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O Rio que mora nos telhados: como as telhas de Marselha contam a história da Cidade

Telha de Marselha que foi a leilão como “antiguidade”, pela Casa de Leilões Vera Lopes / Foto: Divulgação

Quem caminha distraído pelo Centro Histórico do Rio de Janeiro raramente olha para cima. O passo apressado, o comércio intenso, os ônibus e o VLT, os prédios e as calçadas ocupam quase todo o campo de visão. Mas basta um gesto simples — erguer os olhos — para perceber que uma parte essencial da história da cidade está escrita não nas fachadas, mas nos telhados. Aliás, no mundo moderno, basta dar uma espiada no Google Earth. Ali, sobre sobrados seculares, repousa uma imensa quantidade de telhas de Marselha, também chamadas de telhas francesas, que ajudam a contar como o Centro do Rio se modernizou, se conectou ao mundo e construiu sua paisagem urbana mais característica.

Ao contrário do que muitos imaginam, a telha colonial tradicional, moldada manualmente — a que muitos chamam (muitas vezes erradamente) telha “nas coxas” — é exceção no Centro histórico. Este tipo, ondulado, aparece com mais frequência em construções mais antigas, em áreas rurais, em conventos ou em edificações que preservaram técnicas construtivas do período colonial. Já nos sobrados comerciais e residenciais que moldaram o Centro do Rio a partir do século XIX, quem domina são as telhas industriais, planas, encaixadas, de desenho regular: as famosas telhas de Marselha. Pouca gente sabe mas elas chegaram a ser fabricadas com lado certo: umas encaixam pelo lado esquerdo, outras pelo direito. E tem até as de vidro, pra deixar a luz entrar!

Essas telhas “chatas” surgem na Europa no contexto da industrialização da cerâmica, na segunda metade do século XIX. Produzidas em larga escala, com moldes padronizados, elas ofereciam vantagens claras: melhor vedação contra a chuva, encaixe preciso, possibilidade de inclinação menor dos telhados e um aspecto visual mais ordenado, compatível com a arquitetura urbana que se consolidava naquele período. Não eram apenas telhas — eram um símbolo de modernidade.

Produzidas inicialmente na região de Marselha e em outros polos cerâmicos franceses, essas telhas passaram a circular pelos grandes portos do mundo. O Rio de Janeiro, então capital do Império e depois da República, principal porta de entrada do Brasil, tornou-se um destino natural desse material. Navios atracavam no cais trazendo mercadorias, ideias, modas — e também telhas. Muitas delas chegaram embaladas em grandes lotes, destinadas a obras novas ou à substituição de coberturas antigas. Na virada do século, muitos sobrados antigos foram sendo demolidos para dar lugar a alguns que estão por aí até hoje. A foto abaixo mostra uma geração anterior à dos sobrados atuais, no Largo de São Francisco e rua do Teatro.

Sobrados ao lado da Igreja de S. Francisco de Paula: o segundo, terceiro e quarto prédios depois da igreja ainda são da geração Anterior aos sobrados de telhas francesas

Não é raro, ainda hoje, encontrar telhas com inscrições em baixo-relevo como “Marseille”, “Tuiles de Marseille” ou marcas de fabricantes europeus. Essas palavras gravadas no barro funcionam como pequenas certidões de nascimento do telhado. Elas dizem de onde veio o material, em que contexto foi produzido e como o Rio se conectava diretamente ao comércio internacional. Cada telha é, ao mesmo tempo, objeto construtivo e documento histórico. Hoje, são fabricadas no país, por vezes muito mais finas e frágeis do que as originais, que são mais pesadas e resistentes. Inclusive há um grande mercado de venda destas telhas usadas: mestres de obra e especialistas em telhados dizem que as antigas duram mais e sofrem menos com a mudança de temperatura.

A adoção maciça das telhas de Marselha no Centro do Rio acompanha uma transformação urbana mais ampla. A cidade do fim do século XIX e do início do XX buscava se afastar da imagem colonial portuguesa e se aproximar de padrões europeus considerados supostamente mais racionais, higiênicos e modernos. Isso se reflete nas fachadas ecléticas e nas platibandas que escondem os telhados vistos da rua, nas calhas embutidas e na padronização construtiva dos sobrados que aos poucos substituíram as construções coloniais originais. As telhas francesas dialogam perfeitamente com essa lógica: são discretas, eficientes e pensadas para a cidade densa.

Por isso, em muitos trechos do Centro histórico, os telhados não aparecem frontalmente. Eles estão ali, mas recuados, escondidos atrás das platibandas. Ainda assim, basta um ângulo mais alto, um mirante improvisado ou um olhar atento entre prédios para perceber a extensão desse mar de telhas francesas cobrindo quarteirões inteiros. É uma paisagem pouco fotografada, mas profundamente reveladora. Uma outra vantagem delas é que são mais resistentes e permitem que os operários andem sobre o telhado com muito menos risco de quebrar as peças.

Mais raras ainda são as telhas de louça pintadas à mão. Essas aparecem de forma pontual, quase sempre associadas a edificações muito específicas, onde a função decorativa se sobrepõe à puramente construtiva. Dois lindos prédios na rua da Quitanda (o 51, que infelizmente não é tombado, e o 61, protegido pelo Iphan), são lindos exemplos de fachadas azulejadas com grandes telhas pintadas à mão lá no alto. Não fazem parte do vocabulário corrente do Centro, mas funcionam como exceções preciosas, lembrando que o telhado também pode ser suporte artístico.

Ler o Centro do Rio pelos telhados é uma forma curiosa — e profundamente carioca — de entender a cidade. As telhas de Marselha falam de um Rio que importava materiais, técnicas e ideias; de um porto vibrante; de uma cidade que se pensava moderna e cosmopolita; e de uma arquitetura feita para durar. Muitas dessas telhas já atravessaram mais de um século de sol, chuva, reformas e improvisos. Continuam ali, sustentando silenciosamente a vida urbana que pulsa abaixo.

Numa cidade que se prepara para restaurar dezenas de sobrados através do projeto Reviver Proapac Patrimônio, as telhas francesas – que costumam ser preservadas pelos órgãos de patrimônio, que exigem fachadas e telhados impactos – voltarão a ter um tipo de protagonismo no mundo das reformas e obras. Quase três centenas de imóveis foram alvo de Edital para que a sociedade indicasse prédios a serem restaurados e devolvidos à sua função social. As telhas de barro chatas e de encaixe vão vir com tudo, se o programa der certo. Discretas, mas marcantes, garantem a estanqueidade de telhados centenários que voltarão a ter muitos moradores sob sua proteção.

Talvez o maior charme dessas telhas esteja justamente nisso: elas não chamam atenção. Não pedem restauração heroica, não disputam protagonismo com igrejas ou fachadas monumentais. Mas, sem elas, o Centro do Rio não seria o mesmo. Pilotar um drone ou olhar para cima, afinal, também é uma forma de fazer história.

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