
No fim de 2025, o centro do Rio de Janeiro voltou à pauta dos empresários da cidade com ainda mais força, em meio a inúmeros projetos em andamento. Em reunião do Conselho Empresarial da Associação Comercial do Rio de Janeiro – ACRJ, lideranças do setor privado se juntaram para reafirmar o compromisso de reavivar a região. O coração histórico da cidade — marcado por palácios, sobrados coloniais, patrimônios tombados — está sendo visto de outra forma: não como relíquia, mas como ativo vivo, capaz de abrigar moradia, turismo, comércio, cultura e o cotidiano pulsante de uma metrópole.
Para isso, os olhos se voltam ao Reviver Centro, o programa urbanístico criado para devolver ao Centro a vitalidade que perdeu com o esvaziamento residencial e comercial. A ideia central do plano reverbera planos da Prefeitura, mas com a intenção de acelerar e impulsionar os esforços trazendo pro jogo atores privados que tém peso na região: reabilitar imóveis degradados, permitir uso misto residencial/comercial, flexibilizar regras de construção e conceder incentivos fiscais, para que o Centro deixe de ser um espaço adormecido e recupere o burburinho de outrora.
O plano já resultou em um volume expressivo de intervenções: segundo dados divulgados pela prefeitura, desde a implantação do programa houve a emissão de dezenas de licenças — muitas delas para retrofit de prédios antigos — e a criação de milhares de novas unidades residenciais, além da ativação de centenas de fachadas e dezenas de sobrados históricos com a chegada de novos polos gastronômicos e empreendedores culturais impulsionada por incentivos concedidos pela Prefeitura.
A ACRJ entra em cena — e aposta no centro como espaço de vida
Para a ACRJ, a revitalização do Centro vai muito além de negócios. Em encontro recente, a entidade reafirmou que o Centro deve voltar a ser lar, trabalho e convivência — não apenas passagem ou escritório. Sob nova presidência do conselho responsável pela pauta de renovação urbana, Carlos Roberto Osório, e com a coordenação do vice-presidente Cláudio André de Castro, o grupo se comprometeu a articular projetos e dar tração prática às ideias, e prepara um plano de ação que vai trazer praticamente todos os players importantes no ramo da cultura, dos negócios, do fomento e do conhecimento pra esse jogo.
Entre as principais preocupações apontadas está a necessidade de corrigir distorções como o elevado custo de IPTU de imóveis no Centro e encargos de manutenção — fatores que por muito tempo funcionaram como barreiras à ocupação permanente. Também a informalidade que maltrata o comércio e a economia formal, com estacionamentos ilegais, camelotagem clandestina que leva comerciantes que pagam impostos à falência, e a existência renitente de ferros velhos que colhem tudo que é furtado pela população de rua enquanto depena monumentos históricos, mobiliário urbano e imóveis privados e públicos.
Também foi debatida a urgência de simplificar as exigências para reformas e restaurações, hoje consideradas excessivamente onerosas para quem deseja recuperar prédios antigos. A proposta é tornar o processo mais acessível, preservando o patrimônio histórico, mas sem sufocar iniciativas de restauração por burocracia ou gosto pessoal dos técnicos.
Um ataque multifrontes à crise urbana
Reviver Centro não é só sobre casas ou imóveis — é sobre recuperar a alma da capital da colônia, império e república, resgatar o cotidiano, trazer de volta o movimento de gente pelas ruas, o comércio ativo, os cafés, as residências que garantem segurança pela vivência. É se juntar à tentativa de provocar um renascimento urbano a partir dos próprios alicerces da cidade, fiel à sua história e a seu legado.
Nesse cenário, o papel da sociedade, de investidores conscientes, de governo, da iniciativa privada e de instituições organizadas se entrelaça. A ACRJ, no seu espaço de articulação que ocupa desde o século XIX, surge como uma ponte — ou um acelerador — para que o reviver do Centro não fique apenas nas iniciativas municipais, mas proporcione mais e mais resultados concretos: prédios restaurados, pessoas morando no Centro, comércio e cultura fluindo.
O que vem pela frente — e por que vale esperar
Os planos para os próximos meses são ambiciosos: o leilão de imóveis abandonados ou subutilizados incluídos no programa Proapac Patrimônio, abertura de editais, maior estímulo à reconversão de espaços, promoção de uso misto, facilitação de reformas, incentivo à moradia e ao uso cultural. Da parte da ACRJ, vai nascer um manifesto subscrito pelos principais agentes culturais, empresariais e de fomento, em apoio das iniciativas já tomadas mas buscando estabelecer metas e um plano adicional que acelere o que já vem ocorrendo.
Se tudo der certo, o Centro pode voltar a liderar a cidade não só por sua acachapante efervescência cultural — não como um museu congelado no passado, mas como um território dinâmico, com muita moradia, pujante comércio, cultura, fé e diversidade. Uma cidade dentro da cidade, onde a história conversa com o presente, e o presente se reconecta com as pessoas.
Porque o Rio mudou. E o Centro deve — ou necessite — mudar com ele.