
Antônio Sá
Fiscal de Rendas aposentado do Município do Rio de Janeiro, Ex-Subsecretário de Assuntos Legislativos e Parlamentares do Município do Rio de Janeiro Bacharel em Direito e Economia.
Giuliano da Empoli, um dos mais respeitados analistas políticos europeus da atualidade, alcançou notoriedade internacional com dois livros que antecedem a obra aqui analisada.
O primeiro deles, publicado em 2019, foi “Os engenheiros do caos: como as fake news, as teorias da conspiração e os algoritmos estão sendo utilizados para disseminar ódio, medo e influenciar eleições”. Neste livro, Da Empoli investiga como a extrema-direita global tem explorado as redes sociais, o Big Data e os algoritmos para manipular as emoções das massas, espalhar teorias da conspiração e influenciar eleições em diversas partes do mundo. Ele revela, com exemplos concretos, como estrategistas digitais como Steve Bannon criaram uma máquina de desinformação e medo, capaz de transformar o ódio e o ressentimento em capital político.
Já em 2022, Da Empoli lançou “O mago do Kremlin”, um romance político que se tornou um fenômeno editorial e venceu o Grande Prêmio de Romance da Academia Francesa. Inspirado na trajetória real de Vladislav Surkov, o poderoso estrategista do regime de Vladimir Putin, o livro oferece um mergulho perturbador nos bastidores do Kremlin. Misturando realidade e ficção, Da Empoli mostra como o cinismo, a manipulação das massas e o domínio absoluto da informação foram usados para construir um regime autocrático implacável — e como essas práticas têm ecos em outros regimes pelo mundo.
Agora, em “A hora dos predadores: como autocratas e magnatas digitais estão levando o mundo à beira de um colapso orquestrado”, publicado no Brasil pela Editora Vestígio em 2025, Giuliano da Empoli amplia e aprofunda suas análises anteriores.
Nesta nova obra, ele retrata um mundo comandado pelos “borgianos” — uma nova elite de líderes implacáveis e oligarcas tecnológicos, inspirados na célebre família Bórgia, que usam ciberataques, manipulação de dados e guerras de narrativas para remodelar o planeta segundo seus interesses.
A Introdução: Montezuma e Cortés — A Parábola da Decadência
O livro abre com uma poderosa metáfora histórica: o episódio em que Montezuma II, imperador asteca, recebe notícias da chegada de Hernán Cortés e seus homens ao Império Asteca. Diante dos relatos de que os invasores usavam armas desconhecidas, armaduras de metal e cavalos — criaturas nunca vistas pelos astecas —, Montezuma hesita. Enquanto alguns defendem expulsar imediatamente os estrangeiros, outros temem que eles sejam deuses.
Sem saber o que fazer, Montezuma escolhe a indecisão: envia presentes aos espanhóis para impressioná-los, mas proíbe sua aproximação da capital. Como costuma acontecer nesses casos, termina com o pior dos desfechos: perde a honra e também a guerra.
O autor traça um paralelo entre essa história e o comportamento recente das democracias ocidentais diante dos “conquistadores da tecnologia” — oligarcas digitais e magnatas do Vale do Silício. Assim como Montezuma, os líderes atuais se ajoelham diante dos novos poderes, pedem favores, centros de pesquisa e selfies, enquanto, pouco a pouco, perdem sua autoridade.
Segundo Giuliano da Empoli, a “hora dos predadores” chegou: o mundo está entrando em um ciclo em que tudo será decidido pela força, e não mais pelo diálogo ou pela diplomacia.
Ele conclui a introdução explicando que esse livro é o relato dessa transformação, escrito como se fosse um antigo escriba asteca, para registrar o último suspiro de um mundo prestes a desaparecer, enquanto um novo e gélido império começa a se instalar.
Primeiro Capítulo: Nova York, setembro de 2024
O primeiro capítulo do livro narra, com detalhes ricos e cenas entrelaçadas, o ambiente caótico e tenso da Assembleia Geral da ONU, em setembro de 2024. Giuliano da Empoli descreve como a ONU funciona como um grande teatro físico e simbólico, onde líderes, assessores e seguranças disputam espaço em meio a crises geopolíticas.
O capítulo começa com o foco nos acompanhantes do presidente da Autoridade Palestina, descritos como homens cansados, marcados pela história, que apenas despertam diante de uma palavra inesperada durante o encontro de líderes. Em seguida, o autor apresenta Luiz Inácio Lula da Silva como um líder singular, com carisma incomparável, capaz de provocar emoção e humor, com um percurso impressionante — de operário a presidente do Brasil, passando por prisão, absolvição e retorno ao poder.
O capítulo também registra cenas de bastidores marcadas por tensões entre seguranças, empurrões e choques de poder nos corredores estreitos da ONU, que por vezes são desarmados por reconhecimentos entre líderes, como no encontro entre o presidente chileno Gabriel Boric e outro chefe de Estado.
Giuliano da Empoli compara a política atual às séries de TV, revelando que, nos bastidores, ela se parece cada vez menos com a idealização de The West Wing e muito mais com o cinismo de House of Cards e a comédia de erros de Veep. Segundo o autor, a política contemporânea é, majoritariamente, um jogo de farsas e absurdos, onde predomina o improviso desastroso, com uma pequena fração de heroísmo ou idealismo.
O capítulo segue com relatos tensos das negociações diplomáticas envolvendo Israel, Irã, Hezbollah e França, destacando o papel persistente da Rússia e lembrando a figura de Vladislav Surkov, o estrategista do Kremlin, que defendia a teoria de que todo império precisa exportar seu caos para sobreviver.
Em um momento particularmente dramático, o presidente francês Emmanuel Macron encontra o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, visivelmente abatido. No final da reunião, Zelensky sussurra algo a Macron, numa cena carregada de tensão e emoção, até que Macron, com o rosto rígido, relaxa um pouco e diz: “É uma ideia”.
O capítulo encerra com uma reflexão amarga sobre o peso da política, o desgaste inevitável dos líderes e o retorno da guerra como ferramenta central de poder global. Da Empoli mostra como, atualmente, a guerra foi “normalizada” como solução política, os gastos militares explodiram e o risco nuclear voltou com força, levando o relógio do apocalipse ao ponto mais próximo da meia-noite desde 1947.
Segundo Capítulo: Florença, março de 2012
Neste capítulo, Giuliano da Empoli narra uma experiência pessoal em Florença, em março de 2012, quando participou de uma missão científica no Palazzo Vecchio, com o objetivo de localizar vestígios da obra inacabada A Batalha de Anghiari, de Leonardo da Vinci, escondida sob os afrescos de Vasari.
O autor detalha como Leonardo, ao criar essa pintura, quis representar a guerra em toda a sua brutalidade, inspirando-se nas campanhas violentas de Carlos VIII na Itália, onde a guerra total foi reintroduzida. Os franceses, endurecidos pela Guerra dos Cem Anos, impunham uma ferocidade brutal, matando populações inteiras e destruindo vilarejos, como narra Guicciardini. Leonardo retratou o combate como um caos feroz, semelhante a uma luta entre bestas selvagens, com fumaça, artilharia e violência descontrolada.
O autor descreve o fracasso da missão em encontrar o afresco, mas faz um paralelo entre a brutalidade da obra e o mundo atual. Segundo ele, a fúria guerreira evocada por Leonardo ressurgiu nas guerras contemporâneas — na Líbia, no Oriente Médio, na Ucrânia — e nos ataques russos na Europa, incluindo assassinatos, sabotagens, incêndios e ciberataques contra eleições e infraestruturas.
Da Empoli explica que estamos em um novo ciclo histórico, no qual a tecnologia ofensiva avança mais rápido do que a defensiva. Isso barateia os ataques e aumenta a frequência dos conflitos, como ocorreu no tempo de Leonardo com a proliferação da artilharia. Ele relembra que, no passado, a “dissuasão nuclear” manteve a paz durante a Guerra Fria, mas hoje, com drones baratos, mísseis hipersônicos e ciberataques, o custo de atacar é muito menor do que o de se defender.
O autor menciona também os perigos da biotecnologia e da inteligência artificial. Comenta que sintetizadores de DNA acessíveis podem permitir a criação de patógenos mortais e que até mesmo o ChatGPT, na versão mais recente lançada no final de 2024, foi classificado pela própria OpenAI como risco elevado para o desenvolvimento de armas químicas e biológicas, embora tenha sido comercializado.
Por fim, Da Empoli traça um alerta sombrio: assim como a República Florentina sucumbiu à violência após a tentativa de Leonardo de retratar a batalha, as democracias atuais, ainda aparentemente estáveis, podem não resistir ao avanço dos novos autocratas e oligarcas tecnológicos, que lideram o mundo para uma nova era de violência descontrolada. Segundo ele, as forças defensoras da liberdade parecem mal preparadas para o que está por vir.
Terceiro Capítulo do Livro: Riade, novembro de 2024
Neste capítulo, Giuliano da Empoli descreve sua visita ao Ritz-Carlton de Riade, onde se encontra com Mohammad bin Salman (MBS), príncipe herdeiro da Arábia Saudita, que recebe CEOs de grandes empresas em um ambiente luxuoso e opulento. MBS é apresentado como um homem de sorriso doce e comportamento afável, lembrando um “gigante bondoso”.
O capítulo expõe o contraste entre a imagem atual de MBS, associada ao progresso e a projetos futuristas ambiciosos — como cidades sem emissão de carbono, megaconstruções e investimentos em inteligência artificial —, e seu passado recente marcado por brutalidade política.
O autor narra em detalhes o episódio ocorrido em novembro de 2017, quando MBS convocou centenas de príncipes, ministros e bilionários sauditas ao palácio real com pretextos diversos. Ao chegarem, foram privados de seus pertences e confinados no próprio Ritz-Carlton, transformado em prisão de luxo. Receberam kits com roupas brancas padronizadas e foram submetidos a interrogatórios severos, alguns conduzidos por mercenários estrangeiros, com relatos de tortura e até mortes.
O episódio, que rendeu ao Estado saudita mais de 100 bilhões de dólares, serviu como um expurgo: eliminou rivais e consolidou o poder absoluto de MBS. Para o autor, o príncipe é comparável a César Bórgia, personagem central de O Príncipe, de Maquiavel — um governante implacável, que mistura charme e violência para manter o controle.
O autor ainda descreve a nova elite em torno de MBS — jovens príncipes e aliados que assumiram o comando do país após o expurgo da velha guarda —, retratando um ambiente que mistura luxo, jogos eletrônicos e excessos privados, como um clube exclusivo de vencedores de uma aposta arriscada.
Ele faz um paralelo com a época de Maquiavel e Leonardo da Vinci, afirmando que vivemos novamente um tempo maquiavélico, em que o poder não depende mais de legitimidade, mas da capacidade de agir de forma abrupta, violando as regras quando necessário. MBS é visto como um exemplo máximo dessa lógica, agindo com brutalidade inesperada, como demonstrado nos casos do sequestro do primeiro-ministro libanês Saad Hariri, no assassinato de Jamal Khashoggi e no hackeamento de Jeff Bezos.
O capítulo encerra com a reflexão de que o poder hoje se sustenta justamente nessas ações imprevisíveis e chocantes, que surpreendem e aterrorizam o mundo, consolidando a autoridade do príncipe saudita — apresentado como a encarnação contemporânea de César Bórgia.
Quarto Capítulo: Nova York, setembro de 2024 (segundo capítulo com o mesmo título)
Neste capítulo, Giuliano da Empoli narra a participação do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, na Assembleia Geral da ONU, destacando sua figura excêntrica e seu estilo de comunicação chamativo. Bukele sobe à tribuna usando uma túnica azul índigo, criada pela estilista da Miss Universo, com bordados dourados, o que o faz parecer uma mistura de Simón Bolívar e um personagem de Star Wars.
O autor descreve como Bukele construiu sua imagem de líder ousado e populista, autodenominando-se “o ditador mais legal do mundo” e sendo chamado de “rei filósofo” e “caudilho millenial”. Ele detalha as medidas radicais de Bukele contra a criminalidade: em vez de aplicar o Código Penal, o presidente criou um “manual de tatuagens” para identificar membros de gangues e ordenou a prisão em massa de pessoas tatuadas, incluindo criminosos e também inocentes, como fãs de rock.
Os vídeos de presos tatuados, com cabeças raspadas e apenas de cueca, em poses humilhantes nas prisões, viralizaram nas redes sociais, ampliando a fama internacional de Bukele e tornando-o o chefe de Estado mais seguido no TikTok. Apesar das críticas de ONGs e da Anistia Internacional, sua política reduziu drasticamente a taxa de homicídios, tornando El Salvador o país mais seguro do continente.
No discurso na ONU, Bukele afirma: “Alguns dizem que prendemos milhares de pessoas, mas a verdade é que libertamos milhões, agora são os bons que vivem sem medo”. Seu talento retórico chama a atenção até dos especialistas em discursos, que reconhecem sua habilidade técnica como orador.
O capítulo também descreve o avanço político de Bukele dentro de uma democracia formal, mas com práticas autoritárias. Em 2020, quando o Parlamento ameaçou barrar seu plano de segurança, ele entrou na Câmara escoltado pelo exército e ameaçou, de forma velada, seus opositores. Depois, afastou juízes e recandidatou-se à presidência com base em uma interpretação controversa da Constituição.
Nas eleições de fevereiro de 2024, Bukele foi reeleito com 84% dos votos, em pleito considerado regular por observadores internacionais. Seu partido, Nuevas Ideas, conquistou quase todas as cadeiras do Parlamento. Ao comentar sobre o domínio político absoluto, Bukele rejeita as críticas e afirma que, em todas as democracias, o objetivo é vencer o máximo possível. Segundo ele, não faria sentido limitar seu próprio sucesso apenas para parecer equilibrado como outros países.
Quinto Capítulo: Washington, novembro de 2024
Neste capítulo, Giuliano da Empoli descreve o retorno de Donald Trump ao poder nos Estados Unidos, retratando-o como uma figura emblemática do novo cenário político global. Trump liga para líderes estrangeiros com sua habitual gargalhada e a frase provocativa: “Ha ha ha, I’m back!”. Entre seus apoiadores mais entusiasmados está Nayib Bukele, presidente de El Salvador, que considera o retorno de Trump uma prova de que estava certo em seu modelo de governo.
O autor expõe como Trump, durante a campanha, elogiou as táticas de Bukele e defendeu uma abordagem “realmente brutal” para combater a criminalidade, sugerindo um “dia sem regras” inspirado diretamente no modelo salvadorenho. Também menciona como Trump absorveu o discurso radical do presidente argentino Javier Milei, prometendo cortes violentos no Estado com o apoio de Elon Musk.
O capítulo apresenta uma análise mais ampla sobre como as inovações políticas e comunicacionais passaram a vir da periferia, e não mais do centro. No passado, as estratégias políticas surgiam nos EUA e se espalhavam pelo mundo; hoje, o fluxo se inverteu. Exemplos incluem a Cambridge Analytica e o uso globalizado das redes sociais como terreno de manipulação e guerra de narrativas. Com a internet, o mundo político se transformou numa “Somália digital”, um espaço sem regras dominado por “senhores da guerra digitais” e suas milícias.
O autor argumenta que, ao contrário da década passada, o caos deixou de ser uma arma de insurgentes e tornou-se a marca dos governantes. Os freios institucionais do passado – como o respeito aos direitos humanos e às instituições – perderam valor. Agora, impera a lógica do “pé no acelerador”, sem limites nem moderação, favorecendo líderes como Trump e outros “borgianos”, que prosperam no caos.
Trump é apresentado como um exemplo extremo desse novo perfil de líder: um homem que não lê nem resumos, que opera puramente pela oralidade e pela ação impulsiva. Sua ignorância deliberada não o impede de dominar a política. Pelo contrário, ele encarna uma forma de “genialidade política” adaptada aos tempos atuais, onde capacidade intelectual e inteligência política não têm relação. Políticos tradicionais e “prodígios” de outras áreas fracassam na política porque ignoram essa lógica brutal e imprevisível.
O autor destaca que o poder é, essencialmente, um jogo caótico, no qual apenas quem arrisca sobrevive. Os “borgianos” sabem disso e prosperam. A política de hoje é comparada a um cruzamento entre Veep, Round 6 e O Poderoso Chefão.
O capítulo conclui afirmando que a ascensão dos “borgianos” não é uma aberração, mas uma volta à normalidade histórica, um retorno ao tipo de poder descrito por Plutarco, Suetônio ou Maquiavel. Trump, por exemplo, apoiou publicamente a brutal “festa” de MBS no Ritz-Carlton em 2017, mostrando que os métodos de autocratas estrangeiros agora influenciam líderes ocidentais.
Por fim, Da Empoli destaca a mudança no eleitorado: enquanto liberais e democratas seguem falando em regras, instituições e direitos, os “borgianos” se concentram em temas concretos como criminalidade, imigração e custo de vida, com amplo apoio popular. Nos EUA, isso se reflete até nas profissões: todos os candidatos democratas à presidência e vice-presidência desde 1980 eram advogados; entre os republicanos, nenhum era advogado, e todos venceram. Advogados e políticos são as classes mais odiadas no país – e, na era dos predadores, eles se tornam alvos fáceis da revolta popular.
Sexto Capítulo: Chicago, novembro de 2017
Neste capítulo, Giuliano da Empoli descreve sua participação no jantar inaugural da Fundação Obama, realizado em Chicago, um ano após a eleição de Donald Trump. O evento reunia jovens líderes liberais e progressistas, atraídos pela promessa de um espaço para “pensar o futuro” e enfrentar a ascensão da extrema direita no mundo.
No entanto, o tom do jantar surpreende o autor e os demais convidados. O evento começa com discursos que exaltam o simbolismo da horta orgânica da Casa Branca, cultivada por Michelle Obama, e com a participação de um palestrante conhecido por promover jantares sobre a morte. Logo, os convidados descobrem que a noite será conduzida por “facilitadores de conversa” como Heather, que propõem um roteiro com cinco perguntas pessoais e íntimas.
O autor descreve com ironia o constrangimento geral e conta que um dos membros de sua comitiva, o agente de segurança Rocca, foi alvo de censura ao responder de forma sincera e simples às perguntas impostas. Da Empoli observa que, se Rocca fosse eleitor americano, certamente sairia do jantar inclinado ao trumpismo, e que as outras atividades do encontro — como sessões de meditação, diálogos entre celebridades e um show com Gloria Estefan e o rapper Common — não mudariam isso.
Ele reflete que, com a saída de Obama, o Partido Democrata ficou restrito aos advogados, sem carismas como o do ex-presidente ou o de Bill Clinton, e que o partido passou a focar apenas na representação de minorias, abandonando a luta contra as desigualdades econômicas e a transformação do capitalismo. Isso levou os democratas a se isolarem do eleitorado mais amplo, adotando bandeiras cada vez mais impopulares.
O autor cita, como exemplo, as propostas radicais de Kamala Harris nas primárias de 2020, como abolir a polícia de fronteira e financiar transições de gênero para imigrantes ilegais e presos — temas que depois foram usados contra ela na campanha de Trump em 2024, incluindo um anúncio provocativo que dizia: “Harris é para Elus; Trump é para Você”.
O capítulo destaca que o chamado “wokismo” é um presente para os “borgianos”, pois eleva o conflito social e alimenta o caos que os beneficia. Da Empoli relembra, então, o discurso de Alexander Nix, ex-CEO da Cambridge Analytica, que explicava como sua empresa não vendia produtos, mas “aumentava a temperatura” emocional do ambiente para estimular comportamentos. A metáfora de Nix sobre o cinema resume sua lógica: não se tenta vender Coca-Cola com anúncios, mas sim aumentando o calor da sala para gerar sede.
Segundo o autor, as redes sociais seguem a mesma lógica: elas não mostram o mundo como ele é, mas o distorcem para provocar emoções extremas, manipulando a opinião pública em escala industrial. As plataformas digitais são comparadas a casas de espelhos de parque de diversões, que deformam a realidade para reforçar preconceitos e visões enviesadas.
Da Empoli conclui que todos — elites e massas — estão presos a esse sistema, e que os engenheiros do Vale do Silício deixaram de programar máquinas para programar comportamentos humanos. A frase de Éric Zemmour durante a eleição presidencial francesa de 2022, “eu só vejo aquilo em que acredito”, é citada como síntese brutal desse tempo em que a realidade foi substituída pela percepção manipulada.
Sétimo Capítulo: Montreal, setembro de 2024
Neste capítulo, Giuliano da Empoli relata um almoço sobre inteligência artificial, organizado pelo primeiro-ministro canadense Justin Trudeau em Montreal, em um salão envidraçado no alto de um edifício, com vista para o rio São Lourenço. Trudeau apresenta o Canadá como o centro da “IA responsável”, mencionando os renomados pesquisadores locais Geo?rey Hinton e Yoshua Bengio, ambos premiados e conhecidos por suas preocupações éticas com a inteligência artificial.
No encontro, estão presentes dois dos maiores especialistas mundiais em IA: Yoshua Bengio, que mantém uma postura crítica e ponderada, e Yann Le Cun, chefe do laboratório de IA da Meta (empresa controladora do Facebook, Instagram e WhatsApp). Hinton, citado no texto, também é lembrado como figura importante, mas não participa diretamente da cena.
Bengio alerta para os riscos da inteligência artificial e critica a falta de regulação. Ele defende que governos devem considerar todas as hipóteses, inclusive as mais catastróficas, como a possibilidade de destruição da humanidade. Já Le Cun, com uma postura arrogante e autoritária, minimiza todos os riscos. Na sua visão, a IA não oferece perigo algum e aqueles que dizem o contrário são, segundo ele, imbecis. Sua popularidade nas redes sociais reflete esse tom agressivo.
Le Cun apresenta aos presentes os óculos de realidade aumentada desenvolvidos pela Meta, que ele já usa no encontro. Segundo ele, esses óculos substituirão os smartphones no futuro e vão permitir que cada pessoa viva em sua “própria realidade”, sobrepondo ao mundo real informações, anúncios e efeitos digitais, personalizados conforme o desejo de cada um.
O autor descreve como essa tecnologia ameaça dissolver a realidade compartilhada, permitindo que cada indivíduo tenha uma versão diferente de um mesmo evento, desde um show até um simples passeio. Le Cun celebra essa perspectiva, prevendo que assistentes virtuais saberão tudo sobre nós e anteciparão nossos desejos, fundindo-se aos nossos corpos.
No final do capítulo, Giuliano da Empoli expressa inquietação diante dessa visão de futuro. Enquanto observa a paisagem de Montreal, lembra-se de um painel publicitário em Wuhan, na China, que dizia: “Criamos o futuro com que sonha a humanidade.” A frase ressoa como um alerta sobre o caminho para o qual estamos sendo conduzidos.
Oitavo Capítulo: Paris, setembro de 1931
Neste capítulo, Giuliano da Empoli narra a trajetória de Curzio Malaparte, escritor e jornalista italiano, que, em 1931, vivia uma fase de “leve desgraça” após perder a direção do jornal La Stampa por desentendimentos com o regime de Mussolini — embora ainda circulasse livremente por Paris, desfrutando de cafés e salões literários.
Malaparte, que teve uma vida marcada por contradições e reviravoltas, acabara de publicar seu livro Técnicas de Golpes de Estado, no qual expunha uma visão original e brutalmente realista sobre as novas formas de conquista do poder. Para ele, as revoluções modernas não eram mais protagonizadas por massas populares, mas sim por pequenos grupos de técnicos e homens armados altamente organizados.
O capítulo gira em torno da análise de Malaparte sobre a Revolução Russa de 1917. Ele destaca que o líder bolchevique Trótski compreendeu que o verdadeiro poder do Estado moderno não estava nos palácios, ministérios ou parlamentos, mas nas infraestruturas técnicas — como centrais elétricas, ferrovias, telégrafos e estações de água e gás.
Trótski planejou a tomada desses pontos estratégicos com equipes compostas de marinheiros, operários e técnicos, agindo discretamente e sem levantar suspeitas. Os bolcheviques ensaiaram os ataques, infiltraram-se nos sistemas de comunicação e, no dia 24 de outubro de 1917, executaram o plano, assumindo o controle total em poucas horas, sem resistência e sem necessidade de atacar o governo diretamente.
Malaparte enfatiza que, naquele golpe, nem mesmo Lênin acreditava plenamente na vitória logo após a ação. Lênin, disfarçado, foi ao Palácio Smolny no dia seguinte. Trótski então zombou dele, dizendo: “Por que ainda está disfarçado? Os vencedores não se escondem.”
A lição central do capítulo — extraída do livro de Malaparte — é que o golpe de Estado moderno tornou-se um ato técnico, mais eficaz do que qualquer mobilização popular, uma operação de engenheiros e militares especializados, que dispensa ideologias ou grandes exércitos revolucionários.
Nono Capítulo: Berlim, dezembro de 2024
O capítulo começa com a cena de humilhação pública de Christian Lindner, líder do Partido Liberal-Democrata alemão, que, em 20 de dezembro de 2024, implora por diálogo a Elon Musk nas redes sociais. Lindner tenta convencer Musk de que seu partido, defensor da liberdade econômica, não deve ser confundido com o partido de extrema-direita AfD. Musk, porém, responde imediatamente, afirmando que o AfD é “a única esperança para a Alemanha”.
Após apoiar Bolsonaro, Milei e Bukele, e contribuir fortemente para a vitória de Donald Trump nos EUA, Musk volta seu foco para a Europa, apoiando partidos radicais. Segundo o autor, isso não é mero capricho pessoal, mas um sinal claro de que os magnatas da tecnologia decidiram romper definitivamente com as velhas elites políticas.
Até então, empresários e bilionários dependiam dos tecnocratas de sempre — liberais, sociais-democratas e conservadores — para governar conforme as regras da democracia liberal. Era o chamado “consenso de Davos”, com seu estilo previsível e administrado.
Porém, na “hora dos predadores”, tudo muda. Os novos magnatas da tecnologia, como Musk e Zuckerberg, desprezam as normas e cultuam a destruição criativa. Como os borgianos descritos nos capítulos anteriores, eles são predadores natos: rejeitam os tecnocratas, odeiam a lentidão institucional e acreditam que podem modelar o mundo com suas próprias mãos, usando a velocidade e o caos como armas.
A reeleição de Trump marca essa virada definitiva: os tecnólogos não escondem mais seu desejo de destruir as antigas elites. Antes, eles ainda fingiam aceitar o jogo institucional — como fez Eric Schmidt, do Google.
O capítulo detalha a trajetória de Schmidt, que, nos anos 2000, ajudou a transformar o Google em gigante global. Discreto, com aparência de moderado, Schmidt foi figura central nos governos democratas, especialmente durante a presidência de Obama. Ele foi o arquiteto do “Projeto Narval” em 2012, uma operação eleitoral baseada em dados que permitiu a Obama mapear praticamente todos os eleitores americanos e vencer as eleições por meio de uma campanha de alta precisão tecnológica, não política.
Após essa vitória, Schmidt se tornou o principal conselheiro em tecnologia da Casa Branca, com poder sobre temas como ciência, defesa e inteligência artificial. Os democratas, em troca, blindaram o Google contra investigações antitruste.
O autor afirma que essa proximidade entre democratas e os gigantes da tecnologia os impediu de regular adequadamente essas empresas, mesmo após a vitória de Trump em 2016. A inteligência artificial, em vez de controlada como tecnologia estratégica, foi entregue ao setor privado, que agora se comporta como “Estados-nação”.
Ele compara o avanço dos magnatas da tecnologia ao dos colonizadores espanhóis no México: os conquistadores modernos não teriam chegado tão longe sem a colaboração de elites locais — no caso, democratas como Al Gore e Nick Clegg, que lucraram pessoalmente com essa aliança.
Por fim, o capítulo afirma que a convergência entre borgianos (líderes autoritários) e magnatas da tecnologia é inevitável. Eles governam juntos, eliminando os “advogados” — como o autor chama a elite tecnocrática que ainda acredita em regras, leis e limites.
Os predadores usam seus territórios como laboratórios para o futuro sem freios: MBS cria enclaves ultratecnológicos na Arábia Saudita, Bukele transforma El Salvador em território de bitcoin, Milei sonha com usinas nucleares para IA, e Trump entrega sua administração aos aceleracionistas do Vale do Silício.
O capítulo fecha com uma conclusão sombria: os advogados, derrotados, ainda não entenderam a revolução em curso. Eles pensam que vivem um simples “episódio” político, quando, na verdade, como advertiu o pensador Joseph de Maistre na Revolução Francesa, trata-se de uma nova época histórica.
Décimo capítulo: Roma, outubro de 1998
O capítulo começa com uma reflexão sobre a velhice e seu encanto quando acompanhada de irreverência. O autor narra suas lembranças de Francesco Cossiga, ex-presidente da Itália, conhecido por seu temperamento bipolar, inteligência mordaz e cinismo desavergonhado. Cossiga, que havia sido ministro do Interior durante o sequestro de Aldo Moro e depois primeiro-ministro e presidente, passava seus dias, já idoso, entre piadas ferozes e pequenas perversões políticas.
Ele divertia-se dando entrevistas escandalosas e zombando dos políticos italianos, como o primeiro-secretário do antigo Partido Comunista ou o prefeito de Palermo. Fazia compras em televendas noturnas e foi um dos primeiros políticos a se entusiasmar com o envio de SMS.
Cossiga também gostava de espionagem e tecnologia.
No entanto, um dia, ele rompeu com o governo Prodi, no qual o autor trabalhava, e ajudou a derrubá-lo. Encontrando-o depois, Cossiga respondeu com um gesto despreocupado, como se dissesse que tudo — a política, os SMS, as facas de televendas — era a mesma coisa. Depois, explicou que sua ação foi necessária porque os EUA iriam bombardear o Kosovo e a extrema-esquerda, que sustentava o governo, bloqueava o uso das bases militares italianas. Cossiga lamentava que os americanos não entendessem a ambiguidade italiana, acostumados ao “sim, sim, não, não” do evangelho.
Apesar da decepção política, o autor revela continuar com certa simpatia pelos velhos capazes de provocar o inesperado, como Tolstói (que fugiu de casa aos 82 anos) e Sartre (que no fim da vida abandonou o marxismo para estudar a Torá, traindo seus discípulos).
O capítulo então se volta para Henry Kissinger, que, embora não parecesse da mesma estirpe irreverente de Cossiga, compartilhava de sua sagacidade e ironia. Kissinger manteve-se influente até seus últimos anos, sendo respeitado como conselheiro de líderes mundiais, capaz de voar para a China para dialogar com Xi Jinping.
Ele dizia que o papel de conselheiro era como o de um passageiro ao lado de um motorista rumo ao abismo, encarregado apenas de checar o combustível. Kissinger também dizia que era melhor ser engraçado de propósito do que involuntariamente. Seu conselho para quem quisesse atuar no mundo era simples: “estude a história”, algo que contrasta com a ignorância proposital dos borgianos e dos magnatas da tecnologia, que ignoram o passado deliberadamente.
O autor cita casos como Mark Zuckerberg correndo na Praça da Paz Celestial e Jeff Bezos citando um cientista nazista como inspiração, exemplos da alienação histórica dos tecnólogos atuais.
Kissinger, porém, não era nostálgico: seu interesse pela história o levava a perceber as verdadeiras novidades. Em 2015, por acaso, ele assistiu a uma palestra sobre inteligência artificial e se fascinou. Ali, viu que a IA não era apenas uma nova tecnologia, mas um novo tipo de poder: não uma ferramenta que aperfeiçoa meios, mas uma inteligência que define seus próprios fins, algo que julgava reservado aos humanos.
Ele foi o primeiro a compreender a IA como um desafio político, enquanto os outros ainda a tratavam como mero problema técnico. Para Kissinger, a IA representava um poder borgiano: imprevisível, autoritário, que opera no caos e na surpresa, sem seguir regras nem transparência, controlada por poucos cientistas e empresários.
O capítulo encerra afirmando que, enquanto o século XX foi marcado pelo embate entre Estado e mercado, o verdadeiro dilema do século XXI será a escolha entre o humano e a máquina. A questão central será decidir até onde a sociedade quer submeter suas vidas a sistemas digitais e até onde quer preservar a autonomia humana — mesmo que isso implique abrir mão de eficiência e arcar com o preço dessa escolha.
Décimo primeiro capítulo: Lisboa, maio de 2023
Neste capítulo, o autor narra sua participação em uma reunião a portas fechadas sobre inteligência artificial (IA) em Lisboa, cercado de autoridades globais — líderes políticos, militares, empresários e bilionários. O evento, segundo ele, seria o sonho de qualquer conspiracionista, mas o que se viu foi um espetáculo de impotência.
No palco, Sam Altman (CEO da OpenAI) e Demis Hassabis (CEO da DeepMind) apresentaram suas visões sobre a IA. Altman, com sua aparência tímida e olhar assustado, falava com um tom monótono, mas carregado de ambição ilimitada. Hassabis, mais afável, transmitia uma fé messiânica de que a IA salvaria a humanidade. Ambos demonstravam estar em outra realidade, desconectados da experiência humana comum.
O autor percebeu que fora convidado apenas como o “ser humano” da mesa, para levantar dúvidas, funcionando como um contraponto aos magnatas da tecnologia. Ele refletiu que a IA não apenas ampliaria a inteligência humana, mas também potencializaria a estupidez.
Durante a apresentação, os poderosos presentes — chefes de governo, generais, CEOs — foram tomados por uma inquietação crescente. Eles perceberam que estavam diante de um mundo completamente novo, que não compreendiam e no qual seu poder e suas ferramentas tradicionais não tinham mais utilidade. Mesmo com todo o aparato de segurança à sua volta, eles estavam tão desamparados quanto qualquer pessoa comum diante da IA.
O autor destaca que, na era digital, temos acesso a cada vez mais informações, mas com menos capacidade de prever o futuro. O digital homogeneíza tudo, eliminando o que não pode ser quantificado e abrindo caminho para o caos. Por isso, diz ele, não temos mais futuros como os do passado — o presente se tornou tão instável que futuros de longo prazo parecem impossíveis.
Os borgianos, que prosperam no caos, são os únicos confortáveis nesse novo cenário. Mas Altman e Hassabis oferecem uma alternativa: a IA como nova ordem. Contudo, essa ordem exige fé, não razão. Os especialistas admitem que a IA nunca será capaz de explicar suas decisões de forma compreensível — e os humanos deverão aceitá-la como um ato de fé, como um deus misterioso.
Kissinger, apesar de sua idade avançada e saúde debilitada, estava presente na reunião. Anos antes, após se deparar com a IA, ele havia feito uma pergunta crucial: o que acontecerá com a consciência humana quando a IA superar sua capacidade de interpretar o mundo?
O autor compara a IA às obras de Kafka, especialmente O processo e O castelo, onde o poder é inatingível, incompreensível e opaco. Para os mais pobres, o castelo (a IA) já é uma realidade: entregadores e trabalhadores de aplicativos vivem sob algoritmos que controlam suas vidas, sem intervenção humana. Eles obedecem a ordens automatizadas e, se algo sai errado, não há a quem recorrer.
À medida que a IA avança, o “castelo” se espalha: atinge operários, profissionais liberais, funcionários públicos e, eventualmente, os próprios líderes políticos e grandes gestores. Um dia, os algoritmos demonstrarão sua superioridade até sobre as elites, e o castelo cobrirá todo o planeta. Apenas os “sacerdotes” da IA — os tecnólogos — poderão, por um breve instante, desfrutar desse poder, antes também serem descartados pelo próprio sistema que criaram.
Décimo segundo capítulo: Lieusaint, dezembro de 2024
Neste último capítulo, o autor narra a história do prefeito de Lieusaint, Michel Bisson, um político experiente e pragmático, que enfrenta um problema inédito em sua cidade da periferia parisiense: um caos urbano gerado pelo aplicativo de trânsito Waze.
O Waze começou a desviar milhares de carros de vias expressas para dentro dos bairros residenciais de Lieusaint, transformando as ruas calmas em corredores de tráfego intenso, com riscos constantes para crianças e moradores, poluição e barulho. O aplicativo, focado unicamente em reduzir o tempo de viagem dos motoristas, ignorava completamente os impactos locais.
Bisson, que não é hostil à tecnologia — ele mesmo joga videogames, usa o Waze e acolheu um centro de dados em sua cidade — tentou resolver o problema com mudanças no trânsito: implantou ruas de mão única, reduziu limites de velocidade e até instalou um semáforo propositalmente para desestimular o uso do atalho sugerido pelo aplicativo. As medidas funcionaram apenas em parte.
Ele então descobriu que o Waze depende de cartógrafos voluntários, que classificam as vias. Tentou convencê-los a alterar a classificação de algumas ruas para afastar o tráfego, mas esbarrou no orgulho e nos limites éticos desses voluntários.
Sem alternativas, Bisson recorreu à imprensa. Sua história viralizou e ele ficou conhecido como o “prefeito anti-Waze”. Apesar de desconfortável com essa fama, conseguiu chamar a atenção da empresa. Representantes do Waze vieram de Amsterdã para ouvi-lo. Foram educados, ouviram com atenção, mas era evidente que estavam ali apenas para acalmar os ânimos e não tinham poder real de decisão.
O prefeito sugeriu incluir no aplicativo critérios como a proteção de escolas e hospitais. Os emissários do Waze se mostraram compreensivos, mas nunca mais deram retorno.
No fim do encontro com o autor, já de noite na prefeitura, Bisson sorri e conclui, com um misto de ironia e resignação:
— O senhor acha que eles fizeram alguma coisa?
— Não sei, o que acha?
— Acho que não.
E o capítulo encerra com a frase: “A luta continua.”
O Baile dos Predadores Continua
Ao concluir a leitura de “A hora dos predadores: como autocratas e magnatas digitais estão levando o mundo à beira de um colapso orquestrado”, de Giuliano da Empoli, é impossível escapar à sensação de vertigem.
O autor conduz o leitor por uma sucessão de cidades, personagens e eventos que, juntos, desenham o retrato de um mundo que já não funciona pelas antigas regras da política, da diplomacia ou da economia.
Ele mostra, sem concessões, que as democracias ocidentais cederam o comando a uma nova casta de predadores — bilionários tecnológicos, estrategistas digitais e líderes autocráticos — que operam como novos Césares, indiferentes ao bem comum.
Ao longo de seu percurso, Da Empoli não oferece esperança fácil nem soluções prontas.
Ele apenas expõe, com sua prosa cortante, como as guerras contemporâneas misturam bombas e memes, como as decisões políticas são tomadas por algoritmos opacos e como o futuro já está sendo moldado longe dos olhos do cidadão comum.
O leitor sai deste livro com a amarga impressão de que a humanidade vive, mais uma vez, um momento de cegueira coletiva, comparável ao que antecedeu as grandes tragédias do século XX — mas agora com redes sociais no lugar de panfletos e bots no lugar de milícias.
O que resta é a metáfora final, aquela que encerra o livro e que ecoa nas páginas deste artigo:
Enquanto a água sobe, enquanto o mundo afunda, os predadores seguem dançando em seu baile, indiferentes ao destino do restante da humanidade.
E a pergunta que Giuliano da Empoli deixa no ar, como um desafio ao leitor, permanece pulsando depois da última página:
Estamos preparados para reconhecer que já estamos dentro desse naufrágio? Ou também preferiremos brindar no convés, até que seja tarde demais?
