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O Capanema aberto ao povo é uma grande oportunidade: por uma política cultural descentralizada e enraizada nos territórios

Foram investidos mais de R$ 80 milhões na recuperação do edifício, tombado desde 1948

A recente notícia divulgada pelo Diário do Rio, de que o Palácio Gustavo Capanema reabrirá ao público com visitas guiadas gratuitas a partir de agosto, ultrapassa a mera dimensão turística. Trata-se de um gesto simbólico poderoso: devolver ao centro do Rio de Janeiro um de seus ícones mais representativos do modernismo, que historicamente abrigou instituições fundamentais para a cultura e a memória do país, como a Biblioteca Nacional, a Funarte e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A reabertura do Capanema deveria, sobretudo, oportunizar a reconstrução de uma política cultural verdadeiramente conectada aos territórios, capaz de reanimar centros históricos progressivamente esvaziados e de renovar a presença do Estado como indutor da cultura e do turismo.

Marco da arquitetura moderna brasileira e testemunho de uma época que forneceu os pilares do nosso legado patrimonial, o prédio restaurado pode ser mais que um edifício: deveria se tornar um laboratório vivo de práticas culturais transformadoras. Seria, assim, uma espécie de bote salva-vidas da política cultural federal que, se quiser manter alguma legitimidade, terá que se descentralizar, irradiando recursos, conhecimentos e oportunidades para muito além dos gabinetes de Brasília. A vitalidade do Capanema, no coração do Rio, pode e deve inspirar modelos semelhantes em outras capitais e cidades históricas brasileiras — de Recife a São Luís, de Belém a Salvador.

É preciso compreender que o Palácio Gustavo Capanema não é uma unidade ontológica — ainda que quase configure a personificação da política cultural brasileira. Ali atuam órgãos federais com papel estratégico e potencial de capilaridade, como a própria Biblioteca Nacional, o Iphan e a Funarte. O desafio dessas instituições passa obrigatoriamente por abandonar a lógica centralizadora, investindo de forma consistente em ações territorializadas, sustentáveis e participativas. Não basta descentralizar fisicamente: é preciso garantir a circulação de pessoas, de acervos, de ideias e de decisões. A Fundação Oswaldo Cruz, por exemplo, demonstra como uma instituição federal pode produzir ciência e cultura dialogando com territórios, periferias e populações, transformando conhecimento em bem público. Do mesmo modo, a Fundação Joaquim Nabuco, em Pernambuco, mantém pesquisa e difusão cultural articuladas às realidades regionais, sem abrir mão da excelência. São experiências que merecem ser ampliadas e replicadas.

Também não podemos esquecer os museus federais vinculados ao IBRAM, presentes em cidades como Rio, Cabo Frio, Paraty, Sabará, Ouro Preto, Diamantina e São Paulo, e que carregam a difícil tarefa de equilibrar gestão patrimonial com compromisso público. Muitas vezes, esses museus se tornam reféns de uma burocracia sufocante, comandada a partir de Brasília, distante dos desafios concretos enfrentados localmente. O resultado disso é a inércia: prédios tombados sem manutenção, acervos sem uso público e comunidades vizinhas sem qualquer senso de pertencimento. Inverter essa lógica não é tarefa simples — mas é absolutamente necessária.

O esvaziamento dos grandes centros históricos anda de mãos dadas com o encastelamento das estruturas federais. Enquanto os bairros antigos perdem vitalidade e se tornam ilhas de degradação, o aparato estatal se tranca em prédios ministeriais e em processos decisórios herméticos, incapazes de responder às necessidades dos territórios, dos monumentos (muitos deles pertencentes — ironicamente — à própria União) e de seus detentores. É nesse vácuo que surgem as distorções: a cultura passa a ser vista como ornamento, quando deveria ser prioridade estruturante e vetor de desenvolvimento social, turístico e econômico.

O que está em jogo na reabertura do Capanema não é apenas a beleza de suas linhas arquitetônicas, mas a oportunidade histórica de reconstruir uma política cultural coerente, descentralizada e enraizada. Uma política que ative de verdade os equipamentos públicos, que valorize a memória social e democratize o acesso ao patrimônio. Uma política que saia dos palácios e chegue às ruas, transformando centros históricos em espaços vivos de fruição, diálogo e pertencimento.

Que o Palácio Gustavo Capanema seja, portanto, só o começo. Que sua reocupação inspire gestores públicos a romper a letargia e a investir na descentralização cultural de modo permanente, valorizando a mão de obra e o conhecimento acumulado nas pontas. Que se criem redes capazes de democratizar saberes, estimular a participação comunitária e reposicionar o patrimônio como elemento central de cidadania. O Brasil não pode mais se dar ao luxo de manter sua cultura presa em redomas burocráticas. É hora de devolvê-la à sociedade.


As opiniões expressas neste artigo são de exclusiva responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a posição do jornal.

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