Quem passa pela Praça XV após o anoitecer dificilmente percebe que está diante de um dos monumentos mais importantes da história do Rio de Janeiro. A Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé, antiga Catedral da cidade e integrante de um dos conjuntos arquitetônicos mais relevantes do país, permanece sem a iluminação pública e cênica que durante anos destacou sua fachada monumental e ajudou a valorizar a paisagem histórica da região.
A situação chama atenção porque a igreja foi objeto de um dos mais importantes projetos de restauração patrimonial realizados no Centro do Rio nas últimas décadas. Reinaugurada em 2008, após uma ampla recuperação promovida durante as comemorações do bicentenário da chegada da Corte Portuguesa ao Brasil, a Antiga Sé voltou a ocupar lugar de destaque na vida cultural e turística da cidade. O restauro custou milhões e devolveu à igreja seu protagonismo.
As obras restauraram elementos artísticos, recuperaram ambientes históricos, revelaram achados arqueológicos e devolveram ao monumento parte do esplendor acumulado ao longo de mais de três séculos de história. O projeto incluiu ainda um moderno espetáculo de som e luz, que durante anos apresentou aos visitantes a trajetória do edifício e do próprio Rio de Janeiro, tornando-se uma das atrações culturais mais lembradas do Centro naquele período.
Além da recuperação interna, a fachada passou a contar com uma feérica iluminação cênica que valorizava suas linhas arquitetônicas e destacava, durante a noite, um dos cenários históricos mais importantes da cidade. O engenho era mantido pela Prefeitura. Vista da Praça XV, da Rua Sete de Setembro ou da Rua Primeiro de Março, a antiga Catedral tornava-se um dos principais pontos de referência do Centro Histórico carioca.
Esse cenário, entretanto, ficou no passado por causa de uma falha na engenharia das reformas urbanas para instalação do VLT..
Segundo apuração do DiIÁRIO, a grande infraestrutura responsável pela iluminação cênica deixou de funcionar após as grandes intervenções urbanas realizadas na região durante as obras do VLT. Desde então, o sistema, que era público – por conta da beleza do monumento tombado pelo Iphan – nunca voltou a operar. Algum erro de engenharia ocorreu que afeta até hoje o turismo e a ambiência na região.
A reportagem apurou ainda que a Paróquia da Antiga Sé encaminhou ao longo dos anos diversos ofícios à Prefeitura solicitando providências para o restabelecimento da iluminação cênica do monumento. Apesar das solicitações, a situação permanece inalterada e a fachada continua sem o sistema que a destacava na paisagem noturna da Praça XV. À noite, o que se vê é um breu.
O contraste é evidente para quem conheceu a região antes das intervenções. Enquanto o edifício permanece restaurado e preservado, sua presença visual durante a noite praticamente desapareceu. A iluminação pública convencional existente no entorno não substitui o antigo projeto cênico concebido especificamente para valorizar a arquitetura do monumento.
A ausência dessa iluminação também afeta um dos principais corredores culturais do Centro do Rio. Nos últimos anos, a região da Praça XV, Primeiro de Março e Rua do Ouvidor consolidou-se como uma das áreas mais dinâmicas da cidade, concentrando museus, centros culturais, igrejas históricas, espaços gastronômicos, eventos, roteiros turísticos e novos empreendimentos residenciais. Trata-se de uma área frequentemente apontada por especialistas e urbanistas como um dos principais polos de revitalização e economia criativa do município.
Nesse contexto, chama atenção que justamente um dos edifícios mais emblemáticos da região permaneça sem a valorização luminotécnica que recebeu após sua restauração. À noite, a igreja acaba perdendo protagonismo visual em uma área que vem sendo cada vez mais ocupada por moradores, turistas e frequentadores de atividades culturais. Isso num momento em que até a outrora dilapidada sede do IBAMA, logo em frente, foi restaurada.
A questão também possui reflexos urbanos. Monumentos iluminados ajudam a compor a paisagem, reforçam a identidade dos espaços públicos e ampliam a percepção de segurança em áreas de grande circulação. No caso da Antiga Sé, a ausência da iluminação cênica faz com que um dos principais marcos arquitetônicos da Praça XV desapareça da paisagem justamente no período em que a região recebe público para bares, restaurantes, centros culturais e eventos noturnos.
Mais de quinze anos depois da grande restauração que devolveu à cidade um de seus monumentos mais importantes, a Antiga Sé continua preservada em seu interior e em sua arquitetura. Mas, ao cair da noite, parte significativa do impacto visual que marcou sua recuperação permanece apagada. Apagada como até pouco tempo estava a região; agora que floresce o Centro, não faltará quem diga que acender a velha Catedral à noite pode coroar o sucesso do programa Reviver Centro.