
As belas paisagens do Rio de Janeiro, exaltadas em verso e prosa e elogiadas por pessoas do mundo inteiro, escondem realidades que não têm nada de bonitas, como acontece em qualquer cidade grande. Nos contos presentes no livro “Tijolos cimentados da cidade rachada”, o professor e escritor Thiago Oliveira escancara essas realidades com linguagem crua e direta trazendo à tona as microviolências que são praticadas no cotidiano, envolvendo questões de gênero e raça.
No livro estão presentes diversas formas de opressão sofridas pelas pessoas que são comumente consideradas à margem da sociedade. E fica claro que é nos momentos mais banais que o preconceito se impõe. As marcas deixadas pela violência estão, por exemplo, nos ensinamentos que uma mãe negra precisa dar ao seu filho quando ele precisa encarar a realidade brutal da cidade e das instituições:
“Das coisas que sua mãe lhe dizia, se lembrava sempre de sair com identidade e andar bem arrumado, pra nenhum camburão te parar no meio da rua. Antes de saber que era um homem, negro, a polícia já havia dito.”
Thiago Oliveira joga luz nas dores que por diversos motivos deixamos escondidas, algumas vezes por não entender direito o que se passou, outras vezes por sentir que não há lugar para tais sentimentos na correria do dia a dia. O modo de vida contemporâneo é retratado nas páginas de “Tijolos cimentados” por meio dos relacionamentos superficiais, da falta de empatia e da solidão que em alguns momentos nos alcança.
A capa do livro, com imagens de favelas, tão presentes na cidade do Rio, já deixa claro que não é sobre a cidade celebrada pelos poetas que Thiago escreve. O autor olha através das frestas da “cidade maravilhosa” para falar de personagens invisibilizados e silenciados. Em “Tijolos cimentados da cidade rachada”, temos contato com um Rio de Janeiro no qual enquadramos na mesma foto o luxo e a pobreza, a desigualdade social que seria uma imagem mais realista para representar a cidade em um cartão-postal.
