
A Associação Brasileira de Saúde e Causa Animal (ABRAESCA) idealizou um projeto inédito no Brasil para a criação de bancos de sangue veterinário com acesso público e prevê a inauguração das primeiras unidades no estado do Rio de Janeiro em 2026. A proposta já foi apresentada a municípios fluminenses e, em 2024, chegou aos hospitais públicos veterinários de Resende e de Duque de Caxias, onde há expectativa concreta de implantação.
O projeto prevê parcerias institucionais com o Exército, em Resende, e com a Marinha do Brasil, em Duque de Caxias, para que cães que atuam nessas corporações possam atuar como doadores de sangue para os bancos. A iniciativa busca ampliar a oferta de hemocomponentes e reduzir gargalos históricos no atendimento veterinário, especialmente fora da capital e da Região Metropolitana.
Fundada por uma médica-veterinária e baseada no conceito de Saúde Única (One Health), que integra saúde animal, humana e ambiental, a ABRAESCA atua no desenvolvimento de soluções estruturantes para a medicina veterinária. Segundo a presidente da associação, Tifanny Pinheiro Pires, a ideia surgiu da prática clínica. “Esse projeto foi idealizado a partir de situações reais que nós, médicos-veterinários, vivemos diariamente, quando o animal precisa de um hemocomponente específico e simplesmente não há oferta disponível”, afirma.
Atualmente, o Rio de Janeiro conta com poucos bancos de sangue veterinário, todos privados e concentrados na capital e na Região Metropolitana. A limitação de unidades gera atrasos críticos no atendimento de animais em municípios do interior. O projeto da ABRAESCA prevê ainda a separação dos hemocomponentes, o que amplia a segurança das transfusões. “Nem todo animal pode receber sangue total. Uma única doação pode salvar até quatro vidas quando os componentes são utilizados corretamente”, explica Tifanny.
A proposta tem recorte social definido e prioriza o atendimento de animais pertencentes a famílias inscritas no CadÚnico, garantindo acesso a tratamentos de alto custo com rigor técnico e sem práticas de maus-tratos.
A iniciativa conta com o acompanhamento da Ordem dos Advogados do Brasil no Rio de Janeiro (OAB-RJ), por meio das comissões de direito médico-veterinário e de proteção e direito dos animais. Para Reynaldo Velloso, presidente da comissão de proteção e direito dos animais da OAB-RJ, o projeto representa um avanço relevante. “Quando a Tifanny me apresentou o projeto, em 2024, fiquei impressionado com a organização e a viabilidade da proposta. O banco de sangue público veterinário tem grande potencial de salvar vidas, e o diferencial está na sua estruturação técnica. Desde então, ela vem atuando conosco, deixando claro que esse projeto é um sonho e um propósito de vida”, afirma.
Larissa Paciello, presidente da comissão de direito médico-veterinário da OAB-RJ, destaca o impacto social da proposta. “Projetos públicos em medicina veterinária precisam ter um recorte social claro, voltado aos tutores do CadÚnico, garantindo acesso sem prejudicar o setor privado. O banco de sangue veterinário é essencial diante da alta demanda e da baixa oferta, beneficiando tanto o serviço público quanto o privado, fortalecendo a profissão e salvando vidas”, diz.
O Conselho Regional de Medicina Veterinária do Rio de Janeiro (CRMV-RJ) também reconhece a relevância da iniciativa. Segundo o presidente do órgão, Diogo Alves, o conselho acompanha o projeto desde sua concepção. “O CRMV-RJ reconhece a relevância técnica, ética e social da proposta. A iniciativa amplia o acesso às transfusões, assegura o bem-estar animal e fortalece a medicina veterinária como pilar da saúde pública”, afirma.