em tempos instáveis. Só depois tinham função estética.

As peças variavam enormemente — argolas de ouro que quase tocavam os ombros, pulseiras grossas, manilhas, medalhões religiosos, figas, búzios, colares de coral, correntes em prata, pencas de balangandãs, berloques e balangandãs que tilintavam ao caminhar. Havia nelas uma fusão de mundos: influências africanas se misturavam a elementos católicos, técnicas portuguesas de ourivesaria encontravam repertórios afro-brasileiros, materiais europeus dialogavam com símbolos trazidos do continente africano. Cada peça era uma biografia em miniatura. Muitos africanos abraçaram o catolicismo e chegaram a integrar ricas irmandades católicas de negros que inclusive pagavam alforrias anualmente para libertar mais e mais escravos. No Centro há pelo menos 3 destas irmandades que sobrevivem até hoje.

O ouro — muito mais acessível no Brasil do oitocentos do que é hoje — era frequente, assim como a prata. Havia também ligas mais simples, cobre, latão, miçangas importadas do comércio atlântico, corais naturais, corais, granadas, turquesas, contas coloridas, sementes e até objetos que tinham função espiritual, como búzios usados como amuletos. Não havia distinção rígida entre adorno e proteção: uma pulseira podia ser bela e, ao mesmo tempo, guardiã contra o mau-olhado. Um balangandã podia ter valor material e religioso na mesma medida.

Essas mulheres negras, enfeitadas de forma tão particular, tornaram-se personagens marcantes das ruas do Rio. Viajantes que passaram pela cidade deixaram registros admirados da elegância das negras de ganho, com seus panos coloridos na cabeça, suas saias amplas e suas joias reluzentes. Para muitos europeus, elas eram a imagem mais vívida do Rio: fortes, imponentes, ativas, circulando em todos os espaços — do comércio aos largos, dos mercados às festas religiosas.

O uso das joias, porém, não era apenas vaidade — era afirmação. Era comunicação visual dentro e fora da própria comunidade negra. Era também um gesto de resistência estética: um modo de existir com dignidade em uma sociedade que tentava desumanizá-las. Os adornos funcionavam como signos de liberdade, de pertencimento, de identidade. Houve irmandades inteiras, como as de Nossa Senhora do Rosário, Santa Efigênia, São Elesbão e São Benedito, em que o uso de determinados colares ou medalhões demarcava vínculos espirituais e sociais.

Ainda hoje há um grande mercado de colecionadores destas bonitas peças, em geral chamativas, que frequentam leilões de arte onde as jóias aparecem com frequência: neste momento um leilão da Casa de Leilões Miguel Salles, disponível on-line, está comercializando muitas delas – que ilustram esta reportagem, reproduzidas do catálogo. Os valores de estimativa de venda vão de cerca de 1500 reais até mais de 5.000, por peça. Confira a plataforma leiloes.br para ver os lotes, online.

Importante lembrar que as modelagens e estilo das jóias de crioula não pertenciam ao repertório das elites brancas. Eram, sobretudo, expressão estética e econômica das mulheres negras — escravas de ganho, libertas ou quitandeiras — que as transformaram em símbolos de identidade, status e autonomia. Não se tratava de exotismo nem de imitação: era uma linguagem visual própria, criada por elas e para elas, e que acabou moldando profundamente a cultura urbana do Rio no século XIX.

Com o tempo, essas peças migraram para museus, coleções particulares e estudos especializados. Hoje, encontram-se exemplares no Museu Histórico Nacional e em importantes coleções brasileiras, que ajudam a decifrar seus significados e sua estética. Ainda assim, parte de sua história permanece no ar, como perfume antigo, mais sentida do que documentada.

As jóias de crioula representam um Rio que existiu antes das avenidas largas, antes das reformas urbanas, antes do apagamento de comunidades inteiras. Um Rio que as mulheres negras iluminaram com seus adereços, sua força e sua presença. Um Rio que sobrevive, até hoje, no metal trabalhado, no coral, no vidro colorido, nos búzios e nas histórias que essas joias silenciosamente carregam.

A exposição do Espaço Diário do Rio de Cultura, sobre o cotidiano da cidade no Século XIX, traz em cerca de 69 litografias aquareladas de Jean Baptiste Debret muitas imagens que mostram o uso destas vistosas peças pelas mulheres da época. Você pode conferir a exposição de terça a sexta de 14 às 18h e sábados de 11 às 18h.

Se o passado às vezes tenta ser discreto, essas joias lembram que nada brilha mais do que aquilo que resiste.

Receba notícias no WhatsApp e e-mail

Clique aqui para acessar a Fonte da Notícia

VEJA MAIS

Uerj coordena primeira expedição científica neutra em carbono na Antártica

Foto: Divulgação A missão Criosfera 1 2025/2026, comandada pela Universidade do Estado do Rio de…

No DR com Demori, historiador analisa política e desafios para 2026

O cientista político Juliano Medeiros é o próximo convidado do programa DR com Demori. Na…

Profissionais do SUS receberão treinamento em cuidados paliativos

Profissionais de serviços de atenção primária à saúde serão treinados para atuar em cuidados paliativos, com…

Ir para o conteúdo