
Em uma edição extraordinária do Diário Oficial publicada nesta terça-feira (6/jan), a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) exonerou 206 servidores comissionados. A medida, assinada pelo presidente em exercício da Casa, Guilherme Delarolli (PL), é tratada internamente como uma operação de “caça-fantasmas”, diante da suspeita de que parte dos nomeados não cumpria expediente nem exercia, de fato, as funções para as quais foi designada.
As demissões ocorreram mesmo durante o recesso parlamentar e tiveram forte repercussão nos corredores da Assembleia. A lista inclui indicações históricas de políticos e ex-políticos influentes no estado, muitos deles ligados a antigas gestões da Casa, prática comum na Alerj, onde a antiguidade costuma garantir a manutenção de aliados em cargos estratégicos, mesmo após o fim dos mandatos.
64 nomeações ligadas a Sérgio Cabral e Paulo Melo
Levantamento preliminar aponta que, entre os exonerados, ao menos 47 eram indicações do ex-presidente da Alerj Paulo Melo, que comandou o Legislativo fluminense entre 2011 e 2015, e outros 17 tinham ligação direta com o ex-governador Sérgio Cabral, que presidiu a Casa de 1995 a 2003. Até recentemente, nomes associados aos dois ainda ocupavam funções relevantes na estrutura administrativa do Parlamento.
A decisão da atual presidência foi interpretada por servidores e deputados como um movimento para desmontar uma rede de cargos herdada de gestões passadas, marcada por vínculos políticos duradouros e pouca rotatividade.
Familiares e aliados na lista
Entre os nomes mais emblemáticos está o de Susana Neves Cabral, ex-mulher de Sérgio Cabral, que ocupava um cargo na Alerj desde 2016 e foi exonerada nesta terça-feira. Também perdeu a função Marco Antônio Cabral, filho do ex-governador, nomeado desde 2023 para o departamento de arquivo da Casa.
Outro dispensado foi Dilson Avelino da Silva, conhecido como Magrinho, que trabalhou com Marco Antônio Cabral em Brasília, quando ele exercia mandato de deputado federal. Na Alerj, Dilson atuava na assessoria da presidência.
Aliados de Paulo Melo também aparecem com destaque na lista. O treinador de artes marciais Pedro Lukas, frequentemente visto em vídeos ao lado do ex-presidente da Assembleia, estava lotado na presidência da Casa. Já Marcelo Ferreira Neves, que atuou como segurança de Paulo Melo em 2014, ano em que foi baleado ao reagir a uma tentativa de invasão à fazenda do parlamentar, mantinha um cargo comissionado que atravessou diferentes gestões até ser encerrado agora.
Forte suspeita da existência de funcionários fantasmas
Nos bastidores, a nova cúpula da Alerj avalia que parte dos exonerados não comparecia regularmente ao trabalho, o que pode caracterizar a prática de funcionários fantasmas, uma irregularidade recorrente em investigações sobre estruturas administrativas do Legislativo fluminense ao longo dos últimos anos.
A presidência estuda aprofundar a revisão de cargos e funções, cruzando dados de frequência, lotação e atribuições formais. Não está descartado o envio de informações ao Ministério Público e ao Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ), caso sejam identificados indícios de dano ao erário.
Paulo Melo confirma as 47 indicações
Em nota, Paulo Melo afirmou que a exoneração dos servidores é um direito legítimo de quem ocupa o comando da Casa. Disse ainda que Marcelo Neves e Pedro Lukas atuavam atualmente junto à deputada Franciane Mota (MDB), sua esposa, e que ambos prestaram “serviços relevantes” ao longo do período em que estiveram nomeados.
Sobre o conjunto dos 47 indicados ligados ao seu nome, o ex-presidente da Alerj declarou que se tratava de colaboradores que deram continuidade a projetos e atividades desenvolvidos durante sua gestão.
A reportagem também procurou o ex-governador Sérgio Cabral para comentar as exonerações envolvendo nomes de sua família e aliados políticos, mas não obteve resposta até a publicação desta edição.
A expectativa na Assembleia é que novas medidas administrativas sejam anunciadas ainda esta semana, como parte de um processo mais amplo de reorganização interna e de tentativa de recuperação da imagem da Casa, historicamente abalada por escândalos envolvendo corrupção, nepotismo e uso político da máquina pública.
As exonerações fazem parte da varredura administrativa promovida por Guilherme Delaroli (PL), desde a prisão de Rodrigo Bacellar (União). A troca de nomes começou pelos cargos mais altos e agora avança sobre os escalões inferiores.
Na manhã desta terça-feira (6/jan), na primeira edição do Diário Oficial, Delaroli havia feito ajustes pontuais na estrutura administrativa da Alerj, com mudanças em cargos da Procuradoria e dos departamentos de Comunicação, Finanças e Transporte.