
Um dia após anunciar que será pré-candidato ao Palácio Guanabara pelo Democracia Cristã (DC), o ex-governador Wilson Witzel recebeu um freio público da própria legenda. A direção nacional da sigla afirmou que qualquer decisão sobre candidatura no Rio dependerá do aval do diretório estadual e que não aceitará “interferência externa de ninguém”.
O recado foi dado em vídeo pelo presidente nacional do partido, João Caldas, a filiados. Segundo ele, cabe ao comando fluminense decidir quem poderá ingressar na legenda e quem será lançado ao governo.
Diretório estadual dá a palavra final
No Rio, o DC é presidido por Mauro Cozzolino, primo do prefeito de Magé, Renato Cozzolino (PP). Caldas ressaltou que o grupo local está focado na formação de chapas proporcionais e que a definição sobre a cabeça de chapa para o Executivo será tomada internamente.
“Qualquer pessoa que ingressar no Democracia Cristã vai passar pelo crivo do diretório estadual”, afirmou o dirigente, sinalizando que a filiação de Witzel, marcada para o próximo dia 6 de março, não garante automaticamente a candidatura.
Nos bastidores, integrantes do partido admitem que a movimentação do ex-governador causou desconforto ao anunciar nas redes sociais que “encabeçará” a disputa antes mesmo de oficializar a entrada na sigla.
Tentativas frustradas e convite de Aldo Rebelo
Antes de bater à porta do DC, Witzel tentou viabilizar sua volta à cena eleitoral por outras legendas. Em julho do ano passado, chegou a anunciar filiação ao PSDB, mas as negociações não avançaram.
A aproximação com o DC, segundo o próprio ex-governador, ocorreu após convite do ex-presidente da Câmara Aldo Rebelo, que é apresentado pela legenda como pré-candidato à Presidência da República. Witzel afirmou que a aliança representa uma “consolidação programática” voltada aos interesses do estado.
Ofensiva no STF para manter elegibilidade
Mesmo que consiga a legenda, o projeto eleitoral de Witzel enfrenta um obstáculo central: a Justiça. Réu por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, ele acionou recentemente o Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar trancar uma ação penal que tramita no Superior Tribunal de Justiça (STJ).
A ação foi aberta no STJ em abril de 2021, quando ele ainda ocupava o cargo e tinha foro privilegiado. Após a cassação, o processo desceu à primeira instância, mas retornou ao STJ em setembro de 2025, depois que o STF firmou novo entendimento de que o foro pode ser mantido mesmo após o fim do mandato, desde que os fatos investigados estejam ligados ao exercício da função.
A defesa alega irregularidades na condução das investigações e pede o trancamento do processo. O habeas corpus tramita sob segredo de Justiça e ainda aguarda distribuição.
Aliados avaliam que a iniciativa é peça-chave para manter a candidatura viável. Embora não haja condenação definitiva, o avanço da ação penal pode impor constrangimentos jurídicos e políticos, abrindo a possibilidade de o ex-governador disputar o pleito sob risco de eventual condenação no curso do processo.
Da ascensão ao impeachment
Eleito em 2018, Witzel derrotou no segundo turno o então favorito Eduardo Paes, embalado pela onda conservadora que marcou aquela eleição. O mandato, porém, durou pouco mais de um ano.
Em 2020, foi afastado sob acusação de envolvimento em irregularidades em contratos emergenciais da saúde durante a pandemia de Covid-19, incluindo suspeitas de superfaturamento na construção de hospitais de campanha e na compra de respiradores e medicamentos. No ano seguinte, sofreu impeachment e perdeu definitivamente o cargo.
Condenado à inelegibilidade por cinco anos, prazo que, segundo ele, se encerra antes das próximas eleições estaduais, Witzel sustenta ter sido alvo de perseguição política e afirma buscar “uma nova chance” nas urnas.