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As irmandades que ajudaram a construir o Rio e atravessaram uma grande transformação no século XIX

Festa de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, a 8 de Setembro de 1937, no Arco do Teles – Travessa do Comércio / Foto: Irmandade de N. S. da Lapa, Divulgação

Durante séculos, as irmandades religiosas estiveram entre as instituições mais influentes do Rio de Janeiro. Muito antes de existirem secretarias de assistência social, fundações culturais ou mesmo parte da estrutura pública que conhecemos hoje, confrarias formadas por comerciantes, artesãos, militares, funcionários públicos e homens comuns ajudavam a sustentar igrejas, socorrer necessitados, organizar festas religiosas e moldar a própria vida urbana da cidade.

Quem percorre hoje as ruas do Centro Histórico talvez não imagine que boa parte dos templos, procissões e tradições que marcaram a história carioca nasceu justamente dessas associações de leigos. Em uma época em que a religião ocupava papel central na vida cotidiana, as irmandades constituíam uma verdadeira rede de sociabilidade, assistência e devoção que atravessava praticamente todos os setores da sociedade.

O Rio de Janeiro do século XIX era uma cidade profundamente diferente daquela que conhecemos. As ruas estreitas do Centro eram frequentemente tomadas por procissões. Imagens sacras saíam dos templos acompanhadas por estandartes, tochas, música e multidões de fiéis. As festas dos padroeiros movimentavam bairros inteiros. As igrejas não eram apenas locais de oração, mas centros de encontro, identidade e convivência.

As irmandades estavam no coração desse universo.

Ao contrário do que muitos imaginam hoje, elas não eram meros grupos de oração reunidos em torno de uma devoção específica. Possuíam estrutura administrativa própria, patrimônio, receitas, compromissos escritos, cargos eletivos e responsabilidades concretas. Muito mais do que hoje, administravam dezenas de milhares de imóveis, alugavam casas, cuidavam de terrenos, arrecadavam rendas, financiavam obras, mantinham igrejas e organizavam celebrações que mobilizavam centenas ou mesmo milhares de pessoas.

O historiador Anderson José Machado de Oliveira lembra que essas instituições desempenhavam ainda um papel essencial na assistência social, frequentemente suprindo funções que caberiam ao próprio Estado. Em uma sociedade sem previdência pública, sistema universal de saúde ou rede estatal de assistência, as irmandades ajudavam irmãos enfermos, financiavam funerais, socorriam necessitados e garantiam amparo aos seus membros.

Essa presença era tão marcante que as confrarias se transformaram em importantes instrumentos de organização da vida urbana e religiosa da cidade, atuando lado a lado com autoridades civis e eclesiásticas e exercendo influência que, em muitos aspectos, ajudava a definir o funcionamento cotidiano da própria cidade.

As igrejas que construíam e mantinham eram motivo de orgulho. Muitas vezes erguidas com recursos arrecadados entre os próprios irmãos, tornavam-se referências de bairros inteiros. As confrarias zelavam pelos altares, imagens, paramentos e celebrações, cuidando para que seus templos refletissem o prestígio e a devoção de seus membros.

As festas religiosas ocupavam lugar especial nesse mundo. Muito além das cerimônias litúrgicas, constituíam momentos de encontro social, reforço de laços comunitários e afirmação pública da fé. Procissões cruzavam a cidade, congregando moradores de diferentes condições sociais. As ruas transformavam-se em cenário de manifestações religiosas que eram, ao mesmo tempo, acontecimentos espirituais e eventos sociais.

Também faziam parte desse universo os tradicionais banquetes confraternais. Herdeiros de costumes medievais trazidos de Portugal, esses encontros reuniam os irmãos após determinadas solenidades religiosas. Comer juntos era uma forma de fortalecer os vínculos da confraria e celebrar a comunhão entre seus membros. Aos olhos dos participantes, tratava-se de uma continuação natural da festa religiosa.

Era, portanto, um catolicismo profundamente vivido nas ruas, nas casas, nas igrejas e na convivência cotidiana.

Mas justamente quando as irmandades alcançavam grande influência, a Igreja Católica atravessava uma fase de profundas transformações.

Na segunda metade do século XIX, os bispos brasileiros passaram a participar de um amplo movimento de renovação religiosa que aproximava cada vez mais o país de Roma. Inspirados pelos princípios da chamada Reforma Católica ou Romanização, procuravam fortalecer a autoridade episcopal, reformar a formação do clero e incentivar práticas religiosas consideradas mais alinhadas às orientações da Santa Sé.

Nesse contexto, as antigas irmandades tornaram-se objeto de crescente atenção.

Não porque fossem vistas como inimigas da Igreja. Pelo contrário. Eram instituições católicas por excelência e desempenhavam papel fundamental na manutenção da vida religiosa. O problema residia no fato de que haviam crescido ao longo de séculos com ampla autonomia.

Muitas confrarias administravam seus próprios bens, controlavam igrejas, organizavam festas e tomavam decisões internas com pouca interferência externa. Seus capelães frequentemente atuavam de acordo com as necessidades definidas pelas mesas administrativas compostas por leigos. Essa realidade havia se consolidado ao longo de gerações e parecia perfeitamente natural para os irmãos.

Para os bispos reformadores, entretanto, surgia uma questão delicada. Como harmonizar essa tradição de autonomia leiga com uma Igreja que buscava maior unidade disciplinar e maior centralização de autoridade?

Foi dessa diferença de perspectivas que nasceram algumas tensões.

O bispo Dom Pedro Maria de Lacerda, uma das figuras centrais desse período, demonstrava preocupação com o elevado grau de independência das confrarias cariocas. Em correspondência da época, chegou a descrever ordens terceiras, irmandades e confrarias como verdadeiros “Estados dentro do Estado”, observando que administravam seus bens e propriedades com grande liberdade.

Ainda assim, a realidade mostrou-se mais complexa do que qualquer projeto de reforma.

As irmandades possuíam raízes profundas na sociedade carioca. Eram respeitadas pelos fiéis, controlavam patrimônios significativos e desempenhavam funções religiosas e sociais que continuavam indispensáveis. Reformá-las integralmente revelou-se tarefa muito mais difícil do que os bispos inicialmente imaginavam.

Com o passar do tempo, o próprio discurso mais duro de alguns setores reformadores acabou sendo suavizado. Em vez de propor mudanças radicais ou a substituição das antigas confrarias, cresceu a percepção de que seria mais prudente aproximá-las gradualmente das orientações da Igreja.

Afinal, como observou o próprio processo histórico, as irmandades continuavam sendo uma das principais pontes entre a fé católica e a população.

O resultado foi um longo processo de adaptação mútua. A Igreja procurou fortalecer sua autoridade e uniformizar práticas religiosas. As irmandades, por sua vez, preservaram boa parte de suas tradições, identidade e memória histórica.

Mais de um século depois, essa herança ainda permanece muito visível no Rio de Janeiro, e mais de 50 irmandades permanecem ativas, se não com importância a rivalizar com o Estado, com dezenas de obras sociais de alta importância, e muito atuantes no dia-a-dia do carioca.

Ela está presente nos templos erguidos e preservados por confrarias seculares. Nas procissões que continuam percorrendo ruas históricas. Nas imagens veneradas por gerações sucessivas de cariocas. Nos arquivos, livros e compromissos que registram séculos de devoção. E também nas instituições que sobreviveram às transformações políticas, sociais e religiosas da cidade. Embora muitas tenham perdido parte da influência que exerciam em outros tempos, as irmandades continuam ativas, administrando patrimônios, mantendo obras assistenciais, escolas, asilos, cemitérios, orfanatos, hospitais e outras iniciativas que preservam sua presença na vida religiosa e social da cidade.

Conhecer a história das irmandades é compreender que o Rio antigo não foi construído apenas por governadores, vice-reis, imperadores ou grandes comerciantes. Foi também obra de milhares de homens e mulheres comuns que encontraram nessas confrarias uma forma de expressar sua fé, praticar a caridade e participar ativamente da construção da cidade.

E talvez seja justamente essa combinação de devoção, solidariedade e participação cívica que explique por que, passados tantos séculos, as irmandades continuam ocupando um lugar singular na memória do Rio de Janeiro.

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