
Falar das marcas de Eduardo Paes no Rio de Janeiro é falar de um prefeito que nunca aceitou o papel de mero administrador de rotina. Paes sempre quis mais. Quis deixar assinatura. Quis intervir na paisagem. Quis associar seu nome a uma ideia de cidade moderna, em movimento, visível. E conseguiu. Ao deixar o cargo em 20 de março de 2026, saiu como o prefeito que mais tempo governou o Rio: foram 4.827 dias, em quatro mandatos.
Esse dado não é detalhe. Ele ajuda a explicar por que a cidade de hoje, goste-se ou não, tem tanto de Eduardo Paes. Poucos prefeitos moldaram de forma tão direta a imagem urbana do Rio. A marca dele está na obra, no traço, no equipamento público, no corredor de transporte, no programa de revitalização e também na forma de comunicar tudo isso, com ou sem Chapéu Panamá. Paes não governou apenas para fazer. Governou para mostrar que fez.
Sua maior marca talvez seja essa: transformar a prefeitura numa máquina de intervenção urbana de grande porte. Foi assim com a derrubada da Perimetral, com o Boulevard Olímpico, com o VLT, com a reconfiguração da zona portuária e, mais recentemente, com a tentativa de reocupar o Centro por meio do Reviver Centro. Houve ali uma visão clara de cidade. Uma visão que apostou no redesenho físico do Rio como forma de produzir também um novo imaginário sobre a capital fluminense.
Na mobilidade, a marca de Paes também é incontornável. O sistema de BRT é um produto típico de sua lógica de gestão: obra grande, promessa estrutural, apelo técnico e impacto político. O modelo mudou fluxos, reorganizou partes da cidade e se tornou peça central do discurso de modernização do transporte carioca. Ao voltar à prefeitura, ele ainda teve de recuperar parte do sistema e concluir a Transbrasil, inaugurada apenas em 2024, anos depois do cronograma original.
Mas é justamente aí que aparece a contradição. O mesmo BRT que serviu de vitrine virou também símbolo do desgaste de um modelo que soube lançar mais do que manter. O sistema entrou em colapso, sofreu abandono, depredação e perda de qualidade. Ou seja: a marca de Paes na mobilidade existe, mas ela vem acompanhada da crítica de que muitas vezes o poder público entregou com pompa o que depois não conseguiu sustentar com o mesmo vigor. Mesmo que aqui tenha muito de culpa do seu sucessor no 2º mandato, Marcelo Crivella.
Na saúde, seu legado é mais consistente. A recuperação da atenção primária e a expansão das Clínicas da Família são, talvez, a parte mais sólida de sua trajetória na prefeitura. O problema é que nem isso basta para blindá-lo. Ao deixar o cargo, Paes carregava também a cobrança por metas não cumpridas, como o desafio de zerar filas de consultas e cirurgias, além de uma rede que ainda faz o carioca esperar demais por atendimento e exame. O tempo médio na fila do Sisreg seguia alto, e algumas especialidades continuavam com esperas longas.
Há também a marca política, que não é menor. Eduardo Paes governou o Rio com uma mistura rara de energia administrativa, instinto eleitoral e forte presença pública. Seus aliados o veem como o prefeito que faz a máquina andar, toca projeto grande e sabe dar rumo à cidade. Seus críticos enxergam um gestor centralizador, performático e por vezes mais interessado no efeito da entrega do que na manutenção silenciosa do cotidiano. Não é uma crítica banal. No caso de Paes, forma e conteúdo quase sempre andaram juntos.
Porque existe, sim, um lado vitrine em seu legado. Paes foi o prefeito do cartão-postal, da obra que gera imagem, da intervenção que também comunica poder. Isso não significa que tenha feito pouco. Ao contrário. Fez muito. Sua imagem como um avatar do carioca se consolidou, seus trejeitos, idas ao samba de roda. Ficou clássica nas redes sociais a frase “Eu odeio ter que gostar de Eduardo Paes“.
O Rio de Paes foi governado para a cidade inteira, mas nem sempre com a mesma intensidade para a cidade toda. Áreas de alto valor simbólico, turístico ou urbanístico frequentemente receberam mais atenção. Enquanto isso, a cidade do dia a dia continuou convivendo com problemas velhos: buraco na rua, iluminação precária, ocupação irregular de calçadas, flanelinhas, crescimento da população em situação de rua e sensação constante de desordem urbana. Ao fim da gestão, essas queixas continuavam entre as mais fortes.
Isso ficou ainda mais evidente no quarto mandato. A prefeitura aprovou a criação da Força Municipal, armou a Guarda Municipal e voltou a falar em ordenamento, mas o chamado choque de civilidade não teve a intensidade prometida. O ordenamento, que tinha sido uma marca forte do início de suas primeiras gestões, reapareceu mais como discurso do que como resultado uniforme pela cidade.
No urbanismo, o mesmo raciocínio vale para a revitalização do Centro e da zona portuária. Houve transformação real. Houve nova circulação. Houve nova paisagem. Mas também surgiram críticas sobre valorização imobiliária, uso seletivo do espaço urbano e uma sensação de que parte da cidade renovada foi pensada mais para investimento, consumo e imagem do que para enfrentar de frente a desigualdade urbana histórica do Rio. É a velha pergunta que acompanha quase toda grande obra carioca: para quem essa cidade foi feita?
Ainda assim, reduzir Eduardo Paes a marketing seria simplório. Ele mudou demais o Rio para caber nessa caricatura. Só que comprar a versão oficial de um legado linear, técnico e harmonioso também seria ingenuidade. Seu governo deixou parques, corredores, intervenções urbanas e programas que alteraram a cidade. Deixou também promessas incompletas, desequilíbrios territoriais e uma rotina urbana que seguiu muito aquém do brilho das apresentações.
No fim, a maior marca de Eduardo Paes talvez seja essa combinação de força e ambiguidade. Foi o prefeito que mais tempo governou o Rio e usou esse tempo para imprimir um projeto claro de cidade. Um projeto baseado em obra, imagem, mobilidade, centralidade política e ambição urbana. Mas também foi o prefeito sob o qual a cidade continuou esbarrando em velhos limites, velhos desarranjos e velhas desigualdades.
Não é pouco. Mas também está longe de ser unanimidade. E agora cabe a Eduardo Cavaliere manter o que está certo e resolver o que está errado.