
*entrevista por Olav Schrader
Autor de mais de oitenta livros, peças de teatro e roteiros, Gojko Celebic, o mais prolífico escritor dos Balcãs, escolheu o Rio de Janeiro para terminar sua pioneira antologia de 500 anos de poesia brasileira em idioma Sérvio.
Como foi ser censurado pelo regime comunista da antiga Iugoslávia e se exilar ainda jovem para poder seguir com a sua carreira artística?
Eu saí vestindo uma bermuda e sandálias para não despertar a suspeita que ia para o exílio. Eu tinha 22 anos e pedi carona na estrada até a fronteira da Áustria, que cruzei a pé. Dois dias depois estava em Paris, onde passei fome e dormi na rua em frente ao Palace Matignon durante uma semana. Eu já tinha publicado o meu primeiro livro e cada verso dos meus poemas foi minuciosamente devassado pelo aparato de censura estatal. Seria uma loucura continuar minha produção literária e poética nessas condições. Meu pai já estava nos seus últimos dias e ele havia sido torturado das mais diversas maneiras, ele não queria o mesmo destino para mim.
Além de sua carreira artística, você também teve uma importante carreira paralela, certo?
Sim, após a queda do comunismo fui nomeado como o mais jovem embaixador da Iugoslávia, com apenas 38 anos. E representei, como embaixador ou Chargé d’affaires, a três países: Iugoslávia, Sérvia e Montenegro e, finalmente, apenas Montenegro, seguindo as dramáticas mudanças da minha região. Servi como diplomata em dez países, e, entre eles, tive uma breve experiência como embaixador no Brasil também, país que amo e respeito muito. Fui também Chargé d’affaires nas Nações Unidas e na Santa Sé, além de ter sido Ministro da Cultura de Montenegro de 1993 a 1997. Hoje eu sinto que encerrei um longo ciclo de vida. De certa maneira me reconectei com aquele jovem de 22 anos, e voltei a andar de bermuda e chinelos enquanto circulo anônimamente pelo mundo escrevendo meus livros e roteiros.

Como você descreveria seu mundo literário?
Eu enxergo minha obra literária como uma ópera, com muitas vozes e cenas das mais variadas. Um desafio muito gratificante foi atravessar os mais diversos gêneros, num processo que talvez culminou com o meu pseudônimo de Bem Golosovker. Passo pela poesia, pelos romances, pelos contos, pelas peças teatrais e roteiros para cinema e televisão me manifestando artisticamente como se fosse o maestro de uma polifonia que me enche de vida. Tenho também uma linha de crítica política, e acabei de publicar dois volumes sobre a história do movimento da dissidência durante o regime comunista. Sou também apaixonado por resgate cultural e fiz uma compilação sobre a literatura que 128 monges de Montenegro produziram entre os séculos XV e XVIII, e para isto tive que pesquisar nos mosteiros muito material em latim, grego e no idioma eslavônico eclesiástico que, na Era Medieval, foi uma das principais línguas francas do mundo conhecido.
Você também é conhecido pelo seu experimentalismo e pela quebra de convenções. Qual é a sua mais recente aventura para explorar novos formatos?
Lancei recentemente um livro chamado Antologia do Conto Gótico Europeu. Ali aparecem múltiplos autores de países como Finlândia, Rússia, Hungria, Alemanha, Islândia etc. Os contos sombrios e de terror são acompanhados pela biografia de cada um dos autores apresentados. Para o olhar distraído, é apenas uma antologia mais. Mas, na verdade, é um ensaio de uma nova forma narrativa uma vez que todos os autores, com suas biografias e contos, são totalmente fictícios e, ao mesmo tempo, desafiam a realidade por sua aparência de existir, sua verossimilhança que faz a mágica do tangível aceito pela imaginação.
Recentemente, saiu seu primeiro livro traduzido para o português, Escritores Judaicos de Praga, como foi essa experiência?
Me senti como um agente neutro que finalmente entra numa longa disputa entre culturas e nações. Para os Alemães, esses escritores judeus, que escreviam em alemão, eram mantidos no ostracismo ou eram diretamente discriminados. Para os Tchecos, esses círculos de escritores judaicos eram tidos por ovelhas negras, pessoas integradas e ao mesmo estrangeiras em seu próprio país. Para minha surpresa, por conta deste complicado contexto traumático e emocional, percebi que nem alemães e nem tchecos haviam aberto arca deste imenso tesouro cultural. A pequena sociedade, urbana e cosmopolita, que rezava em iídiche, pensava em alemão e tocava a vida em tcheco foi um fenômeno único da literatura mundial. Autores como Franz Kafka, Rainer Maria Rilke ou Edmund Husserl tem além de sua originalidade individual também um caldo cultural e social comum que, incrivelmente, não havia sido abordado com a atenção que merece.


E quais são os planos para a sua atual estada no Brasil?
Atualmente estou produzindo uma antologia de poesia brasileira de 1525 a 2025, são setecentas páginas em grande formato para cobrir estes quinhentos anos de gênio brasileiro. Eu selecionei oitenta e sete poetas, escrevi suas biografias e um realizei um trabalho teórico sobre suas obras, tudo isto no meu idioma natal, o Sérvio. Mas há um segundo projeto também que quero realizar tendo o Rio de Janeiro como cenário, que é o segundo volume da Antologia do Conto Gótico Europeu sobre a qual falei há pouco. Será naquele formato experimental mas agora inspirado pela universalidade do Rio de Janeiro, uma cidade antológica, o que ajuda no processo de criar os diversos personagens e contos contrastantes entre si. Estou também aproveitando para carregar as baterias pois serei o responsável pelo festival de literatura do mundo e de escritores poliglotas, num belo cenário de fiordes mediterrâneos na cidade de Kotor, em Montenegro, em junho deste ano.


