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Santa Efigênia do século XVII chega à Igrejinha dos Mercadores e reforça renascimento histórico no Centro

A Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, um dos mais emblemáticos templos coloniais do Centro Histórico do Rio, recebeu neste fim de semana uma nova e raríssima joia para seu acervo sacro: uma imagem de Santa Efigênia, datada do século XVII e com expressivos 80 centímetros de altura, adquirida pela Venerável Liga dos Devotos de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores para exposição em um de seus altares laterais.

A peça, proveniente do antiquário mineiro Marco Aurélio Braga, de Divinópolis, passa agora a integrar um dos altares laterais da histórica igrejinha da Rua do Ouvidor. Com iconografia incomum no Brasil — ainda mais neste porte, pois as que aparecem costumam ser pequenas —, a escultura apresenta folhas de prata sob a policromia, técnica antiga utilizada em um período em que a prata, em regiões do Brasil, tinha valor superior ao ouro e conferia às imagens sacras brilho e nobreza singulares.

Segundo nota da Venerável Liga, “a chegada de Santa Efigênia ao templo da Padroeira dos Comerciantes marca mais um passo decisivo no resgate da dignidade artística e espiritual da Lapa dos Mercadores, consolidando a igreja como referência religiosa e cultural no Centro do Rio.” A imagem é mais antiga do que a própria igreja, e sua chegada faz parte dos objetivos da Liga, que quer ajudar a promover a fé católica pela beleza da liturgia, e da arte sacra.

Uma outra linda imagem da princesa africana que virou santa pode ser vista na bela igreja de São Elesbão e Santa Efigênia, na região do Saara. “Agora os fiéis tem uma alternativa de visitar a santa na região da Praça XV”. O templo da região do comércio popular pertence a uma irmandade negra de grande importância para a história do Rio.

Quem foi Santa Efigênia — a princesa, a abadessa e a santa que venceu o fogo

Santa Efigênia é uma das mais fortes figuras da espiritualidade cristã primitiva. Princesa da Núbia/Etiopia, converteu-se após ouvir a pregação de São Mateus, fez voto de consagração total a Cristo e tornou-se abadessa. Ao rejeitar o casamento imposto pelo rei local, enfrentou perseguições que culminaram na tentativa de incendiar o convento que liderava. Miraculosamente, o fogo não lhe tocou — razão pela qual é venerada como protetora contra incêndios, símbolo de coragem, pureza e fidelidade inabalável a Deus.

Além disso, Santa Efigênia é lembrada tradicionalmente como Padroeira dos Corretores de Imóveis e dos que batalham pela casa própria, devido à sua ligação simbólica com a proteção de lares, comunidades e sonhos familiares. Sua chegada ganha tonalidade especialmente significativa para o Provedor da Irmandade, Cláudio André de Castro, que exerce justamente essa profissão.

Santa Efigênia e as irmandades negras do Brasil

A devoção à santa possui raízes profundas nas irmandades negras coloniais brasileiras, especialmente aquelas consagradas à Nossa Senhora do Rosário e a São Benedito, que reconheceram em Efigênia um modelo de dignidade, resistência e identidade espiritual. Em apoio a essa tradição, a Igreja da Lapa dos Mercadores receberá, no próximo dia 7 de dezembro, às 12h15, a Missa Compromissal da seiscentista Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, uma das mais antigas e respeitadas confrarias negras do país. A celebração marcará um encontro histórico entre irmandades, espiritualidades e memórias que atravessam séculos da vida religiosa do Rio, e na presença da bela escultura que agora faz companhia a São Joaquim num dos principais altares da igrejinha dos Mercadores.

A Irmandade, a Venerável Liga e o renascimento da vida litúrgica na Rua do Ouvidor

Fundada em 1747, a Irmandade de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores foi, durante o período colonial e imperial, uma das mais influentes confrarias do Rio de Janeiro. Após décadas de silêncio litúrgico, o templo vive hoje um renascimento conduzido pela Venerável Liga dos Devotos, que devolveu ao espaço sua solenidade, sua beleza e sua função histórica: um pequeno Museu surgiu na Sacristia onde fica exposta a famosa imagem que protagonizou o dito “Milagre da Rua do Ouvidor”. Além disso, as Missas Solenes em latim e com Grande Coral e Orquestra se tornaram parte do calendário litúrgico e turístico do Rio: com a presença todos os finais de semana do Coral Astorga, que entoa clássicos da Polifonia Sacra.

Este último mês de novembro, 26 catecúmenos foram batizados e crismados na Igrejinha da Ouvidor, que assim prova que exerce uma pastoral católica que vai além de receber turistas e receber as pessoas com música erudita de qualidade.

Horários das Missas

  • Todos os dias, às 12h15
  • Terças, sábados e domingos: mesmo horário, Missas Solenes com coral e orquestra
  • Todo dia 27: Missa às 10h em honra de Nossa Senhora das Graças, seguida do tocante devocional em que são queimados os pedidos depositados pelos fiéis ao longo do mês

O rito mensal do dia 27 tornou-se um momento de grande emoção espiritual no Centro Histórico.

Os quatro Evangelistas: da Casa de Leilões Paiva Frade para o altar-mor

A chegada de Santa Efigênia ocorre pouco depois da instalação das imagens setecentistas dos quatro Evangelistas, adquiridas pela Venerável Liga junto à Casa de Leilões Paiva Frade. As esculturas, de grande valor artístico e histórico, já ornamentam o altar-mor da igreja, conforme noticiado pelo DIÁRIO na matéria “Casa de Leilões Mineira Anuncia Venda de Obras de Arte que Ficarão Expostas em Igreja no Centro”.

Com isso, a recomposição iconográfica da igreja prossegue de forma coerente e cuidadosamente planejada.

Um novo capítulo para a arte sacra no Centro Histórico

Desde a deflagração da investigação sobre peças sacras de igrejas tombadas que foram ilegalmente oferecidas à venda — inclusive a exposição pública em leilões na Zona Sul — a Venerável Liga e a Irmandade da Lapa assumiram papel protagonista na busca por justiça patrimonial. A partir da denúncia de itens pertencentes à igreja da Rua do Ouvidor, a Polícia Federal, com apoio técnico do IPHAN, apreendeu uma série de artefatos em prata e objetos sacros que haviam desaparecido da capela décadas atrás, muitos desde os anos 1970 e 1980.  A intervenção não só devolveu bens históricos de enorme valor — avaliado em centenas de milhares de reais — como interrompeu um ciclo de pilhagem cultural, reafirmando que o patrimônio de fé e arte do Rio não deve ser mercadoria. 

Mais do que uma operação de recuperação, o processo se transformou em um minucioso projeto de memória: com base em um inventário antigo e um acervo fotográfico preservado desde 1947, a Irmandade conseguiu mapear centenas de peças desaparecidas — imagens, prataria, móveis e ornamentos — e constituiu uma lista detalhada de bens procurados.  Essa documentação, agora com respaldo jurídico e atenção pública, serve como alerta permanente contra leiloeiros e antiquários que atuam fora da legalidade, e simboliza a resistência de uma comunidade devota e consciente, disposta a salvaguardar sua história, sua fé e a memória coletiva de toda cidade. Além de recuperar itens desaparecidos, a idéia é preencher espaços com outras peças históricas de valor, fazendo com que a igreja, nas palavras do provedor, “pare de fazer só a conta da subtração para fazer também conta de somar”.

A chegada da imagem setecentista de Santa Efigênia consolida a Igreja da Lapa dos Mercadores como um dos mais importantes polos de arte sacra, espiritualidade tradicional e memória urbana do Rio. Em meio ao renascimento cultural do Centro, a ação da Venerável Liga reafirma seu compromisso com a preservação, a beleza, a solenidade e a fé.

Santa Efigênia, padroeira dos que constroem lares e dos que ousam sonhar com eles, passa agora a ocupar um lugar de honra em um templo que renasceu com dignidade e esplendor. da casa própria também na região da Praça XV”, encerrou a nota da Liga.

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