Muito antes dos grandes eventos patrocinados, dos palcos montados em praça pública e das festas capazes de interditar ruas inteiras do Centro, havia um dia do ano em que uma pequena igreja encaixada entre a Rua do Ouvidor e a Travessa do Comércio conseguia mobilizar todo o coração mercantil do Rio de Janeiro. Isso ocorria todo fim de agosto e início de setembro, por mais de 200 anos. Em torno de sua Padroeira, comerciantes se organizavam por ruas, firmas financiavam ornamentações, empregados do comércio criavam suas próprias comissões, bandas militares tocavam em coretos especialmente construídos, gambiarras de gás iluminavam quarteirões inteiros e foguetes e grandes balões encerravam uma jornada em homenagem a Nossa Senhora. Era a Festa de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, cuja edição de 8 de setembro de 1900 pode hoje ser praticamente reconstruída graças a uma extensa reportagem publicada no dia seguinte pelo jornal O Paiz, preservada na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. (hemeroteca-pdf.bn.gov.br)
A riqueza desse documento está justamente no fato de que o repórter não se limitou a reproduzir o programa oficial. Ele foi à festa da histórica irmandade, atravessou as ruas ornamentadas, entrou com dificuldade na igreja lotada, observou as senhoras que chegavam vestidas especialmente para a solenidade, ouviu o repertório executado por coro e orquestra, sentiu o perfume de rosas e incenso no interior do templo e acompanhou, já à noite, a multidão espalhada pelas imediações da Praça XV. O que aparece naquela reportagem é muito mais do que uma celebração religiosa particularmente solene: é o retrato de uma época em que a Lapa justificava plenamente o sobrenome “dos Mercadores”, porque sua festa não pertencia apenas à igreja, mas a todo o comércio do entorno. (hemeroteca-pdf.bn.gov.br)
Naquele sábado, o Rio ainda não conhecia a Avenida Central, que seria aberta poucos anos depois durante as reformas de Pereira Passos. O núcleo econômico da capital da República permanecia concentrado no emaranhado de ruas antigas herdadas do período colonial e do Império, sobretudo entre a Rua do Ouvidor, Primeiro de Março, Rua do Mercado, Praça XV e Travessa do Comércio. Foi exatamente esse território que amanheceu transformado em 8 de setembro de 1900, embora o tempo estivesse longe de colaborar. O céu surgira carregado, e o cronista de O Paiz lamentava que todo o esforço dos irmãos, comerciantes e moradores pudesse ser prejudicado pela chuva, observando que nem os foguetes, nem o repique dos sinos, nem a música dos coretos conseguiam produzir plenamente a mesma sensação festiva sob um céu cinzento. Depois de tantos preparativos, dizia ele, os organizadores mereciam aquilo que chamou poeticamente de um “dia de rosas”. (hemeroteca-pdf.bn.gov.br)
A preocupação fazia sentido porque a festa já tomava as ruas desde cedo. Na Rua Primeiro de Março havia sido erguido um grande arco triunfal, considerado pelo jornal de belíssimo efeito, enquanto nas proximidades do Mercado surgira um coreto amplo e elegante. A Rua do Mercado, a Praça XV, a Travessa do Comércio e outros trechos vizinhos estavam cobertos por folhagens, bandeiras e elementos decorativos organizados pelas próprias comissões de comerciantes. Não se tratava, portanto, de uma simples ornamentação diante da porta da igreja, mas de uma intervenção festiva sobre vários quarteirões do Centro. (hemeroteca-pdf.bn.gov.br)
A organização daquele aparato revela a dimensão corporativa da Irmandade. A Rua do Ouvidor tinha sua própria comissão, presidida por Joaquim Antônio Carvalho Guimarães e integrada por Francisco Lopes Ferraz, Domingos José Lemos Reis, Joaquim Pinto Magalhães, representantes da firma Garcia & Paz, José Francisco Maia e Francisco Dias Silva Moreira. No Largo do Paço, então já oficialmente Praça XV, aparecia Joaquim José Dias, ligado à firma Dias Pereira & Cia.; na Rua do Mercado estavam João da Silva Pinho e Manoel Brandão; na Travessa do Comércio, Manoel Martins Ferreira Mattos, Oliveira Lopes Irmão e a firma Lixa & Avelino. Havia ainda uma subcomissão formada exclusivamente por empregados do comércio, presidida por Antônio Martins Fernandes e integrada também por Manoel Cunha Figueiredo. (hemeroteca-pdf.bn.gov.br)
Esse detalhe talvez seja um dos mais importantes de toda a festa, porque demonstra que o título de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores não era, em 1900, uma reminiscência antiquada. O comércio era efetivamente o corpo social que sustentava a celebração. Participavam os donos das casas, as firmas e os empregados, numa mobilização que ultrapassava a própria Mesa Administrativa da Irmandade hoje muito conhecida pela recuperação de arte sacra roubada e pelas Missas Solenes com Coral e Orquestra nos fins de semana da rua do Ouvidor. O jornalista percebeu essa característica e descreveu os responsáveis pela festa como homens de recursos, em sua maioria portugueses, que não economizavam quando se tratava de dar esplendor à devoção. Segundo ele, havia naquele ambiente algo das antigas romarias portuguesas, adaptado naturalmente à vida dos comerciantes estabelecidos na capital brasileira. (hemeroteca-pdf.bn.gov.br)
A imagem social construída pelo repórter é reveladora. Eram homens acostumados à severidade dos negócios, aos balcões, às contas, ao movimento das casas comerciais e à disciplina cotidiana do trabalho, mas que, uma vez por ano, davam a si próprios uma espécie de licença para viver a festa com expansividade. O Paiz chegou a chamar aquele conjunto de comerciantes de uma verdadeira “colmeia humana”, estimando em cerca de doze horas o tempo que dedicavam naquele dia à devoção, à confraternização, às músicas, aos foguetes e à vida nas ruas. (hemeroteca-pdf.bn.gov.br)
Dentro da igreja, o cenário era igualmente grandioso. O jornalista escreveu que teve dificuldade para entrar, tamanha era a concentração de pessoas. Encontrou a multidão ajoelhada, altares ricamente preparados, intensa iluminação, flores e música sacra ocupando o pequeno templo. O ar, segundo sua descrição, estava impregnado pelo perfume de incenso e rosas, enquanto do lado de fora o cronista ainda se preocupava com as senhoras que chegavam vestidas para a solenidade e corriam o risco de ter suas toilettes arruinadas por uma pancada de chuva. (hemeroteca-pdf.bn.gov.br)
Às 11 horas começou a Missa Solene, celebrada pelo capelão da igreja, Padre Pedro Hermes Monteiro, assistido pelos padres Pinto de Almeida e Francisco de Paula. Monsenhor Pedrinha atuou como mestre de cerimônias e também pregou ao Evangelho. A solenidade contou com coro e orquestra sob a direção do professor Guilherme de Oliveira, num programa musical que demonstrava o padrão de aparato cultivado pela Irmandade. A obra central era uma Missa intitulada Nossa Senhora do Carmo, e o repertório incluía ainda uma Ave Maria de Martelli, o Credo de Canessa, um Ofertório de Verdi e um O Salutaris cuja execução foi especialmente elogiada pelo jornalista. (hemeroteca-pdf.bn.gov.br)
A presença de coro, orquestra, solistas e repertório de grande ambição não era uma excepcionalidade daquele ano. A Hemeroteca mostra que a música de aparato fazia parte das grandes festas da Lapa havia décadas, com maestros, grandes conjuntos e obras de compositores europeus sendo regularmente contratados para as solenidades. Essa tradição combinava com o próprio patrimônio material da igreja, enriquecido ao longo do século XIX por sucessivas Mesas que ofereciam banquetas, vasos de prata, Missais guarnecidos do mesmo metal, ricos tecidos, tapetes e outros objetos destinados justamente ao esplendor do culto.
Foi também dentro da igreja que o repórter de 1900 se deparou com um dos grandes símbolos da memória institucional da Irmandade: o quadro com os retratos da Mesa que comandara a reconstrução do templo entre 1869 e 1873. Ali apareciam Adriano Corrêa Bandeira, provedor; Narciso Luiz Martins Ribeiro, vice-provedor; o Barão da Lagoa, secretário; Antônio Maria de Paula Ramos, tesoureiro; e José Joaquim Brandão dos Santos, procurador. O quadro fora oferecido pela administração seguinte, de 1873–1874, como homenagem aos irmãos responsáveis por aquela grande transformação. Em 1900, Adriano Corrêa Bandeira continuava vivo e já recebera o título de protetor da Irmandade, enquanto José Joaquim Brandão dos Santos também permanecia vivo. (hemeroteca-pdf.bn.gov.br)
A continuidade entre gerações ficava ainda mais evidente quando se recordava outra crise muito recente. A igreja havia sofrido graves danos durante a Revolta da Armada, e a própria reportagem de 1900 lembrava que um projétil atingira o templo, obrigando posteriormente a Irmandade a custear uma cara reconstrução. Depois de tentar sem sucesso obter indenização, os irmãos decidiram executar as obras por conta própria, gastando mais de 70 contos de réis e chegando a vender parte das apólices que integravam o patrimônio da instituição. A recuperação foi concluída em 1897 sob a provedoria de Domingos José Dias Pereira, que apenas três anos depois continuava ligado à administração como definidor. (hemeroteca-pdf.bn.gov.br)
Assim, a festa de 1900 não era promovida por uma irmandade decadente que sobrevivia apenas de lembranças. Era organizada por uma corporação que havia acabado de reconstruir seu templo depois de uma guerra civil, mobilizando patrimônio próprio e sacrificando parte de suas reservas financeiras. À frente da administração daquele ano estava o comendador Antônio Manoel Fernandes da Silva, provedor, acompanhado por Eduardo José S. Pereira, vice-provedor; José M. Ferreira de Pinho, secretário; Luiz Francisco Moreira, tesoureiro; Arthur Leite Vasconcellos, procurador; e José Joaquim C. Guimarães, diretor de noviços. A Definição reunia ainda diversos irmãos, entre eles o próprio Domingos José Dias Pereira e o Visconde de Castro Guimarães. (hemeroteca-pdf.bn.gov.br)
Ao longo da tarde, o tempo começou a melhorar, e as ruas voltaram a ganhar movimento. O momento de maior transformação, porém, ocorreu quando anoiteceu. Dentro da igreja, as velas reforçavam a iluminação dos altares; do lado de fora, gambiarras de gás acendiam-se sobre os logradouros decorados, espalhando uma luz dourada sobre bandeiras, folhagens, fachadas e coretos. Antes da eletrificação generalizada do Centro, esse tipo de iluminação extraordinária era capaz de modificar completamente a aparência das ruas, e a Lapa dos Mercadores parece ter explorado esse efeito em grande escala. (hemeroteca-pdf.bn.gov.br)
A música também se multiplicava pelo espaço urbano. No grande coreto próximo ao Mercado tocava a Banda dos Marinheiros Nacionais. Em outro, construído especialmente para a ocasião, revezavam-se a banda do Corpo de Infantaria de Marinha, a do 1º Batalhão de Infantaria e a da Brigada Policial. Quatro corporações musicais militares ou navais estavam, portanto, envolvidas nos festejos de uma igreja que ocupava apenas um pequeno trecho da Travessa do Comércio. A esse ambiente somavam-se foguetes e girândolas, mencionados repetidamente pelo repórter como parte natural de uma festa em que as ruas, mais do que simples acessos ao templo, funcionavam como extensão da própria celebração. (hemeroteca-pdf.bn.gov.br)
Às 19 horas teve início o Te Deum, novamente cercado de grande aparato musical. Antes do hino de ação de graças, a orquestra executou uma abertura de Daniel Auber; o sermão coube ao Padre Agostinho Benassi; e a solenidade terminou com uma Ave Maria de Flégier, cantada por D. Elvira Pires Moreira. Entre os solistas daquele dia figuravam ainda o tenor Pedro Cunha e o baixo Rossi, além de outros artistas e amadores distinguidos pelo jornal. O Paiz foi categórico ao afirmar que dificilmente a parte religiosa poderia ter sido mais completa e que tudo aquilo fazia honra ao bom gosto da Irmandade. (hemeroteca-pdf.bn.gov.br)
Enquanto o Te Deum encerrava a parte litúrgica, a festa continuava nas ruas. Foi então que a comissão da Rua Moreira César soltou dois grandes balões, recebidos com aplausos por uma multidão que o repórter descreveu com uma imagem que vale por qualquer fotografia: as pessoas “formigavam nas ruas”. Naquele momento, a pequena igreja iluminada permanecia no centro de uma paisagem composta pelo arco triunfal da Primeiro de Março, pelas gambiarras de gás, pelos coretos, pelas bandas, pelos foguetes, pelas famílias, pelos comerciantes, pelos empregados, pelas senhoras que haviam enfrentado a ameaça da chuva e pelos irmãos que durante todo o dia se revezaram entre a igreja e as ruas. (hemeroteca-pdf.bn.gov.br)
A Festa de Nossa Senhora da Lapa não começou em 1900 e tampouco terminou naquele ano. A Hemeroteca permite acompanhá-la por praticamente todo o século XIX. Em 1824 já havia anúncios do início das Novenas em 30 de agosto e da grande festa em 8 de setembro. Em outros períodos, a solenidade esteve associada à distribuição de esmolas aos irmãos pobres, à eleição e posse das Mesas e a devoções mantidas pela Irmandade, entre elas Sant’Ana e São Joaquim, o Menino Deus e o Senhor Bom Jesus da Caridade. Décadas depois de 1900, os jornais ainda descreviam a celebração como uma das festas tradicionais do Rio.
Em 1919, A Noite observava que a Lapa dos Mercadores continuava mantendo parte de seu antigo brilho e lembrava que o próprio nome da igreja permanecia perfeitamente adequado, já que aquele entorno seguia fundamentalmente ocupado pelo comércio. Celebrar segundo as antigas praxes significava, para o jornal, recordar o “Rio antigo”. Em 1933, outra retrospectiva ainda evocava as Novenas, a iluminação exterior da igreja e a antiga fama dos festejos da Lapa. (hemeroteca-pdf.bn.gov.br)
O que se perdeu gradualmente não foi apenas uma festa religiosa, mas o tecido urbano que a tornava possível. Vieram a abertura da Avenida Central, as reformas de Pereira Passos, a verticalização, as mudanças no perfil comercial do Centro, o desaparecimento de antigas firmas e, com o passar das décadas, o enfraquecimento daquele mundo no qual o comerciante da Rua do Ouvidor, o negociante da Rua do Mercado e o lojista da Travessa do Comércio reconheciam na pequena igreja uma instituição do próprio meio.
A festa de 1900 permite compreender com excepcional clareza o que significava, então, a expressão Irmandade de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores. Os mercadores governavam a corporação, sustentavam a igreja, financiavam a música, ornamentavam as ruas, contratavam coretos, bandas e iluminações e envolviam até os próprios empregados na organização da celebração. Uma vez por ano, em 8 de setembro, o coração econômico do Rio parecia assumir publicamente sua identidade religiosa.
Mais de um século depois, é difícil imaginar a cena para quem atravessa apressadamente a Praça XV: uma pequena igreja barroca conseguindo mobilizar todo o comércio do entorno, enquanto dentro de suas paredes coro e orquestra executavam Verdi e, do lado de fora, bandas militares tocavam em coretos, foguetes riscavam o céu, gambiarras iluminavam as fachadas e grandes balões subiam diante de uma multidão.
Naquele dia, a Lapa não era apenas uma igreja dos Mercadores. Aquele pedaço inteiro do Rio era dos Mercadores, e os Mercadores eram de Nossa Senhora.
