quinta-feira, 14 de maio de 2026 - 3:50

  • Home
  • Alerj
  • Governo acelera leilão dos trens apesar de recomendação do TCE para suspender edital sob suspeita

Governo acelera leilão dos trens apesar de recomendação do TCE para suspender edital sob suspeita

Divulgação

O governo do estado realiza nesta quarta-feira (25), às 14h, a audiência destinada a ratificar o resultado do leilão que definiu a nova concessionária dos trens urbanos do Rio. A sessão deverá confirmar o consórcio Nova Via Mobilidade como vencedor e encerrar formalmente o processo de licitação, mesmo após recomendação técnica do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE) para suspensão imediata do certame.

O leilão ocorreu há apenas 15 dias e teve um único participante. O deságio oferecido foi de 0,06% sobre o valor estimado de R$ 660 milhões, o equivalente a R$ 396 mil, índice considerado irrisório por especialistas e que evidencia a ausência de competitividade no processo.

A pressa na conclusão do contrato ocorre a sete meses das eleições estaduais e permitirá que o novo acordo seja assinado ainda neste semestre. Pelo cronograma, terá início uma fase de operação assistida de 90 dias, na qual a atual concessionária, a SuperVia, e a Nova Via atuarão conjuntamente para viabilizar a transição.

Contrato muda modelo de remuneração

O novo contrato altera de forma significativa o modelo adotado até aqui. A remuneração da operadora deixará de ser calculada com base no número de passageiros transportados e passará a considerar a quantidade de quilômetros rodados. A mudança reduz o risco empresarial atrelado à demanda e amplia a previsibilidade de receitas.

Outro ponto sensível é que a nova concessionária assumirá a operação sem herdar as dívidas e passivos judiciais da SuperVia. Para isso, o edital prevê a criação de uma Unidade Produtiva Isolada (UPI Ferroviária), mecanismo jurídico que permite a transferência da operação sem a sucessão de obrigações financeiras.

Com investimento fixado em R$ 660 milhões e sem absorção de passivos, especialistas do setor classificam o modelo como excessivamente favorável ao novo operador, descrevendo-o como um contrato “de pai para filho”.

O consórcio vencedor é formado por dois fundos de investimento: o Nova Via Fundos de Investimento, Participação e Multiestratégia e o Magna Fundo de Investimento e Participações. Em São Paulo, a Via Mobilidade é controlada pela CCR S.A. (80%) e pela RuasInvest (20%). A composição societária detalhada da estrutura no Rio ainda não foi oficialmente divulgada.

Técnicos do TCE apontam risco fiscal e falhas de publicidade

Às vésperas do leilão, a Secretaria-Geral de Controle do TCE, por meio da Coordenadoria de Auditoria em Desestatização, apresentou representação solicitando a suspensão imediata da licitação. O documento aponta suspeitas de irregularidades no edital, falhas de transparência e risco fiscal.

Segundo os técnicos, o governo não detalhou adequadamente o impacto financeiro da contratação, sobretudo no custeio das gratuidades e no fluxo de caixa da futura operadora. Também não estaria clara a existência de reserva orçamentária suficiente para honrar os compromissos assumidos, o que poderia gerar risco ao erário.

A auditoria questiona ainda o modelo jurídico adotado. Embora classificado como permissão, o arranjo contratual se assemelharia, na prática, a uma Parceria Público-Privada (PPP), dada a necessidade de subsídios públicos e o volume de investimentos, o que exigiria rito legal distinto.

Outro ponto levantado foi a ausência de publicação do edital no Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP), como determina a legislação federal.

Relator e ex-vice-governador nega suspensão imediata

O pedido de cautelar para suspender o leilão foi analisado pelo conselheiro Thiago Pampolha, relator do caso no TCE. Ex-vice-governador e indicado à Corte pelo governador Cláudio Castro (PL), Pampolha decidiu não interromper o processo de imediato.

Em vez disso, concedeu prazo de cinco dias úteis para que o Executivo apresente esclarecimentos antes de deliberar sobre eventual medida cautelar. Na decisão, alegou a complexidade técnica da matéria e a necessidade de ouvir previamente a Secretaria de Transportes e a Procuradoria-Geral do Estado.

Após o prazo, o processo retornará ao corpo técnico e ao Ministério Público de Contas para emissão de pareceres. Mesmo com o leilão realizado, o TCE ainda poderá determinar a suspensão do contrato caso confirme as irregularidades.

Fim de um ciclo de quase 30 anos

A SuperVia opera o sistema ferroviário fluminense desde 1998. A concessionária anunciou a devolução da concessão alegando prejuízos financeiros recorrentes e dificuldades operacionais.

Em 2019, a japonesa Mitsui & Co. assumiu o controle da operação por meio do consórcio GUMI, em parceria com a West Japan Railway Company, após adquirir a participação da Odebrecht Transport. Quatro anos depois, o grupo decidiu devolver o contrato, citando os impactos da pandemia e o aumento do vandalismo.

Nos bastidores, pesaram também os recorrentes casos de roubo de cabos, furtos de trilhos e episódios de tiros contra composições em áreas sob domínio do tráfico, fatores que provocavam paralisações frequentes e prejuízos acumulados.

Pelo edital, a nova operadora deverá iniciar as atividades em março, durante o período de transição. Enquanto isso, o processo segue sob escrutínio do órgão de controle, que ainda pode alterar os rumos de uma concessão marcada pela pressa e pela falta de concorrência.

Receba notícias no WhatsApp e e-mail

Clique aqui para acessar a Fonte da Notícia

VEJA MAIS

Firjan SESI promove Dia D de vacinação para trabalhadores da indústria na Tijuca

Imagem meramente ilustrativa // Fachada da unidade Firjan Senai Sesi na Região dos Lagos –…

Flávio Bolsonaro admite cobrança a Vorcaro, mas nega crime

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato a presidente da República, admitiu ter mantido contato por…

Alívio nas contas: Rio projeta economia de R$ 300 milhões com adesão ao Propag até junho

Foto: Octacílio Barbosa/Alerj O Governo do Rio de Janeiro planeja oficializar, até o encerramento de…

Ir para o conteúdo