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Seminário sobre Patrimônio Cultural reforça diálogo com comunidades e expõe o desafio de lidar com órgãos de patrimônio

Seminário Estadual para a Preservação de Bens Móveis e Integrados – Foto: Daniel Martins/ Diário do Rio

O Seminário Estadual para a Preservação de Bens Móveis e Integrados retornou ao Rio de Janeiro entre os dias 22 e 26 de setembro, com uma programação que ocupou três marcos institucionais da cidade: a sede do IPHAN (Edifício RB46), o campus da Fiocruz em Manguinhos (Pavilhão Arthur Neiva) e o Sítio Roberto Burle Marx, em Barra de Guaratiba. A abertura ocorreu com uma conferência sobre a restauração dos bens móveis e integrados do Palácio Gustavo Capanema e do Edifício RB46, que simbolizam o desafio de preservar o patrimônio em meio às transformações urbanas do Rio.

Realizado pelo IPHAN em parceria com o Inepac e a Fiocruz, o evento já passou por cidades como Petrópolis, Vassouras e Campos. Nesta sexta edição, trouxe como tema “Patrimônio em Crises: Preservação, Resistência e Gestão de Riscos”, propondo um debate sobre os dilemas contemporâneos enfrentados pela preservação cultural. Em tempos de restrições orçamentárias, ameaças ambientais e crises políticas, discutir estratégias de proteção do patrimônio significa reafirmar que memória e cultura não são dispensáveis, mas pilares de identidade e cidadania.

Durante os cinco dias do evento, especialistas e representantes de diferentes setores debateram os desafios e caminhos da preservação. As mesas abordaram desde igrejas históricas até terreiros, com atenção especial ao patrimônio presente na periferia e no Centro do Rio, reforçando a importância da participação social e do engajamento comunitário: o papel do cidadão na salvaguarda do patrimônio cultural.

No dia 24, foram apresentados casos como a moderna Igreja de São Daniel Profeta, em Manguinhos, destacando a importância da comunidade e de espaços como esse nas periferias, já que muitas tradições culturais surgem desses locais; o terreiro Egbe Ile Iya Omidaye Asé Obalayo, falando-se sobre a dificuldade de tombar terreiros, a importância desses espaços em favelas e os desafios diante do que se chamou de “preconceito religioso”, assim como a ação de criminosos que ameaçam a preservação. A curadoria participativa do Museu dos Povos Indígenas, que comentou sobre a sede em Botafogo, ainda fechada; e o projeto Nosso Sagrado, que fala da coleção de objetos de religiões afro-brasileiras hoje exposta no Palácio do Catete. O dia também contou com um debate sobre a relevância do Renascença Clube como espaço de memória e resistência, seguido da fala do provedor da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, que ressaltou a complexidade e os desafios de gerir patrimônios sob responsabilidade de irmandades e confrarias, assim como algumas dificuldades no relacionamento com os órgãos de patrimônio.

Público no Seminário Estadual para a Preservação de Bens Móveis e Integrados – Foto: Daniel Martins/ Diário do Rio

Pela primeira vez, parte do seminário aconteceu no Pavilhão Arthur Neiva, prédio histórico dos anos 1940 que integra o conjunto arquitetônico tombado da Fiocruz. O edifício carrega elementos de bens integrados, como um painel de azulejos de Roberto Burle Marx, homenageado no encerramento do evento com visita guiada ao seu sítio em Guaratiba, reforçando a integração entre arte, natureza e arquitetura, princípios que nortearam o legado do paisagista.

Segundo Renato Gama Rosa, arquiteto da fundação há 40 anos e responsável por receber o evento, a escolha do espaço fortalece a integração entre preservação e saúde pública. “É um prazer receber esse seminário aqui na sua sexta edição junto com o Inepac e o IPHAN, trazendo uma contribuição dos nossos estudos, desenvolvidos desde os anos 80. A Fiocruz, além de ser uma instituição referência na saúde pública, também tem como missão preservar o patrimônio. Essa parceria fortalece nosso compromisso em unir conhecimento, conservação e responsabilidade social”, afirmou.

O seminário nasceu de um termo de cooperação técnica assinado em 2024, fruto de um ano de reuniões e troca de experiências entre os três órgãos organizadores. Para Marcela Coelho de Almeida, diretora do Departamento de Bens Móveis Integrados do Inepac, a edição de 2025 teve como prioridade dar voz a grupos e patrimônios historicamente esquecidos.

Pensamos na questão do patrimônio em risco. Esse risco pode ser físico, como um bem em mau estado de conservação, mas também simbólico, relacionado ao apagamento de determinados grupos ao longo da história. Por isso, neste ano, buscamos trazer para o debate detentores desses patrimônios, como comunidades religiosas e periféricas, que muitas vezes não são ouvidas”, destacou.

Um exemplo é o processo de tombamento do terreiro da Mãe Márcia, em São Gonçalo, que, segundo Marcela, foi construído com participação ativa da comunidade. “É diferente dos tombamentos tradicionais. Escutamos a comunidade o tempo todo, e todas as escolhas sobre o que preservar foram feitas por eles, inclusive em relação aos bens móveis, que carregam forte imaterialidade. No contexto de um terreiro de candomblé, isso é ainda mais intenso, e ouvir a comunidade é essencial para respeitar sua religiosidade”, explicou.

Neste contexto, o Seminário para a Preservação de Bens Móveis Integrados aparece como um dos poucos espaços de diálogo sobre esse tipo de patrimônio, frequentemente esquecido em fóruns que privilegiam questões arquitetônicas e urbanísticas.

“É muito oportuno porque o tema também envolve a questão da crise, das crises que têm acontecido no patrimônio. Essa pauta dos bens móveis integrados é, na nossa percepção, subrepresentada em muitos fóruns. Geralmente se fala muito de arquitetura, urbanismo e desenvolvimento, mas os bens móveis integrados também estão conectados a essa matriz, porque o que são eles? São coleções, museus, elementos integrados à arquitetura, ornamentos que conferem sentido ao conjunto arquitetônico. Então, se você pensa numa igreja do século XVIII que sofre um incêndio, não queremos que isso aconteça, mas ela pode perder toda a talha e, com isso, perde também todo o seu sentido estético e plástico”, afirma Rafael Azevedo, do IPHAN.

Palestra no dia 24 reforçou a importância de respeitar o sagrado em terreiros e igrejas – Foto: Daniel Martins/ Diário do Rio

Mais do que encontro técnico, ele se afirma como trincheira contra o esquecimento, reafirmando a centralidade do patrimônio na vida coletiva. Ao reunir pautas tão diversas — do racismo estrutural nas práticas museológicas à preservação de acervos científicos e religiosos, passando pela memória da ditadura e pela resistência das comunidades tradicionais —, o evento demonstra que preservar é também lutar por justiça, diversidade e inclusão.

“Esse assunto precisa ser levado às comunidades, porque o patrimônio material brasileiro não está só nos centros históricos, está também nas periferias. Por isso é importante trazer o debate para esses espaços e envolver as comunidades, como têm feito iniciativas como o inventário da Arquidiocese do Rio, que alcança zonas como a oeste e Santa Cruz, com museus, igrejas históricas e coleções. Acreditamos que este é um espaço adequado para discutir a preservação na perspectiva da crise, mostrando que o patrimônio é também um ativo de desenvolvimento. Bem trabalhado, ele atrai recursos para as cidades e potencializa o turismo. O projeto inicial do Niemeyer, com a Igreja de São Daniel Profeta, buscava promover turismo cultural periférico, mas não deu certo — precisamos mudar esse rumo. Esperamos que esta edição resulte em uma carta com orientações para IPHAN, Inepac e Fiocruz”, finaliza.

Patrimônio no Centro do Rio e os desafios da modernização no debate

A preocupação com patrimônios historicamente esquecidos também se reflete nos desafios de conservação em áreas centrais da cidade. No Rio de Janeiro, são mais de 1.700 imóveis tombados, segundo a Prefeitura, sendo 328 apenas no Centro. Muitos deles apresentam péssimo estado de conservação, evidenciando a necessidade de estratégias de preservação que unam proteção física e valorização simbólica.

Um exemplo emblemático é o casarão na Rua Pascoal Carlos Magno, 73, em Santa Teresa, onde viveram figuras históricas como Barão de Mauá e Manoel Bandeira. A casa, tombada em 1994, está à venda por R$ 2,5 milhões e já abrigou a Pensão Mauá, criada pela pintora Djanira (1914-1979). Hoje, sofre com pichações e deterioração.

A imobiliária Sérgio Castro Imóveis, que administra mais de 500 imóveis históricos na cidade, instalou um painel contando a história do local, mas a conservação continua sendo um desafio. O próprio painel já foi depredado e pichado 6 vezes, segundo a imobiliária.

“Todo bem tombado, seja móvel ou imóvel, carrega significados que vão além da sua materialidade. No Centro do Rio, esses prédios representam a memória coletiva de milhares de cariocas que vivem, trabalham e circulam por ali. É fundamental preservar esses espaços, mesmo que passem por ressignificações ao longo do tempo”, explicou Rodrigo Manoel, museólogo do Inepac e mediador do evento.

Nos últimos anos, a Prefeitura criou leis para incentivar a preservação, como a reconversão de imóveis tombados, que permite transformações internas, e o programa Reviver Centro, que busca atrair novos moradores para a região. Mesmo assim, especialistas defendem equilíbrio entre modernização e preservação.

“A modernização chega a qualquer centro histórico, seja no Rio ou em cidades como Paris. O desafio é equilibrar o novo com os sentidos e tradições que esses lugares carregam”, acrescentou Rodrigo.

Dia 24: destaque para a Irmandade de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores

Seguindo o debate sobre modernização e preservação, um dos momentos mais emocionantes do seminário ocorreu com a fala do provedor Cláudio André de Castro, da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, sobre os desafios de gerir patrimônios religiosos.

A Igreja da Lapa dos Mercadores, localizada na esquina da Rua do Ouvidor com a Travessa do Arco do Teles, foi construída entre 1743 e 1750 e reúne elementos barrocos e rococós. Interditada pela Defesa Civil após a queda de parte da fachada e a retirada de uma árvore de 4 metros de seu telhado, passou por uma restauração em tempo recorde e reabriu em 2023, com reformas no telhado, na estrutura elétrica e hidráulica, pintura geral, recomposição do acervo, restauro do carrilhão de sinos, órgão e do relógio (parado a 101 anos), além do restauro do mobiliário interno, restauro e recomposição da clarabóia e vitrais, entre outros. Hoje, a irmandade luta com o desabamento de um prédio vizinho, o número 19 da Travessa do Comércio, que vem gerando infiltrações no histórico templo.

Provedor Cláudio André de Castro, da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, ao lado de Rafael Azevedo do IPHAN – Foto: Daniel Martins/ Diário do Rio

Dentro da sacristia, há peças históricas, como a bala de canhão disparada durante a Revolta da Armada (1893) e a imagem de Nossa Senhora da Fé, que caiu de mais de 25 metros durante o conflito, sofrendo apenas pequenos danos. Castro falou dos problemas de relacionamento que podem ocorrer com os órgãos de patrimônio, citando a dificuldade de defender a Igreja de pichações e depredações, e o que chamou de confusão de norma com “gosto pessoal”, por parte dos órgãos fiscalizadores. Aproveitou para explicar que uma igreja é uma “comunidade viva e não um museu“, ao criticar interferências no dia-a-dia e na decoração móvel dos templos. Castro disse que “o ótimo é inimigo do bom, e ambos são alternativa à ruína“, citando casos em que certas exigências consomem todos os recursos das confrarias, que acabam desistindo de conservar o bem. O provedor falou sobre as dificuldades enfrentadas pelas irmandades, mas não sem reconhecer que a existência do Iphan é uma das razões de ainda existirem tantos monumentos.

Encerramento no Sítio Roberto Burle Marx

Após os debates e apresentações do dia 24, o seminário foi encerrado com uma visita guiada ao Sítio Roberto Burle Marx, em Barra de Guaratiba. O espaço, que integra natureza, arte e arquitetura, exemplifica a convergência entre diferentes formas de patrimônio.

“O sítio é uma obra de arte viva. Ele nos faz refletir sobre a função social desses monumentos e imóveis, que têm potencial pedagógico e comunicativo. A visita convida os participantes a vivenciarem essa relação entre obras de arte, arquitetura e paisagem”, afirmou Rafael Bezerra, historiador, professor da Fiocruz e chefe da Região Técnica do sítio.

Nos próximos dias, os organizadores divulgarão uma carta com recomendações e considerações finais baseadas nos debates realizados ao longo do evento.

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