O deputado federal Tarcísio Motta (PSOL), candidato à reeleição pelo Rio de Janeiro com o número 500, defendeu a criação de um sistema nacional destinado à prevenção e ao enfrentamento dos desastres socioambientais. Apelidada de “SUS do Clima”, a proposta estabeleceria responsabilidades permanentes para os governos federal, estaduais e municipais, além de garantir fontes de financiamento para as ações de proteção à população.
Durante entrevista ao DIÁRIO DO RIO, o parlamentar afirmou que o Brasil não pode continuar dependendo apenas de medidas emergenciais adotadas depois de enchentes, secas, deslizamentos e outros eventos climáticos extremos.
— Todas as vezes que a gente tem uma grande tragédia por causa de uma chuva ou de uma seca, libera fundo do FGTS, faz medida emergencial, faz contrato e libera orçamento. Você não tem um financiamento, não tem uma estrutura. O Estado brasileiro precisa se preparar — afirmou Tarcísio Motta.
Professor de História do Colégio Pedro II, o candidato também falou sobre educação integral, segurança nas escolas, redução da jornada de trabalho, proteção dos fundos previdenciários, formação de novas lideranças de esquerda e combate ao poder político das milícias.
“O colapso ecológico é algo para agora”
Segundo Tarcísio, a proposta do “SUS do Clima” busca organizar a atuação dos diferentes níveis de governo de maneira semelhante ao que ocorre no Sistema Único de Saúde.
A União, os estados e os municípios teriam obrigações definidas em lei, planejamento permanente, integração entre os órgãos públicos e fontes específicas de financiamento.
O deputado argumentou que, embora o Brasil possua um sistema nacional de Defesa Civil, as ações ainda não estão suficientemente conectadas aos ministérios e às demais áreas responsáveis por habitação, infraestrutura, saúde, assistência social e meio ambiente.
— O colapso ecológico planetário é algo para agora, não algo para o futuro — declarou.
Tarcísio citou as ventanias registradas recentemente no Rio de Janeiro e alertou para a possibilidade de chuvas mais fortes, secas prolongadas e outros fenômenos relacionados às mudanças climáticas.
Para ele, o poder público precisa investir não apenas no atendimento das vítimas depois das tragédias, mas também na identificação das áreas de risco, em obras preventivas e na adaptação das cidades.
Escolas devem criar planos contra eventos climáticos
Outra proposta destacada pelo deputado é o projeto das Escolas Resilientes, aprovado pela Câmara dos Deputados e encaminhado ao Senado.
O texto estimula cada comunidade escolar a identificar os riscos climáticos existentes no prédio e no entorno da unidade. Alunos, professores, funcionários e familiares poderiam participar da elaboração de projetos para reduzir os impactos de enchentes, ventanias, deslizamentos, secas e ondas de calor.
As propostas seriam posteriormente avaliadas por equipes técnicas e poderiam receber financiamento dos ministérios da Educação e do Meio Ambiente.
— Nosso sonho é que cada escola possa produzir um projeto de adaptação às mudanças climáticas e de mitigação. A comunidade escolar olha para o prédio, para o entorno e identifica quais são os riscos — explicou.
Segundo Tarcísio, o trabalho permitiria integrar a educação ambiental à realidade dos bairros. Em vez de tratar as mudanças climáticas apenas de forma teórica, os estudantes participariam da identificação dos problemas e da construção de soluções.
Educação integral não é apenas ampliar o horário
A educação deverá ser uma das prioridades de um eventual segundo mandato de Tarcísio Motta na Câmara dos Deputados. O candidato criticou a utilização da expressão “educação integral” como sinônimo de simplesmente manter os estudantes durante mais horas nas unidades de ensino.
— Colocar a criança mais tempo numa escola ruim é fazê-la ficar mais tempo numa educação ruim — afirmou.
Para o deputado, a ampliação da jornada precisa ser acompanhada por investimentos em infraestrutura, currículo, formação dos professores e condições de trabalho.
Uma escola de educação integral, segundo ele, deve contar com bibliotecas, laboratórios, quadras esportivas, porteiros, inspetores, profissionais valorizados e tempo adequado para o planejamento das aulas.
O candidato citou o Colégio Pedro II como exemplo de uma instituição que, mesmo funcionando parcialmente em turnos, oferece uma formação mais ampla, com disciplinas de música, artes e outras atividades.
— Mais tempo na escola é fundamental, mas horário integral não é sinônimo de educação integral. É preciso diversificar o currículo e formar o ser humano integralmente — defendeu.
Governo federal precisa ampliar investimentos
Tarcísio também defendeu uma participação financeira maior do Governo Federal na educação básica.
O parlamentar citou a aprovação do Sistema Nacional de Educação e o funcionamento do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica, o Fundeb, como instrumentos importantes para diminuir as desigualdades entre municípios ricos e pobres.
Segundo ele, no entanto, os mecanismos existentes ainda não são suficientes para garantir uma rede pública de qualidade em todo o país.
— Ou o Governo Federal coloca mais dinheiro na educação, ou a gente não consegue chegar aonde precisa — afirmou.
O deputado destacou ainda as diferenças entre as condições oferecidas aos professores das redes federal, estadual e municipais.
Ele relembrou que trabalhou simultaneamente no Colégio Pedro II e em escolas das redes estadual e municipal. Embora fosse o mesmo professor, com a mesma formação, encontrava realidades diferentes em relação a salários, quantidade de alunos, tempo de planejamento e estrutura.
— A diferença estava nas condições de trabalho. Era o meu salário, meu tempo de planejamento, o fato de ter inspetor e estrutura na escola. Isso é que faz a diferença na educação de qualidade — declarou.
Violência nas escolas tem diferentes dimensões
Ao abordar a segurança nas escolas, Tarcísio Motta dividiu o problema em três dimensões.
A primeira envolve os conflitos e agressões que acontecem dentro das próprias unidades, como brigas entre alunos ou ataques contra professores e funcionários. A segunda ocorre quando a escola se torna diretamente o alvo de um atentado. A terceira está relacionada à violência no entorno, incluindo confrontos armados entre policiais e criminosos.
Para enfrentar os conflitos internos, o candidato defendeu que todas as unidades contem, no mínimo, com porteiros e inspetores.
O parlamentar também ressaltou a importância de equipes multidisciplinares, formadas por psicólogos, assistentes sociais e pedagogos, para atender grupos de escolas e ajudar na identificação de situações mais graves.
Segundo Tarcísio, essas equipes devem ser acionadas quando os problemas ultrapassarem a capacidade de atuação dos professores e das direções.
— Não dá para deixar nas costas do professor a solução de todos os problemas sociais e psicológicos dos alunos — afirmou.
Tarcísio rejeita armas para funcionários das escolas
O deputado criticou as propostas que permitem ou estimulam o armamento de funcionários das unidades de ensino.
Para Tarcísio, colocar uma arma nas mãos de um porteiro não impediria os ataques e poderia criar novos riscos, especialmente nas escolas localizadas em áreas dominadas pelo tráfico ou pelas milícias.
— Tem escola que não tem porteiro e querem dar porte de arma. Dar arma para quem? Numa escola em uma favela, aquele revólver pode virar alvo do tráfico ou da milícia. Isso não faz o menor sentido — criticou.
O candidato argumentou que, em áreas atingidas por confrontos armados, a presença de mais uma pessoa atirando aumentaria o risco para estudantes, professores e funcionários.
Fim da escala 6×1 é principal pauta da esquerda
Tarcísio Motta classificou o fim da escala de trabalho 6×1 como a principal pauta atual da esquerda brasileira.
O parlamentar afirmou que o debate sobre a redução da jornada de trabalho acompanha a história dos movimentos operários desde o século XIX.
Antes da apresentação da proposta encampada pela deputada federal Érika Hilton (PSOL), Tarcísio foi relator, na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, de uma PEC apresentada pelo deputado Reginaldo Lopes (PT).
Segundo ele, houve uma tentativa de colocar o texto em votação em 2023, mas a direita conseguiu retirá-lo da pauta por uma diferença de dois votos.
O candidato também destacou a mobilização liderada por Rick Azevedo, fundador do movimento Vida Além do Trabalho (VAT).
— O fim da escala 6×1 se tornou a principal pauta da esquerda. Eu não tenho nenhuma dúvida — declarou.
Para Tarcísio, a atuação de Rick Azevedo e Érika Hilton também demonstra que a defesa dos direitos de mulheres, negros e da população LGBT não está separada das reivindicações econômicas dos trabalhadores.
“Identitários” e luta de classes
O candidato classificou como falsa a oposição entre uma esquerda “identitária” e outra concentrada exclusivamente na luta de classes.
Na avaliação de Tarcísio, a classe trabalhadora brasileira é atravessada por desigualdades de gênero e raça. Por isso, os problemas econômicos, sociais e identitários precisam ser analisados de forma integrada.
— A esquerda precisa retomar o debate da luta de classes sem perder o debate das questões de gênero e raça — afirmou.
O parlamentar argumentou que as experiências de uma mulher da elite e de uma trabalhadora da periferia são diferentes. O mesmo ocorre com trabalhadores negros, LGBT e moradores de comunidades.
Proteção dos fundos previdenciários
Durante a entrevista, Tarcísio também falou sobre as aplicações realizadas por fundos previdenciários em instituições financeiras consideradas de maior risco.
O deputado afirmou que começou a elaborar uma série de propostas depois das denúncias relacionadas ao Banco Master. Uma delas busca restringir os investimentos realizados pelos regimes próprios de previdência de estados e municípios.
A proposta permitiria aplicações principalmente em títulos lastreados pelo Tesouro Nacional, bancos públicos ou instituições classificadas como sólidas por critérios técnicos.
Segundo Tarcísio, as regras precisam ser estabelecidas em lei para evitar que decretos sejam alterados conforme interesses políticos ou financeiros.
— A gente precisa proteger o dinheiro do servidor e impedir que os fundos de previdência apliquem em bancos pequenos que prometem rendimentos absurdos e passam de município em município oferecendo vantagens — afirmou.
O DIÁRIO DO RIO revelou que a Polícia Federal avançou sobre aplicações realizadas pelo Rioprevidência no Banco Master. A autarquia estadual aplicou recursos destinados ao pagamento das aposentadorias e pensões dos servidores em produtos ligados à instituição.
Esquerda perdeu espaço entre os jovens
A formação de novas lideranças políticas também foi discutida na entrevista.
Tarcísio afirmou que a esquerda perdeu parte da capacidade de atrair os jovens e se apresentar como uma força de transformação. Segundo ele, a partir de 2016, os partidos progressistas passaram a atuar mais na defesa das instituições e na resistência aos avanços da extrema direita.
O parlamentar citou a defesa do mandato da ex-presidente Dilma Rousseff, a campanha pela libertação de Luiz Inácio Lula da Silva e a construção de alianças amplas para derrotar o bolsonarismo.
— Há uma contradição. Como é que a gente se apresenta como antissistema sendo um partido de esquerda que apoia um governo? A gente precisaria que esse governo tomasse medidas radicais o suficiente para que isso fizesse mais sentido — avaliou.
Tarcísio afirmou que apoia criticamente o Governo Lula e reconheceu que nem sempre votou de acordo com a orientação do Palácio do Planalto.
O candidato também apontou dificuldades da esquerda para disputar espaço nas redes sociais. Segundo ele, os algoritmos favorecem publicações alarmistas e discursos simplificados.
Bolsonaro se apresentou como antissistema
Ao analisar o crescimento da extrema direita, Tarcísio Motta afirmou que o ex-presidente Jair Bolsonaro conseguiu se apresentar como uma liderança contrária ao sistema, apesar de ter construído toda a sua trajetória dentro da política.
O parlamentar lembrou que Bolsonaro foi militar, deputado durante vários mandatos e levou integrantes da família para a vida partidária.
— A família vive da política desde sempre e esteve ao lado do poder, mas, de uma hora para outra, virou a carta da extrema direita como se fosse uma força antissistema — criticou.
Na avaliação de Tarcísio, a descrença na política também estimula a abstenção, o voto nulo e até a venda de votos, fortalecendo grupos tradicionais que controlam recursos públicos, emendas parlamentares e estruturas eleitorais.
Uso eleitoral das igrejas
De origem católica e ligado, na juventude, à Teologia da Libertação e à Pastoral da Juventude, Tarcísio defendeu a construção de pontes entre a esquerda e os eleitores evangélicos.
Para o parlamentar, toda religião pode produzir pensamentos progressistas ou conservadores. Ele argumentou que o cristianismo também oferece fundamentos para a defesa da igualdade, da justiça social e de uma vida digna para todos.
O candidato, no entanto, criticou a utilização eleitoral dos púlpitos.
— É preciso denunciar um pensamento que transforma o púlpito da igreja em palanque político para determinadas personalidades — afirmou.
Segundo Tarcísio, existe uma estrutura política e financeira que utiliza a fé popular para direcionar votos e ampliar o poder de determinadas lideranças.
O parlamentar ressaltou que a crítica não deve ser dirigida à fé dos fiéis, mas aos grupos que transformam instituições religiosas em ferramentas eleitorais.
Revisão de inquéritos arquivados
Na parte final da entrevista, Tarcísio Motta voltou a cobrar a revisão de inquéritos policiais arquivados nos períodos em que o delegado Rivaldo Barbosa ocupou cargos de comando na Polícia Civil do Rio.
O deputado argumentou que a condenação dos envolvidos no assassinato da vereadora Marielle Franco revelou uma estrutura que teria atuado para impedir investigações relacionadas às milícias.
Por isso, o parlamentar e integrantes da bancada PSOL-Rede enviaram pedidos ao Ministério Público do Rio e a órgãos federais para que casos arquivados durante o período sejam reavaliados.
O pedido de revisão dos inquéritos arquivados durante a gestão de Rivaldo Barbosa foi apresentado depois da condenação do ex-chefe da Polícia Civil no caso Marielle Franco.
— Se a gente chegou à conclusão de que existia uma estrutura na polícia que agia para impedir investigações sobre milícias, é preciso reabrir os casos para verificar onde essa atuação aconteceu — defendeu.
Combate ao poder político das milícias
Tarcísio afirmou que a prisão dos executores e dos mandantes representou o encerramento de uma etapa da investigação sobre o assassinato de Marielle Franco, mas não significa o fim da luta por justiça.
— Pôr um ponto final no assassinato da Marielle é muito difícil. Os executores e os mandantes estão presos, mas o assassinato escancara uma estrutura política das milícias no Rio de Janeiro que precisa ser desarticulada — declarou.
Para o deputado, a busca por justiça está diretamente relacionada ao combate ao poder político e econômico do crime organizado.
A relação entre políticos e milícias já havia sido apontada por Tarcísio Motta como um dos principais problemas do Rio.
Trajetória
Nascido em Petrópolis, na Região Serrana, Tarcísio Motta é formado em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e professor do Colégio Pedro II.
Foi candidato ao Governo do Rio em 2014 e 2018. Em 2016, elegeu-se vereador da capital e conquistou um segundo mandato em 2020. Dois anos depois, foi eleito deputado federal.
Na Câmara, participa de debates relacionados à educação pública, direitos sociais, meio ambiente, redução da jornada de trabalho e combate às milícias.
Em 2026, disputa a reeleição para deputado federal pelo PSOL com o número 500. O lema da campanha é “Esperança que não recua”.
— O eleitor pode esperar um mandato de muita luta, combatividade, compromisso ético e seriedade, além da defesa da educação e da cultura — concluiu.