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Quem construiu o Rio além das elites: artesãos, irmandades e a cidade que marchava em procissão

Por muito tempo, a história do Rio de Janeiro colonial foi contada como se a cidade tivesse sido erguida apenas por governadores, comerciantes ricos, autoridades da Coroa e grandes proprietários. Uma narrativa confortável, linear e, sobretudo, muito incompleta. Pesquisas recentes publicadas na revista Varia História, de autoria de Beatriz Catão Cruz Santos, baseadas em documentação do século XVIII, ajudam a desmontar esse olhar simplista ao revelar um Rio muito mais complexo e interessante, onde artesãos, oficiais mecânicos e as várias irmandades católicas desempenharam papel central na construção da vida urbana, social e simbólica da cidade — especialmente no seu atual Centro histórico.

O estudo mostra que, longe de viverem à margem, carpinteiros, pedreiros, marceneiros, mascates, ferreiros, ourives e outros trabalhadores manuais estavam profundamente integrados à dinâmica da cidade. Eles não apenas erguiam casas, igrejas e sobrados: participavam ativamente da vida pública, disputavam reconhecimento social e encontravam na religião – cuja presença cultural está no DNA da colonização portuguesa – um caminho legítimo para afirmar sua presença no corpo urbano do Rio de Janeiro colonial, o Rio Antigo, com suas travessas, ruelas, arcos, oratórios de rua.

É aí que entram as irmandades católicas, verdadeiros pilares da sociabilidade da época. No Rio do século XVIII, um leigo – leia-se alguém que não é clérigo – pertencer a uma irmandade não era apenas um gesto de devoção. Era também um ato político, no sentido mais amplo do termo. As irmandades – associações de fiéis reunidos em torno de uma certa devoção católica – organizavam festas, missas solenes e procissões que atravessavam as principais ruas do Centro — da antiga Rua Direita aos arredores das igrejas do Rosário, da Misericórdia e do Carmo — e nelas os artesãos e trabalhadores em geral marchavam com orgulho, visibilidade e hierarquia claramente definida. Trabalhadores como aqueles mascates que ergueram a famosa igrejinha dos Mercadores, junto ao Arco do Teles.

Procissão da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, em 2025 / Foto: Divulgação

Marchar em uma procissão significava ser visto. E ser visto, naquele contexto, era existir socialmente. O estudo demonstra que esses oficiais mecânicos financiavam altares, contribuíam para obras religiosas, custeavam imagens, estandartes e ornamentos, e, sobretudo, disputavam precedências nos cortejos. Quem vinha à frente? Quem carregava determinado símbolo? Quem tinha direito a ocupar tal posição? Quem portava o estandarte-símbolo da irmandade ou a imagem da Padroeira? Também disputavam entre si pra ver quem doava a peça litúrgica mais bonita; quem doava o instrumento musical mais eficiente, quem mandava fazer o douramento de tocheiros ou de uma urna do Santíssimo. Essas disputas, aparentemente litúrgicas, eram na verdade disputas por honra, reconhecimento e pertencimento à cidade. Não é à toa que nas irmandades os maiores benfeitores e beneméritos são lembrados com retratos pintados por grandes artistas ou placas de bronze rememorando seus feitos.

O Centro do Rio, nesse sentido, não era apenas o palco físico dessas manifestações, mas o espaço onde se construía a cidadania possível daquele tempo. As ruas, igrejas e praças funcionavam como uma espécie de arena simbólica onde diferentes grupos sociais negociavam seu lugar. A religião, longe de ser apenas um elemento espiritual, era um instrumento legítimo de inserção social, aceito, reconhecido e respeitado pelas autoridades. Um provedor de Irmandade, por exemplo, era visto e figurava dentre os mais importantes cidadãos da cidade: e estes eram oficiais eleitos por seus pares.

Ao trazer à tona esse universo, o estudo desmonta a ideia de que o Rio colonial foi feito apenas “de cima para baixo”. Mostra uma cidade pulsante, construída também “de dentro”, por homens que trabalhavam com as mãos, mas pensavam estrategicamente sua posição no mundo. Artesãos que sabiam que, ao investir na fé, investiam também em visibilidade, prestígio e permanência.

Essa leitura lança nova luz sobre o Centro histórico que hoje atravessamos muitas vezes sem perceber suas camadas mais profundas. As inúmeras igrejas criadas por confrarias que ainda resistem, as festas religiosas que atravessaram séculos e ainda atraem milhares de pessoas, a própria lógica de ocupação das ruas e irmandades revelam um passado em que a cidade era vivida intensamente por seus moradores, não apenas governada à distância por elites.

Mais do que um exercício acadêmico, a pesquisa nos convida a rever o modo como enxergamos a história do Rio. A cidade não foi apenas administrada: ela foi construída, celebrada e disputada por gente comum, organizada, devota e consciente de seu papel. Um Rio que marchava em procissão, sim — mas também marchava em direção ao reconhecimento e à própria ideia de pertencimento urbano.

Entender esse passado é também compreender melhor o presente. Afinal, o Centro do Rio continua sendo um espaço de disputa simbólica, memória viva e identidade em constante reconstrução, que começa agora, em meio a tantos projetos de revitalização, a Reviver. E talvez seja justamente aí que mora a força dessa história: lembrar que o Rio sempre foi mais plural, mais coletivo e mais profundamente humano do que muitas narrativas fizeram crer.

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