
O leilão do programa Reviver Centro Patrimônio Pró-APAC, realizado na tarde de ontem na sede da Companhia Carioca de Parcerias e Investimentos (CCPaR), na Sacadura Cabral, foi daqueles eventos que dizem muito mais do que os números frios registrados em ata. Entre lances contidos, disputas acirradas, suspensões estratégicas e encontros improváveis entre concorrentes, o certame revelou tanto o apetite pelo Centro Histórico quanto os entraves que ainda rondam a política de recuperação do patrimônio carioca.
Os trabalhos foram abertos com o Lote 3, correspondente ao imóvel da Rua do Teatro, nº 37. Lançado com valor mínimo de R$ 988 mil, o prédio despertou interesse imediato e atraiu três concorrentes: o Real Gabinete Português de Leitura, um empreendedor cultural e a empresa House RJ, formada por apaixonados pelo patrimônio.A disputa foi longa, tensa e acompanhada com atenção pelos presentes. Aos poucos, a concorrência se afunilou, restando apenas o Real Gabinete e o empreendedor cultural na reta final. Ao fim, venceu o Real Gabinete Português de Leitura, que arrematou o imóvel por cerca de R$ 2 milhões, mais que o dobro do valor inicial — um desfecho simbólico para um endereço carregado de memória e vocação cultural.
Na sequência, foi a vez do Lote 1, formado por um conjunto de imóveis localizados na Rua do Teatro (9, 11, 13, 15, 17 e 19), todos enquadrados no perímetro Pró-APAC e, portanto, aptos a receber os subsídios municipais previstos no edital, concebidos justamente para viabilizar a restauração de prédios históricos, que tem alto custo. O subsídio para este lote será de R$ 3.346.000,00. O lote colocou frente a frente dois grupos de perfis distintos: de um lado, a Construtora Biapó, de Goiás; de outro, o grupo House 2, formado por empreendedores e entusiastas da preservação do Centro Histórico, que estavam liderados no local pelos Diretor da Sérgio Castro Imóveis, Cláudio André e Sérgio Castro . Após uma disputa firme que encerrou o primeiro leilão, o House 2 saiu vencedor, arrematando o lote pelo valor final de R$ 2.180.000, sob os cumprimentos do presidente da CCPaR, Osmar Lima, e de sua equipe.
O Lote 2, que seria levado a pregão em seguida, acabou não sendo disputado. O conjunto reunia diversos imóveis, principalmente na Rua do Teatro e na Rua Sete de Setembro, todos com potencial de requalificação urbana e acesso aos benefícios do programa. No entanto, duas liminares judiciais, atingindo especificamente os imóveis da Rua Sete de Setembro, nº 192, e da Rua do Teatro, nº 29, levaram a Prefeitura a optar pela suspensão integral do lote. A decisão foi estratégica: o município pretende brigar judicialmente, tentar derrubar as liminares e recolocar o lote em disputa em outro momento, segundo informou a subscretária Carina Quirino, da Prefeitura. O imóvel da Rua do Teatro, 29, vale lembrar, funciona atualmente como estacionamento clandestino, elemento que reforça a controvérsia em torno do caso. Informações do mercado imobiliário dão conta de que há inclusive dívidas de IPTU.
Outro lote que acabou ficando de fora do pregão foi o conjunto de imóveis ligados à Igreja de São Francisco de Paula. A inclusão dos terrenos provocou reação imediata da instituição e levou à suspensão administrativa do lote, antes mesmo do início das disputas; o templo é da Venerável Ordem Terceira de São Francisco de Paula, que deve se comprometer a realizar as obras necessárias.
Encerrado o leilão, o clima já era de distensão. Representantes do grupo House 2 e da construtora Biapó se encontraram após o fim do pregão, trocaram cumprimentos, brincaram sobre a disputa recém-encerrada e chegaram até a comentar, em tom leve, que numa próxima oportunidade poderiam se associar em algum projeto. Um retrato raro — e quase poético — de civilidade em um mercado normalmente marcado por disputas duras.
No balanço final, o leilão do Reviver Centro Pró-APAC revelou um Centro Histórico que segue disputado, desejado e complexo. Há interesse real, subsídios públicos desenhados para viabilizar a restauração, mas também liminares, entraves jurídicos e decisões difíceis. Entre a urgência de recuperar e o peso da história, o Centro do Rio continua ali — resistente, cobiçado e, mais uma vez, no centro do debate.
