quarta-feira, 14 de janeiro de 2026 - 1:13

Quando a Guanabara virou lama: as enchentes que o Rio nunca superou

O Rio de Janeiro já havia enfrentado temporais violentos ao longo de sua história, mas nada preparou a cidade para o que aconteceu nos verões de 1966 e 1967. Em menos de treze meses, duas enchentes sucessivas empurraram a então Guanabara para o colapso urbano, expuseram a fragilidade de sua infraestrutura e deixaram centenas de mortos, dezenas de milhares de desabrigados e uma sensação generalizada de abandono que atravessou bairros, classes sociais e instituições.

Em janeiro de 1966, a chuva não caiu em pancadas isoladas: foi persistente, contínua e avassaladora. Durante dias, a água desceu dos morros, transbordou rios, invadiu ruas, arrastou casas e interrompeu a rotina de uma cidade inteira. O Centro ficou praticamente paralisado. Carros foram abandonados em plena Avenida Rio Branco, o comércio fechou as portas por falta de funcionários e consumidores, e surgiram figuras que cobravam caro para empurrar veículos pelas áreas alagadas. O Rio assumiu, por alguns dias, a aparência de uma cidade em estado de sítio.

Um dos casos mais simbólicos daquele janeiro ocorreu no Catumbi, onde bombeiros precisaram usar balsas improvisadas para retirar moradores que corriam risco de afogamento. Em outras áreas, como na Ilha do Governador, comunidades inteiras foram devastadas por avalanches de lama e terra, soterrando barracos e deixando dezenas de vítimas. Em poucas horas, o Instituto Médico Legal recebeu mais de uma centena de corpos, numa média de um cadáver a cada dez minutos, um ritmo que chocou até os profissionais mais experientes. Apenas em 1966, foram 200 mortos e mais de 50.000 desabrigados.

A tragédia não poupou nem mesmo equipamentos públicos recém-inaugurados. No conjunto habitacional da COHAB da Rua Santo Amaro, casas e árvores despencaram de encostas e atingiram prédios novos, condenando dezenas de apartamentos e provocando mais de trinta mortes em um único episódio. Para muitos cariocas, aquele desastre cristalizou uma sensação perturbadora: nem o que era novo, oficial ou planejado parecia seguro.

Enquanto isso, o cotidiano desmoronava. Trens da Central do Brasil e da Leopoldina ficaram parados com trilhos submersos. Apenas uma pequena fração dos ônibus municipais circulava. Os aeroportos do Galeão e Santos Dumont suspenderam operações. Hospitais funcionaram no limite, com falta de estrutura e equipes exaustas. O Maracanã, templo do futebol, transformou-se em centro de triagem humana, recebendo quase vinte mil flagelados em poucos dias.

Quando a cidade ainda tentava se recompor, veio o segundo golpe. Em fevereiro de 1967, novas chuvas torrenciais voltaram a atingir a Guanabara. Desta vez, a frustração foi ainda maior: obras haviam sido anunciadas, recursos empenhados e promessas feitas após a tragédia anterior. Mesmo assim, rios transbordaram, morros cederam e bairros inteiros ficaram novamente às escuras, sem água, sem telefone e sem transporte.

O episódio mais dramático daquele fevereiro ocorreu em Laranjeiras, quando uma enorme pedra se desprendeu do morro e atingiu casas na Rua Belisário Távora, matando uma família inteira e provocando um efeito dominó que derrubou prédios vizinhos. Entre as vítimas estava o jornalista e escritor Paulo Rodrigues, cuja morte comoveu profundamente o meio intelectual e jornalístico do país. O terreno onde ficavam os edifícios jamais voltou a ser ocupado, permanecendo até hoje como um vazio urbano silencioso, testemunha da tragédia.

A repetição do desastre escancarou um debate incômodo. Editorial após editorial, a imprensa questionou a insistência das autoridades em tratar as enchentes como fatalidades naturais, quando os problemas eram estruturais: galerias pluviais entupidas, rios mal canalizados, encostas mal cuidadas, crescimento urbano desordenado e ausência de um sistema preventivo eficaz. A cidade parecia condenada a reagir sempre depois da lama, nunca antes dela.

Ao mesmo tempo, emergiu um outro Rio. Um Rio de solidariedade improvisada. Paróquias, associações civis, clubes, universidades e entidades filantrópicas organizaram campanhas de doação, acolheram desabrigados, distribuíram alimentos e vacinas. Em muitos casos, foram essas redes informais que sustentaram a população enquanto o poder público tentava se reorganizar.

As enchentes de 1966 e 1967 não foram apenas tragédias climáticas. Foram eventos que redefiniram a relação do Rio com seu território, sua topografia e seus próprios limites. Elas deixaram claro que a cidade, bela e dramática por natureza, havia crescido sem preparar defesas à altura de seus riscos. E mostraram, de forma brutal, que em momentos extremos a desigualdade urbana se traduz em quem perde tudo — e em quem consegue recomeçar.

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