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Cientistas políticos veem Eduardo Paes fortalecido e direita desorganizada na disputa pelo Governo do Rio

O cenário eleitoral do Rio de Janeiro ainda pode passar por mudanças até o registro definitivo das candidaturas, em 15 de agosto, mas uma tendência parece cada vez mais clara: Eduardo Paes (PSD) entra na disputa pelo Governo do Estado fortalecido, enquanto seus principais adversários enfrentam dificuldades para organizar alianças e manter suas chapas competitivas.

A avaliação foi feita pelos cientistas políticos Antônio Mariano e Bruno Kazuhiro durante um bate-papo com o jornalista Quintino Gomes Freire, do DIÁRIO DO RIO. Ao longo da conversa, os três analisaram a movimentação dos prefeitos, a desidratação política do PL, o possível crescimento de Anthony Garotinho (Republicanos) e os reflexos desse rearranjo nas eleições para o Senado, a Câmara dos Deputados e a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).

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O muro está baixo para Eduardo Paes

Na avaliação dos cientistas políticos, a migração de prefeitos e lideranças municipais para o campo de Eduardo Paes é resultado da expectativa de que o candidato do PSD seja o próximo governador do Rio.

Prefeitos de cidades dependentes de repasses e parcerias com o Governo do Estado precisam pensar não apenas na eleição de 2026, mas também na própria reeleição ou na sucessão municipal de 2028. Sem um governador politicamente alinhado ao PL no Palácio Guanabara, cresce o incentivo para que essas lideranças se aproximem de Paes.

O atual ocupante do Governo do Estado, Ricardo Couto, é visto como um administrador temporário e sem um grupo político próprio. Dessa forma, os prefeitos não enxergariam na atual máquina estadual um instrumento eleitoral capaz de garantir apoio à candidatura de Douglas Ruas (PL).

“Para que pular o muro se daqui a pouco o muro pode nem existir mais?”, resumiram os participantes da conversa, em referência ao movimento de políticos de partidos como PP e União Brasil em direção ao candidato do PSD.

A candidatura de Paes também seria beneficiada pela avaliação positiva de suas administrações na Prefeitura do Rio e pelo contraste com as sucessivas crises enfrentadas pelo Governo do Estado.

Candidatura de Douglas Ruas enfrenta desidratação

Grande parte da conversa foi dedicada à situação de Douglas Ruas. Deputado estadual de primeiro mandato e filho do prefeito de São Gonçalo, Capitão Nelson, Ruas assumiu a condição de candidato do PL depois de uma série de mudanças no tabuleiro político fluminense.

Os participantes classificaram a ida de Thiago Pampolha para o Tribunal de Contas do Estado como uma espécie de “efeito borboleta” da eleição. A saída de Pampolha abriu espaço para Rodrigo Bacellar assumir maior protagonismo, mas o afastamento do então presidente da Alerj provocou uma nova reorganização, que terminou com Douglas Ruas apresentado como candidato do grupo governista.

Desde então, porém, a chapa vem acumulando perdas. A desistência de Rogério Lisboa de disputar a Vice-Governadoria foi apontada como um dos sinais mais evidentes de enfraquecimento.

Ex-prefeito de Nova Iguaçu, Lisboa possui forte influência política na Baixada Fluminense e bom relacionamento com prefeitos e parlamentares. Sua saída, somada à ausência de uma indicação imediata do PP e do União Brasil para substituí-lo, pode indicar uma posição de neutralidade da federação.

Essa neutralidade não significaria que todos os integrantes dos dois partidos deixariam de apoiar Douglas Ruas. Na prática, contudo, prefeitos, deputados e candidatos proporcionais ficariam livres para escolher entre Ruas, Paes ou outro candidato.

Para Mariano e Kazuhiro, o problema central da candidatura do PL é a perda da expectativa de poder. Sem controlar o Governo do Estado e sem uma ampla coligação, Ruas teria dificuldades para atrair prefeitos, organizar palanques regionais e aumentar seu nível de conhecimento entre os eleitores.

Apesar disso, os cientistas políticos consideram que Douglas ainda tem motivos para permanecer na disputa. A campanha ao Governo do Estado poderia torná-lo mais conhecido, consolidar seu nome entre os eleitores conservadores e prepará-lo para futuras eleições.

A eventual desistência dependeria menos de uma decisão pessoal e mais de uma articulação nacional do PL e da família Bolsonaro.

Garotinho pode provocar segundo turno

Anthony Garotinho aparece como o principal elemento de incerteza na disputa. O ex-governador foi lançado pelo Republicanos e já surgiu à frente de Douglas Ruas em pesquisa de intenção de voto.

Mariano e Kazuhiro consideraram que o desempenho inicial de Garotinho deve ser analisado com cautela. Enquanto Douglas ainda é pouco conhecido pelo eleitorado, Garotinho possui décadas de exposição pública, já governou o estado e pertence a uma das famílias políticas mais conhecidas do Rio de Janeiro.

A possível união entre Republicanos e PL, com o apoio do bolsonarismo a Garotinho, poderia mudar o cenário. O ex-governador reuniria seu eleitorado tradicional, parte importante dos votos evangélicos e os eleitores ligados à família Bolsonaro.

Essa composição poderia dificultar uma vitória de Eduardo Paes no primeiro turno. Por outro lado, os participantes avaliam que a rejeição acumulada por Garotinho ao longo de sua trajetória favoreceria Paes em uma eventual disputa direta no segundo turno.

O candidato do PSD poderia, portanto, enxergar a candidatura de Garotinho de forma agridoce: ela reduziria suas chances de resolver a eleição no primeiro turno, mas poderia facilitar uma vitória na etapa final.

Disputa pelo Senado segue indefinida

A fragmentação da direita também afeta a eleição para o Senado. Carlos Portinho foi anunciado como candidato do PL, mas ainda dependeria de uma forte transferência de votos de Flávio Bolsonaro.

Uma composição entre PL e Republicanos poderia fortalecer a candidatura de Marcelo Crivella. Caso Garotinho fosse apoiado pelo bolsonarismo para o Governo do Estado, uma chapa com Portinho e Crivella para o Senado reuniria dois partidos com forte presença no eleitorado conservador e evangélico.

A multiplicação de candidaturas de direita, contudo, pode beneficiar Benedita da Silva (PT), que aparece consolidada no campo da esquerda. Enquanto os adversários disputariam votos semelhantes, Benedita teria um eleitorado mais organizado e menos dividido.

Pedro Paulo (PSD) também seria favorecido pela candidatura de Eduardo Paes. Tradicionalmente, candidatos ao Senado ligados a chapas competitivas para o Governo do Estado conseguem crescer durante a campanha.

Além disso, políticos que ainda não declararam apoio formal a Paes já começam a se aproximar do grupo por meio da candidatura de Pedro Paulo. O deputado federal Júlio Lopes (PP), por exemplo, anunciou apoio ao nome do PSD para o Senado.

PSD pode superar o PL na Alerj

O fortalecimento de Eduardo Paes também deve influenciar as eleições proporcionais. Segundo os cientistas políticos, a chapa do PSD para deputado estadual tem condições de crescer e até ultrapassar a bancada do PL na Alerj.

Atualmente dono da maior bancada da Casa, o PL perdeu parte da estrutura que possuía no Governo do Estado. A exoneração de servidores comissionados e o afastamento de aliados políticos reduzem a capacidade de mobilização de candidatos que antes contavam com a máquina estadual.

O PSD, por outro lado, mantém o controle da Prefeitura do Rio, reúne prefeitos do interior e conta com uma nominata considerada competitiva.

Entre os nomes citados para a disputa estadual estão Pedro Duarte, João Pires e Joyce Trindade. Os participantes estimam que o partido possa eleger entre 12 e 15 deputados estaduais, dependendo do desempenho de Paes e da capacidade de seus candidatos de aproveitar o desgaste da atual composição da Alerj.

Na eleição para deputado federal, o PSD precisará compensar a saída de Pedro Paulo, que disputará o Senado. O partido aposta em vereadores como Márcio Ribeiro, Salvino Oliveira, Rafael Aloisio Freitas e Felipe Boró.

Somados, os quatro tiveram uma votação expressiva na eleição municipal e poderão ampliar suas bases para além da capital durante a campanha para a Câmara dos Deputados.

Esquerda chega mais organizada

Enquanto os partidos de direita ainda discutem candidaturas, alianças e composições, a esquerda aparece com um cenário mais definido.

A candidatura presidencial, a chapa para o Governo do Estado, os nomes para o Senado e as principais nominatas proporcionais já estariam mais consolidados. Essa organização reduz conflitos internos, mas não significa necessariamente um crescimento expressivo.

Na avaliação de Mariano e Kazuhiro, a esquerda possui um eleitorado relativamente estável no Rio. O desafio será encontrar espaço entre eleitores de centro e centro-direita que já votaram em candidatos conservadores, mas não rejeitam nomes ligados ao campo progressista.

Marcelo Freixo, por exemplo, foi apontado como um nome com potencial para obter uma votação expressiva para deputado federal. Sua passagem pela Embratur teria ampliado sua imagem para além das pautas tradicionais da esquerda e melhorado sua relação com setores ligados ao turismo.

Cenário pode mudar até o registro das chapas

Apesar das tendências apresentadas, os participantes ressaltaram que o quadro ainda está longe de ser definitivo.

As convenções partidárias, as decisões nacionais envolvendo PL, PP, União Brasil e Republicanos e o julgamento sobre a situação do Governo do Estado podem provocar novas mudanças.

A possibilidade de eleição direta ou indireta para o Palácio Guanabara, dependendo das decisões judiciais, adiciona mais um componente de instabilidade a uma campanha que já começou marcada por desistências, afastamentos e rearranjos partidários.

Até o registro das candidaturas, em 15 de agosto, Douglas Ruas ainda poderá permanecer na disputa, buscar uma nova composição ou ceder espaço para um acordo entre o PL e Anthony Garotinho.

Por enquanto, a principal conclusão do debate é que Eduardo Paes lidera não apenas as pesquisas, mas também a disputa pela expectativa de poder. E, na política fluminense, muitas vezes é essa expectativa que determina para qual lado os prefeitos, deputados e partidos decidem pular.

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