
O Cordão do Boitatá voltou a ocupar o Centro do Rio neste domingo (8) com um desfile que apostou no que sempre foi sua marca: música tocada na rua, proximidade com o público e clima de celebração coletiva. No ano em que completa 30 anos, o bloco passou a integrar oficialmente a lista de megablocos da cidade e levou para o Circuito Preta Gil um cortejo sem trio elétrico, com pernaltas, estandartes, baianas e uma multidão cantando junto. Confira a agenda dos Blocos de Rua do Rio em 2026.
Foram cerca de 250 músicos na rua e quase 400 integrantes no total. Depois de um período afastado da região, o Boitatá voltou à Avenida Primeiro de Março e arredores, em um trajeto redesenhado para comportar a dimensão que o bloco ganhou ao longo das décadas.
O repertório passeou por sambas, marchinhas, afoxés e frevos, além de arranjos próprios de nomes como Pixinguinha, Villa-Lobos, Moacir Santos, Maestro Duda e Braguinha. Reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da cidade do Rio, o Boitatá também apresentou composições criadas especialmente para sua orquestra.
“É uma alegria muito grande voltar ao circuito da Praça XV, de onde saímos em 2012, e ser reconhecido pela Riotur nesse espaço. Isso prova a importância da brincadeira do cordão para o Carnaval da cidade. O Boitatá já era megabloco pelo público e por tudo que representa. Estamos muito felizes”, afirmou Kiko Horta, um dos fundadores.
O cortejo ganhou ainda um casal de mestre-sala e porta-bandeira, um boneco gigante de papel machê de Pixinguinha e a ala de pernaltas liderada pela artista e produtora cultural Raquel Poti, que desfila pelo bloco há 12 anos.
“O Boitatá foi um dos primeiros blocos a abraçar a nossa ala de pernaltas douradas. Aqui a gente aprende valores que norteiam o Carnaval desde a base: respeito à rua, cuidado, troca de energia. É uma grande escola de vida”, disse Raquel Poti.
Entre os foliões, a carioca Luana Schellenberg, de 33 anos, chegou cedo para ficar na corda. Grávida, ela explicou a escolha. “Não queria deixar de curtir o Boitatá. É um dos meus blocos favoritos, pelos músicos, pelas pernaltas, pelos estandartes. É o Carnaval em que eu acredito”, contou, com uma estrela desenhada na barriga.
Em um dos momentos mais emocionantes do desfile, o boneco de Pixinguinha se virou para a ala de pernaltas, que abriu uma faixa em homenagem a Preta Gil, que dá nome ao circuito e morreu em 2025. Ao som de “Sinais de Fogo”, o público gritou o nome da artista e transformou a rua em coro.

No Largo de São Francisco de Paula, o Fogo e Paixão fez seu 16º desfile com o tema Carnovelas, homenageando a teledramaturgia brasileira. Personagens como Viúva Porcina, Perpétua, Nazaré e Jorge Tadeu apareceram na bateria, reforçando o espírito bem-humorado do bloco. A cantora Rosana, sucesso dos anos 1980, participou do desfile.
“Carnaval é bateria junto com o folião. Depois de 16 anos, a gente quis fazer algo diferente e o tema de novela caiu como uma luva”, explicou Pedro de Moraes Martins, um dos fundadores.
Na Glória, o Chora Me Liga reuniu fãs da sofrência sertaneja e celebrou um momento de reencontro com sua própria história. “O melhor lugar da gente era aqui”, resumiu o produtor Marcelo Vital, ao falar da volta ao formato mais próximo do público. A proposta foi simples: curtir, cantar junto e manter o clima leve.


O domingo também foi de despedida. Após quatro décadas, o Suvaco do Cristo fez seu último desfile pelas ruas do Rio. Fundado no Jardim Botânico, o bloco saiu com sambas emblemáticos de sua história e homenageou nomes marcantes da trajetória. “O DNA do Suvaco está presente em inúmeros blocos do Carnaval de rua”, disse João Avelleira, presidente da agremiação.
Além desses, outros blocos animaram a cidade ao longo do dia, reforçando a diversidade do Carnaval de rua carioca, que seguiu ocupando praças, avenidas e bairros com música, memória e tradição.