terça-feira, 10 de fevereiro de 2026 - 2:28

Passado de elegância e poder contrasta com o atual ocaso do Catumbi

Reprodução: Site do cemitério

Segunda necrópole mais antiga do Rio de Janeiro, o cemitério do Catumbi guarda uma relação singular com a época do Império. No campo santo da região central carioca estão sepultados barões, condes e viscondes, entre outros poderosos.

Um dos mais emblemáticos deles é o arrojado empreendedor comercial, Visconde de Mauá, que tem os seus restos depositados no Cemitério São Francisco de Paula. No local, outros personagens também têm a sua morada eterna. Maria Benedita de Castro Canto e Melo, a Baronesa de Sorocaba, irmã da Marquesa de Santos e uma das incontáveis amantes de Dom Pedro I está lá, assim como o Marquês de Sapucaí.

O sepultamento do patrono do Exército, Marechal Duque de Caxias, em 7 de maio de 1880, parou o Rio de Janeiro e fez o cemitério do Catumbi ficar pequeno, segundo jornais da época. Tantos personagens, de importância crucial em suas épocas, mostram que pelo bairro passavam personalidades da elite nacional.

Bairro surgido no século XVIII, o Catumbi também foi retratado no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, no qual Machado de Assis inicia a obra flanando pelas chácaras do bairro. O período foi um momento de encanto, quando o Catumbi deixou a fama de pestilento, para se tornar cobiçado e sinônimo de elegância e prestígio, como ressaltou historiador e jornalista Thiago Gomide (O Globo).

Mas a história do bairro vai além de personagens. Há ainda os monumentos famosos, como um antigo chafariz que fica frente ao Sambódromo. O monumento foi erguido, em 1786, para resolver a falta d’água. A solução para o problema urgente partiu da cabeça de um dos maiores artistas e engenheiros do período colonial, o Mestre Valentim.

Mas o projeto de Valetim, apesar da funcionalidade, causou assombro na população. Além de um aqueduto, o chafariz contava ainda com uma escultura de lagarto como ornamentação. Segundo Thiago Gomide, moradores supersticiosos acreditavam que o réptil tinha ligação com o diabo, trazendo azar e assombrações. A fama de maldito, no entanto, se dissipou com o tempo. Mas “o nome pegou”, diz Thiago.

Central na vida do bairro, a Igreja Nossa Senhora da Salette foi projetada e construída pelo padre e arquiteto francês Moussier cujos restos mortais repousam na paróquia. O sacerdote foi uma liderança no enfrentamento da gripe espanhola em 1918.

Linha de frente no combate à gripe espanhola, padre Moussier acabou sucumbindo à doença. Admirado pela população, o seu sepultamento atraiu uma multidão de fiéis, em reconhecimento sua à sua devoção, solidariedade e coragem.

O Catumbi também registrou uma tragédia na sua principal via de acesso, o Túnel Santa Bárbara, que liga o bairro à Zona Sul. O túnel começou a ser construído em 1947, mas a sua conclusão só aconteceu em 1964. Durante a sua construção, 18 operários perderam a vida em uma explosão acidental. A tragédia deixou a população horrorizada.

Para homenagear as vítimas, o túnel recebeu o nome da padroeira dos mineiros e dos tuneleiros: Santa Bárbara – protetora contra explosões e desastres subterrâneos. Os trabalhadores também foram homenageados com um painel da artista Djanira, cujo trabalho ornamentou o Santa Bárbara por anos.

Hoje, longe dos tempos áureos, o Catumbi coleciona problemas “testemunhados” pelos falecidos ilustres que dão nomes às ruas ou descansam no seu cemitério. Juntamente com o Rio Comprido, o bairro sofreu uma mudança drástica, especialmente a partir do século XX.

De acordo com Thiago Gomide, o ocaso da região central da cidade teve início com o processo de industrialização do Rio de Janeiro, que exigiu a abertura de túneis e viadutos, transformando os bairros até então bucólicos, em locais de passagem.

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