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Rio tem tudo para liderar — então por que continua perdendo empresas?

Buraco do Lume, no Centro do Rio — Foto: Reprodução/Archdaily

Poucas cidades do mundo reúnem tantas vantagens naturais, históricas e econômicas quanto o Rio de Janeiro. A cidade possui uma das paisagens urbanas mais famosas do planeta, abriga importantes universidades, concentra parte relevante da indústria de petróleo e gás, possui tradição portuária secular e continua sendo um dos maiores polos turísticos da América Latina.

Ainda assim, há décadas o Rio assiste à saída de empresas, à transferência de centros decisórios para outros estados e à redução gradual de sua participação na economia nacional.

A contradição chama a atenção. Como uma cidade com tantas qualidades consegue perder competitividade para regiões que, em muitos casos, não possuem a mesma infraestrutura, o mesmo patrimônio histórico ou a mesma projeção internacional?

A resposta não parece estar na falta de potencial. O problema está no ambiente em que esse potencial precisa operar.

Ao decidir onde instalar uma fábrica, um centro logístico, uma sede corporativa ou mesmo um novo empreendimento imobiliário, investidores observam uma série de fatores que vão muito além da localização. Avaliam custos, segurança, previsibilidade regulatória, eficiência administrativa e qualidade dos serviços públicos.

Nesse cenário, o Rio enfrenta dificuldades acumuladas ao longo de décadas.

Empresários frequentemente relatam preocupação com processos burocráticos lentos, licenças que levam meses ou anos para serem concluídas, insegurança quanto às regras aplicáveis aos negócios e uma estrutura de custos considerada elevada quando comparada à de outros estados.

A questão da segurança pública também pesa. O crescimento da criminalidade organizada não afeta apenas a vida cotidiana dos moradores. Ele impacta diretamente o ambiente de negócios, aumenta despesas operacionais e cria obstáculos adicionais para quem pretende investir.

Ao mesmo tempo, a cidade e o estado carregam heranças históricas complexas. A transferência da capital federal para Brasília, a migração gradual do sistema financeiro para São Paulo, a crise fiscal fluminense, o enfraquecimento de setores industriais tradicionais e a sucessão de ciclos econômicos interrompidos deixaram marcas profundas na economia local.

Enquanto isso, outras regiões brasileiras passaram a disputar investimentos de forma agressiva. Estados do Sul, do Centro-Oeste e do Sudeste construíram estratégias voltadas à atração de empresas, simplificação de procedimentos e oferta de maior previsibilidade regulatória.

O resultado é visível. Muitas companhias mantêm operações no Rio, mas transferem suas áreas de comando, planejamento e decisão para outras cidades. Com isso, empregos de maior qualificação, arrecadação e capacidade de inovação acabam sendo gerados em outros lugares.

O problema se torna ainda mais delicado porque cria um círculo vicioso. Menos investimentos significam menos atividade econômica. Menor atividade econômica reduz a arrecadação. A pressão sobre as contas públicas aumenta. E a tendência passa a ser buscar novas fontes de receita justamente sobre aqueles que permaneceram produzindo.

O Rio, porém, está longe de ser um caso perdido.

Poucas cidades brasileiras possuem tamanho potencial para atrair empresas ligadas à tecnologia, à economia criativa, ao turismo, ao mercado imobiliário, à logística portuária e à cadeia de energia. A recente revitalização de áreas centrais, os novos projetos residenciais e o crescimento do interesse pelo Centro mostram que ainda existe forte capacidade de recuperação.

Mas essa recuperação exige planejamento de longo prazo.

Mais do que grandes anúncios, o Rio precisa oferecer segurança jurídica, agilidade administrativa, mobilidade eficiente, combate efetivo à criminalidade e regras estáveis para quem deseja investir. Nenhuma empresa toma decisões bilionárias baseada apenas em incentivos temporários. O que atrai capital é a confiança de que as condições continuarão existindo anos depois.

O desafio, portanto, não é descobrir novas vocações para a cidade. Elas já existem. O desafio é construir um ambiente em que empreender volte a ser uma escolha lógica.

O Rio continua possuindo atributos que muitas cidades gostariam de ter. O que falta não é potencial econômico. É transformar esse potencial em uma estratégia permanente de desenvolvimento.

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