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Vitor Friary – IA não substitui o cuidado humano qualificado: Setembro Amarelo e a importância da terapia

FOTOS: GILSON COSTA JR.

Nos últimos meses, temos assistido a um movimento crescente de pessoas recorrendo à inteligência artificial como se fosse um substituto para a psicoterapia. Um estudo de 2024 da Loma Linda University, na Califórnia, reportou que 28% de pessoas utilizam aplicativos de IA para suporte rápido ou como um terapeuta. Recentemente, uma reportagem exibida pelo Fantástico mostrou especialistas alertando para o risco desse fenômeno: algoritmos que tentam acolher quem sofre, mas que não foram programados para lidar com a profundidade da dor humana – estamos nos referindo a um conjunto de códigos em uma máquina. A questão merece reflexão, especialmente em setembro, mês dedicado à prevenção do suicídio. Afinal, quando falamos de sofrimento emocional, o melhor é não usar atalhos nem cortar caminhos. A tecnologia pode ser útil como fonte de informação, mas jamais ocupará o lugar do encontro humano, da escuta e tratamento profissional. Aquele espaço em que o olhar, o silêncio compartilhado e a escuta empática fazem diferença entre a vida se apagar e a vida continuar, é real mesmo na relação terapêutica humana.

O que a IA não consegue oferecer

As inteligências artificiais podem organizar informações, responder em segundos e até simular uma conversa do dia a dia. Mas há algo que elas não alcançam: a dimensão afetiva e relacional do cuidado. Uma IA pode até sugerir exercícios de respiração para trazer calma ou até mesmo frases motivacionais, mas ela não percebe o tremor na voz de quem está prestes a desistir de tudo. Não enxerga as lágrimas que correm pelo rosto de alguém que já não vê esperança na vida, não lê o silêncio carregado de dor entre uma respiração e outra. É como pedir a um GPS para explicar o motivo de uma estrada estar bloqueada: ele mostra o desvio, mas não compreende o luto que paralisou o caminho. Em saúde mental, a prevenção do suicídio depende de fatores que ultrapassam a lógica de respostas prontas. Depende de vínculo, de acolhimento, de confiança construída entre pessoas, de uma anamnese profunda que investiga não somente os sintomas, mas as origens.

As terapias psicológicas, ao contrário, têm décadas de pesquisa comprovando sua eficácia na prevenção do suicídio. A Terapia Cognitivo-Comportamental, por exemplo, auxilia a identificar pensamentos automáticos que alimentam a desesperança, oferecendo estratégias para substituí-los por perspectivas mais realistas.

Já programas baseados em Mindfulness mostram resultados consistentes na redução da ideação suicida e no fortalecimento da autocompaixão. Essas abordagens não se limitam a “dar respostas”: elas ensinam a pessoa a reconhecer sua dor, a se relacionar de forma mais acolhedora e saudável com suas emoções e a encontrar novos caminhos quando tudo parece ruir.

Na terapia, não há apenas técnicas. Há encontro. O psicólogo não está ali apenas para aplicar métodos, mas para oferecer presença humana, uma relação em que o sofrimento pode ser expresso sem julgamento. É nesse espaço que muitos encontram pela primeira vez a possibilidade de serem ouvidos e, com isso, de reescrever sua própria história. Essa humanidade compartilhada que surge do encontro com o terapeuta é um dos ingredientes principais para dar início a um processo de cuidados emocionais.

Setembro Amarelo

O Setembro Amarelo é o mês que lembramos que falar sobre suicídio é um ato de cuidado. Conversar sobre o que estamos passando pode salvar vidas. Ao longo dos anos no meu trabalho como terapeuta atuando na área de prevenção de risco de suicidio, observei que as pessoas com ideação suicida não precisam de conselhos imediatos, mas de uma escuta acolhedora. Precisam saber que não estão sozinhas, que há alguém disposto a permanecer ali mesmo quando as palavras falham. É nesse gesto que o fio da vida pode ser reatado.

É por isso que a prevenção do suicídio é, em essência, uma tarefa coletiva. Não cabe apenas aos profissionais de saúde, mas a todos nós. Uma ligação, uma mensagem, um “como você está de verdade?” pode ser o começo. A rede de apoio é fundamental nesse processo.

Tecnologia: ferramenta de apoio no tratamento

Não se trata de demonizar a tecnologia. Aplicativos e ferramentas de inteligência artificial podem ter papeis complementares na saúde mental: lembretes de autocuidado, exercícios de relaxamento, informações educativas, difusão de informações científicas, entre outras formas de conscientização. Mas é preciso clareza: eles não substituem psicólogos, psiquiatras e redes de apoio humano. É importante frisar que o uso de ferramentas tecnológicas na saúde mental vem sendo experimentado há décadas. Há vários aplicativos que foram desenvolvidos para esse fim e no Reino Unido a IA , como é o caso do ‘Beating the Blues’ que é um aplicativo que utiliza técnicas da Terapia Cognitivo-Comportamental para o tratamento de sintomas leves de depressão e é oferecido pelo NHS (National Health Service) – uma espécie de SUS do Reino Unido. Porém tudo isso ocorre em um ambiente controlado e com acompanhamento profissional.

É compreensível que quando o sofrimento bate forte, as pessoas busquem ferramentas rápidas e econômicas, como a IA para alívio de suas dores, porém fazer isso sem acompanhamento e sem orientação profissional pode acarretar em um agravamento de sintomas. O fato é que confiar apenas em respostas de máquina é correr um risco.

A prevenção do suicídio não está nos algoritmos. Está nos vínculos. Está no abraço, na conversa, no profissional que dedica tempo para escutar sem pressa, no tratamento. Se você está em sofrimento nesse momento, ou conhece alguém que esteja, lembre-se: não é vergonha pedir ajuda. Ao contrário, é um gesto de coragem. Procure um psicólogo, um psiquiatra, converse com alguém de confiança. Se sentir que não consegue mais, ligue 188, o número do CVV, disponível 24 horas em todo o Brasil.


As opiniões expressas neste artigo são de exclusiva responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a posição do jornal.

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