Por Everton Gomes
O pensador Alberto Pasqualini, uma das mentes mais brilhantes do trabalhismo brasileiro, nos legou uma reflexão que define com precisão o nosso tempo: “O objetivo de um partido político não é preservar a sua história, mas sim fazê-la.” Essa máxima resume o desafio central que a América Latina enfrenta hoje. Diante de uma clara crise de representação e do enfraquecimento das instituições, o verdadeiro desafio já não consiste apenas em reconstruir os partidos, mas em restabelecer a confiança da cidadania neles.
Para que essa transformação aconteça, as siglas partidárias precisam superar a lógica analógica. Os partidos continuarão sendo indispensáveis para a democracia, mas não podem mais se limitar a ser máquinas eleitorais que ganham vida nas campanhas e desaparecem no dia seguinte às urnas. O partido do século XXI deve conservar sua natureza institucional, mas incorporar a energia de um movimento permanente de defesa da cidadania. Isso significa formar lideranças antes de candidaturas, organizar comunidades antes de campanhas e produzir ideias antes de slogans. A política deve estar presente no cotidiano, agindo como uma verdadeira escola de cidadania.
Nesse cenário, surge a urgência de reconstruir o centro democrático — não como um espaço amorfo e indefinido entre a esquerda e a direita, mas sim como um polo definido pela capacidade de construir governabilidade, gerar bem-estar e entregar resultados concretos para a população. É o espaço convergente onde a liberdade encontra a justiça social; onde a responsabilidade fiscal convive com a responsabilidade social; e onde a estabilidade institucional impulsiona a inovação, substituindo a polarização pelo diálogo. Sob essa ótica, a Constituição deixa de ser apenas um texto jurídico para se transformar em um projeto vivo de nação.
A defesa de uma política programática exige objetivos claros, resultados mensuráveis e pleno respeito ao Estado de Direito, rejeitando ortodoxias, populismos e o velho clientelismo. Afinal, as transformações do nosso tempo exigem respostas inéditas. O mundo do trabalho muda aceleradamente, e a precarização das relações trabalhistas desafia os sistemas tradicionais de proteção social. Ao mesmo tempo, a transição para uma economia descarbonizada redesenha a produção e o emprego, enquanto a inteligência artificial modifica profundamente a economia, a sociedade e a própria dinâmica democrática.
Mesmo diante dessas novidades tecnológicas e climáticas, o continente ainda arrasta o seu desafio histórico: construir igualdade de oportunidades, reduzir os abismos sociais e garantir justiça social. Esses problemas dialogam com o nosso passado, mas rejeitam soluções escritas com cartilhas obsoletas. Precisamos de novas formas de dialogar, comunicar, participar e, acima de tudo, de formar novas lideranças.
Frequentemente, o debate público se questiona sobre como atrair os jovens de volta para a política. Talvez a pergunta esteja errada. A verdadeira questão que devemos responder é: como transformamos os nossos partidos em organizações onde as novas gerações queiram permanecer, criar, inovar e construir o futuro? Ao decifrar esse enigma, não estaremos renovando apenas as siglas partidárias, mas a própria democracia. Afinal, a saúde democrática não se fortalece apenas com eleições melhores, mas com cidadãos conscientes, instituições sólidas e partidos capazes de organizar a sociedade civil.
Para trilhar esse caminho, vale resgatar o ensinamento de Simón Bolívar, que segue iluminando o horizonte: “Moral e luzes são as nossas primeiras necessidades.” Precisamos de moral para recuperar a ética e a confiança na política e de luzes para compreender a complexidade do século XXI, gerando novas respostas para uma nova realidade. Ao unirmos partidos que fazem história e uma democracia guiada pelo conhecimento, devolveremos a esperança e o protagonismo aos povos da América Latina.
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