
Fundada no longínquo ano de 1048, em meio às cruzadas, a Ordem Soberana e Militar de Malta é cercada de grande encanto e simbolismo, e poucos sabem que ela tem representação aqui no Rio de Janeiro, com membros cariocas atuantes e até mesmo um ambulatório ativo que atende a diversas pessoas em situação de vulnerabilidade, na Zona Oeste. Neste próximo dia 13 de outubro, segunda-feira, o carioca terá a chance de ver os cavaleiros com suas comendas e cogulas – este é o nome da túnica preta e branca que usam, até hoje, em cerimônias religiosas – e de presenciar uma das principais comemorações da antológica ordem católica. É que os cavaleiros vão comemorar o dia do Beato Gerardo, um monge beneditino que, no século XI, dedicou sua vida a cuidar dos peregrinos doentes na Terra Santa e fundou a organização que completou agora 977 anos – embora tenha recebido a titulação de ordem no ano de 1113.
Uma Santa Missa Solene, com coral e grande orquestra, será celebrada para honrar a memória do homem que começou toda essa história, nesta próxima segunda-feira (13/10) ao meio dia e quinze. O local escolhido para a celebração – que vai contar com a presença dos membros da ordem – é a histórica Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, na rua do Ouvidor, fundada em 1743, de propriedade da irmandade cuja devoção à padroeira dos comerciantes cariocas é já conhecida do grande público. Recém restaurada, e considerada por guias e especialistas em Rio Antigo um dos destaques dos roteiros que passam por monumentos da cidade, a capelinha tombada pelo Iphan estará aberta e enfeitada para receber os cavaleiros para a solenidade.
O evento é aberto ao público, e vai contar com os músicos e cantores regidos pela soprano Juliana Sucupira, que desde a reabertura da igrejinha, em 2023, cuida da programação musical. A celebração ocorre a convite da Irmandade e da Venerável Liga de Devotos de Nossa Senhora da Lapa, que têm sido símbolo de liturgia mais tradicional e da “conversão pela beleza”, segundo a secretária da irmandade, Sylvia Assumpção. Além de apresentações, concertos, e de iniciativas transformadoras como a retomada do toque dos sinos para anunciar cerimônias e o passar das horas, a irmandade também inaugurou um pequeno museu onde se conta a história da devoção em torno da qual se reuniram seus irmãos, além da exposição de obras de arte religiosas. Os cursos de arte sacra que ocorrem todas as segundas feiras de manhã e à tarde, ministrados pela professora Janaina Ayres, tem também trazido muitos frequentadores à igrejinha que ficou conhecida pela interessante história do Milagre da rua do Ouvidor.

Dentre os membros de Malta em terras cariocas, estão o próprio Arcebispo do Rio de Janeiro, cardeal Dom Orani Tempesta, e o por todos querido Padre Omar Raposo, reitor do santuário do Cristo Redentor, além de cerca de 30 membros que têm entre suas fileiras médicos, empresários, advogados e outros profissionais que assumem o lema “tuitio fidei et obsequium pauperum” – em português, a defesa da fé e o serviço aos pobres – como forma de vida. Ao filiar-se à importante ordem de cavalaria reconhecida pelo Vaticano, seus membros se comprometem a ajudar financeiramente os mais necessitados e a atuar na defesa da fé.
A organização teve origem quando um grupo de cavaleiros sob a Regra de São João de Jerusalém fundou um hospital em Jerusalém – para cuidar de peregrinos doentes e feridos — gesto que lhe deu o nome de “Ordem dos Hospitalários”. Reconhecida oficialmente pela Igreja em 1113, a instituição rapidamente assumiu papel militar, defendendo os peregrinos e os territórios cristãos na Terra Santa. Após a perda de Jerusalém, os cavaleiros se estabeleceram em Rodes e, mais tarde, em Malta, ilha concedida pelo imperador Carlos V em 1530 — de onde deriva o nome pelo qual é mais conhecida atualmente. Malta é até hoje um dos países mais católicos do mundo, e, embora não esteja mais sob o controle da Ordem, guarda ainda muito de sua identidade, monumentos e tradições. Com o tempo, a Ordem transformou-se em uma entidade soberana, neutra e humanitária, hoje dedicada a ações médicas, sociais e diplomáticas em mais de 120 países, mantendo seu caráter religioso e cavaleiresco sob a autoridade espiritual do Papa na igreja Católica.
A Ordem de Malta é de fato cercada de uma grande mística, tanto pela sua antiguidade e continuidade ininterrupta desde as Cruzadas, quanto pela dupla natureza que a distingue: é ao mesmo tempo uma ordem religiosa católica e uma entidade soberana de direito internacional, com embaixadas, passaportes e observadores permanentes junto à ONU. Essa singularidade — somada a rituais usualmente discretos, títulos nobiliárquicos e um forte simbolismo cavalheiresco — faz com que a Ordem evoque um halo de segredo, tradição e espiritualidade, muitas vezes associado às grandes irmandades medievais. A aura de misticismo é reforçada por sua ligação com a Terra Santa, sua cruz de oito pontas (símbolo das bem-aventuranças) e a imagem do cavaleiro que une fé, caridade e bravura — arquétipo de um ideal que atravessa séculos.
No Rio de Janeiro, a Ordem é presidida pelo empresário e músico Marcus Venícius Romariz, que anunciou o retorno da comemoração da data festiva do Beato Gerardo ao Calendário Oficial da Ordem. O presidente lembrou, em nota, que Gerardo “dedicou sua vida aos doentes, aos pobres e aos mais necessitados“, e conclamou todos os cavaleiros a comparecerem ao evento. Sediada há alguns anos na Barra da Tijuca, onde suas cerimônias vêm ocorrendo no concorrido Campo Olímpico de Golfe, esta promete ser uma chance de conhecer de perto algumas tradições de uma organização de histórica importância mundial.








Serviço
Missa Solene em Honra ao Beato Gerardo com Coral e Grande Orquestra
Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores – Rua do Ouvidor, 35
Segunda-feira, 13/10, às 12h15min
Organização: Soberana Ordem Militar Hospitalar de São João de Jerusalém de Rodes e de Malta, Irmandade e Venerável Liga de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores
Estacionamento: Subsolo do Prédio da Bolsa de Valores (Praça XV, 20), ESTAPAR (3 minutos a pé)
Terminal Menezes Côrtes (7 minutos a pé)
