
No Rio de Janeiro, cidade onde por vezes sobrenomes carregam histórias e trajetórias públicas se entrelaçam com a memória urbana, um novo capítulo de um caso recente começa a ganhar contornos mais amplos. Após ter seu nome associado a uma operação da Polícia Federal que investiga o acesso indevido a dados fiscais sigilosos, o empresário Marcelo Fernandez Conde – que chegou a ter a prisão decretada – decidiu se manifestar publicamente.
Segundo reportagem da revista Veja, uma investigação conduzida sob relatoria do ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, apontou o Conde como figura central de um suposto esquema de obtenção e vazamento de dados fiscais sigilosos de autoridades. Moraes chegou a decretar a prisão preventiva do empresário, no contexto da Operação Exfil, que apura o acesso ilegal a informações de pelo menos 1.819 contribuintes — entre eles ministros do STF, integrantes do Tribunal de Contas da União, parlamentares e familiares, incluindo dados da própria esposa do ministro. A Polícia Federal sustenta que haveria uma estrutura organizada para obtenção dessas informações, e que Conde teria atuado como “mandante” desse sistema.
Filho do ex-prefeito é famoso arquiteto Luiz Paulo Conde – já falecido – figura conhecida da vida política carioca, Marcelo divulgou uma nota à imprensa na qual apresenta sua versão dos fatos e contesta, de forma direta, as acusações que vieram a público nas últimas semanas. Conde presidiu uma conhecida associação em defesa do Rio e atua no mercado imobiliário através da incorporadora STX, que ficou conhecida do grande público pelo patrocínio ao Botafogo (2019 a 2022) e ao Fluminense (2018).
Logo na abertura do documento, o empresário afirma: “Em 1º de abril de 2026, fui alvo de uma operação policial e, mais de 20 dias passados, ainda não se teve acesso aos autos do procedimento investigatório.” Segundo ele, essa situação compromete sua capacidade de defesa: “Essa recusa me impede de me defender e fere diversas garantias que nenhum cidadão deveria ter de reivindicar em uma democracia.”
A operação, que ganhou repercussão nacional por envolver dados ligados à família do ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, integra uma investigação mais ampla sobre possíveis acessos irregulares a sistemas da Receita Federal. À época, a ação mobilizou equipes no Rio e em São Paulo e colocou o nome do empresário no centro das apurações.
Na nota, Marcelo Conde critica a forma como a ação foi conduzida. Ele classifica o episódio como “ação judicial truculenta, digna de regime de exceção”, e afirma que ele e sua família foram surpreendidos não apenas pelas buscas, mas também pela repercussão pública do caso. Segundo o texto, houve “uma exposição avassaladora à imprensa, ao que consta, orientada pelo Ministro Alexandre de Moraes.”
O empresário também faz críticas à condução institucional do inquérito, afirmando que o magistrado “embaralha os papéis de investigador, acusador, juiz e ofendido”, em referência ao fato de o caso envolver dados relacionados à esposa do ministro, a advogada Viviane de Moraes.
Apesar do tom contundente em relação ao processo, o ponto central da manifestação está na negativa das acusações. Marcelo Conde declara: “É necessário refutar com veemência a imputação: as acusações descabidas veiculadas na imprensa, a partir dessa operação, não correspondem à realidade.” E reforça: “Nunca atuei ou participei de qualquer organização voltada à obtenção de dados sigilosos.”
Ao mencionar sua trajetória, ele destaca sua longa atuação profissional: “São mais de 45 anos de atividades profissionais e empresariais, além de profundo vínculo com ações de classe e recreativas apolíticas.”
Outro ponto levantado na nota diz respeito às apreensões realizadas durante a operação. Segundo ele, houve excessos: “Foram apreendidos celulares e dispositivos eletrônicos pertencentes a familiares meus, a despeito de os mandados judiciais indicarem, como destinatário específico, apenas à minha pessoa.”
Marcelo Conde também rebate a ideia de que teria se colocado fora do alcance das autoridades: “Não me recusei a me apresentar às autoridades públicas e jamais estive na condição de foragido, embora essa versão fosse conveniente a meu acusador.”
O empresário afirma ainda que os efeitos da operação já são concretos em sua vida: “Os danos causados à minha reputação e à minha família são concretos e se refletem no campo profissional, econômico e pessoal.”
Ao final da nota, ele sustenta que pretende se defender dentro dos marcos legais e faz referência aos princípios constitucionais: “Pretendo me defender em ambiente de direito à informação, à ampla defesa, ao devido processo legal e à imparcialidade jurisdicional.” E conclui: “Se me forem conferidos tais mínimos direitos individuais, será possível contribuir com a verdade e resgatar, como cidadão, valores universais que sustentam o Estado Democrático de Direito.”
Até o momento, as autoridades responsáveis pela investigação não se manifestaram sobre o teor da nota. O espaço permanece aberto para eventuais posicionamentos.