Durante o debate “O Rio tem jeito?”, realizado nesta sexta-feira (24), na Casa República, durante a Feira Literária Internacional de Paraty (FLIP), estudiosos afirmaram que o Estado precisa construir políticas públicas baseadas em dados, investigação e redução das desigualdades, e abandonar as respostas usadas há décadas para as situações desafiadoras que enfrenta.
O debate contou com a participação de Fábio Giambiagi, Cecília Olliveira, Raull Santiago e Ricardo Henriques, que apontaram a Segurança Pública como um dos temas decisivos da disputa eleitoral de 2026.
No encontro, os estudiosos discutiram o avanço das facções criminosas e das milícias, a expansão da criminalidade pelo Brasil, os impactos da desigualdade e a necessidade de formular políticas que ultrapassem a lógica exclusivamente policial.
Autora do livro Como Nasce um Miliciano e fundadora do Instituto Fogo Cruzado, Cecília Olliveira afirmou que há sinais de mudanças nas estratégias adotadas no combate ao crime. Segundo Cecília, operações baseadas em investigação, dados e inteligência representam alternativas ao modelo de confronto permanente, mas são “desprezados” nas políticas estaduais de segurança pública.
Cecília Olliveira também alertou sobre a mudança do Brasil dentro do tráfico internacional de drogas. O País deixou de ser apenas uma rota de distribuição de drogas, para ocupar uma posição de destaque na cadeia de produção e refino, nesta última o Brasil tornou-se o grande protagonista global,
Para a jornalista, o Estado teve responsabilidade na criação das estruturas criminosas que hoje desafiam o Rio: “Todas as facções foram criadas com o nosso dinheiro, dentro do sistema penitenciário. Nós financiamos isso e agora financiamos o combate a algo que nós criamos, alimentamos e fermentamos”.
O ativista Raull Santiago, fundador do Instituto Papo Reto, alertou sobre o impacto da violência sobre moradores das periferias. Santiago destacou que a fragmentação territorial fluminense também foi resultado de escolhas políticas de vários governos.
Segundo Raull, os diferentes modelos de ocupação policial não conseguiram romper ciclos de violência. Com isso, as periferias devem ser reconhecidas como espaços de produção de soluções: “Na favela, a gente não fragmenta. A gente costura, cria pontes, dá o braço. A favela constrói soluções para crises”, disse.
O presidente do Instituto Unibanco e conselheiro da Anistia Internacional Brasil, Ricardo Henriques relacionou os desafios do Rio de Janeiro à própria crise democrática brasileira. Por isso, para enfrentar a violência, o Estado deve compreender como a milícia, e o que ele chamou de extrema direita, se organizaram com base na naturalização da violência:
“A agenda possível de trazer uma visão de retomada do Rio de Janeiro passa pela radicalização da democracia. Se for viável um novo Rio, talvez seja viável um novo Brasil”, afirmou.
Por fim, o economista Fábio Giambiagi, especialista em contas públicas e desenvolvimento econômico, refletiu sobre os desafios estruturais da administração estadual e sobre como recuperar a sua capacidade de planejamento.
Ao final da debate, os participantes concluíram que a reconstrução do Rio depende de uma sinergia entre Segurança Pública eficiente, investimento social, fortalecimento institucional e capacidade de enfrentar estruturas criminosas que ampliaram sua influência econômica e política.